AVIAÇÃO

Parentes de vítimas criticam absolvição de Air France e Airbus por acidente: "Paródia de justiça"

As duas empresas foram julgadas na França pelo homicídio culposo das 228 vítimas da tragédia com o voo 447

Ophelie Toulliou é irmã de uma das 228 vítimas da queda do voo 447 da Air France, em 2009 Ophelie Toulliou é irmã de uma das 228 vítimas da queda do voo 447 da Air France, em 2009  - Foto: AFP/Bertrand Guay

Assim que a presidente do tribunal que julgou a Air France e a Airbus declarou a absolvição das duas empresas da acusação de homicídio culposo, alguns parentes das vítimas do voo 447 ficaram de pé, surpresos com o veredicto.

A juíza continuou a leitura na grande sala de audiência em um silêncio sepulcral. A sentença, proferida nesta segunda-feira (17), provocou a indignação dos familiares, que lotaram o espaço junto a representantes das companhias acusadas e de jornalistas.

— Admito que hoje tenho muita dificuldade em compreender o sistema de justiça do meu país. Não faz sentido para mim — reagiu com voz trêmula Ophélie Toulliou, que perdeu seu irmão no acidente. Ela revelou sentimentos de "injustiça" e de "incompreensão" ao dar entrevista em Paris após ouvir a sentença.

'Não vou dizer que estou surpresa'
No Brasil, Renata Mendonça, viúva de um dos passageiros do voo, disse que hoje é um dia muito difícil para os parentes das vítimas do acidente:

— Hoje é um dia muito difícil para as famílias do 447. Mas eu não vou dizer que a gente está surpresa. O que a gente viu nas audiências de Paris, em novembro do ano passado, já dava essa pista para a gente. Infelizmente fomos cobaias. Pagamos com a vida dos nossos queridos — lamenta a consultora de comunicação, em vídeo enviado ao RJTV, da TV Globo.
 

Renata lembra que o acidente levou a mudanças na aviação:

— A própria aviação, após esse acidente, implementou 12 novos regulamentos, ou seja, a gente tem a comprovação que existiram várias falhas técnicas. O que a gente pode dizer é isso, que o nosso acidente serviu para ajudar e prevenir que outros acidentes viessem a acontecer. Mas é muito decepcionante. O que nos conforta é que esse acidente mudou a história da aviação — destaca.

Em Paris, Claire Durousseau, tia de uma das vítimas da tragédia, criticou a impunidade das duas empresas:

— Eles nos disseram claramente: eles são responsáveis, mas não punidos. Houve erros cometidos. E então, apesar dos erros, ninguém é punido. Já nós, se erramos, somos punidos. Você também será punido. E eles não. É total impunidade. Portanto, estamos realmente, eu lhe digo, mas infelizes, infelizes, infelizes de morrer.

Danièle Lamy, presidente da associação Entraide et Solidarité AF447 (Cooperação e Solidariedade AF447), que representa os parentes das vítimas, se disse enojada com o resultado:

— Desde 2013, há 5.022 dias, trabalhamos, trabalhamos para obter, de fato... Procuramos o avião, esperamos um julgamento, obtivemos um julgamento e esperamos um julgamento imparcial. Não foi o caso. Estamos enojados — criticou Danièle em entrevista após a sentença ser divulgada. — O que resta desses 14 anos de espera é desespero, consternação e raiva.

Danièle Lamy afirmou ainda que não cabe comentar a decisão judicial, mas se queixou da "impunidade":

— O que podemos dizer sobre tal resultado? Nada. Já que não nos cabe comentar uma decisão judicial. A impunidade reina entre os poderosos. A injustiça oprime os pobres. Os séculos passam, nada muda.

Para Philippe Linguet, irmão de uma vítima e vice-presidente da associação Entraide et Solidarité AF447, o julgamento foi "uma paródia de justiça":

— Deram um julgamento às famílias das vítimas para se livrarem de nos terem feito esperar por 13 anos, mas deram um veredicto de absolvição para não minar a credibilidade de duas joias da indústria francesa e europeia. Assistimos a uma paródia de Justiça... Fomos manipulados pela senhora Daunis (Sylvie, presidente do tribunal) que preferiu sua carreira à verdade. Você é uma magistrada menor, senhora.

Imprudência ou negligência
Para o tribunal, a Airbus cometeu "quatro imprudências ou negligências", em particular por não ter substituído os modelos de sondas Pitot chamadas "AA", que pareciam congelar com maior frequência, nos aviões A330 e A340, e por "reter informações".

O conteúdo das caixas-pretas, recuperadas dois anos após o acidente a confirmou que o acidente foi motivado pelo congelamento das sondas de velocidade no momento em que o avião estava em voo de cruzeiro, em uma zona com condições meteorológicas adversas denominada Zona de Convergência Intertropical. O problema levou os aparelhos a emitirem informações incorretas sobre altitude, o que fez com que os pilotos perdessem o controle do avião.

Para o tribunal, a Air France cometeu duas "imprudências", relacionadas com os métodos de divulgação de uma nota informativa dirigida aos seus pilotos sobre as falhas das sondas.

Na esfera criminal, no entanto, segundo o tribunal, "uma relação de causalidade provável não é suficiente para tipificar um crime. Neste caso, como se trata de falhas, não foi possível demonstrar nenhum nexo de causalidade com o acidente".

A Air France “toma nota do julgamento”, de acordo com um comunicado. "A empresa sempre lembrará a memória das vítimas deste terrível acidente e exprime sua mais profunda solidariedade a todos os seus entes queridos." A Airbus considerou que a decisão judicial foi “coerente” com a decisão proferida no final da investigação em 2019. O grupo também expressa a sua “compaixão” aos familiares das vítimas, e “reafirma (o seu) total empenho (.. .) em termos de segurança da aviação”.

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