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Paróquia no Centro do Recife mantém casa para garantir dignidade aos desassistidos

Pessoas passam diariamente pelo local para tomar banho, rezar e jantar

Trabalho feito na Paróquia Nossa Senhora da PiedadeTrabalho feito na Paróquia Nossa Senhora da Piedade - Foto: Ed Machado/ Folha de Pernambuco

É preciso muito pouco: uma casa, pessoas dispostas a doar tempo e/ou dinheiro, mudas de roupas usadas, itens de higiene e “um banheiro digno, para um banho digno”. A dignidade dos assistidos pela Paróquia Nossa Senhora da Piedade, no bairro de Santo Amaro, área central do Recife, é a principal preocupação do padre diocesano Francisco Caetano no espaço aberto há cerca de um mês, batizado por ele de “La maison de la pitié” (traduzindo do francês: A casa da piedade). Quis dar à casa um nome que não remetesse à carência pela qual passam as pessoas atendidas. “A fome machuca o corpo e a humilhação machuca a alma. Aqui, ninguém dorme com fome”, diz.

Por dia, em torno de 100 pessoas têm espaço para tomar banho, um kit para higiene pessoal, uma muda de roupa, sapato, oração e jantar. “Vêm aqui moradores de rua além das famílias assistidas. Tem pedreiro, garçom, mecânico, todos desempregados que não têm comida em casa”, diz.

Nessa quarta (16), a sopa servida veio do Tempero da Mamãe, mas vários outros restaurantes do entorno são parceiros. As portas da Maison abrem de domingo a domingo, a partir das 17h para o banho, com jantar servido às 18h; o cardápio é diferente a cada dia e inclui, além da sopa, galinhada, pizza, pães, café, leite... tudo doado.

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A igreja atende ainda 30 famílias vizinhas.“Estão na área da minha paróquia, eu sou o responsável”, diz padre Caetano. Todas possuem cadastro atualizado a cada seis meses e ajuda de uma cesta básica, além das refeições noturnas diárias. Essa assistência detectou um aumento “drástico” do desemprego, que tirou a comida da mesa, confirma o padre. A manutenção das ações entra na lista de despesas da paróquia, cuja renda mensal gira em torno dos R$ 17 mil – e as ações incluem ainda atendimento médico (pediatra, clínico geral, ginecologista), psicológico e odontológico realizado por voluntários.




Assistidos

Antônio Araújo, 63, serralheiro e morador de rua, chegou pontualmente às 18h, para jantar. Em geral, ele dorme no Terminal Integrado de Passageiros (TIP, no bairro do Curado) e está há quase 10 anos nessa situação, à procura de emprego - com a idade já avançada para o mercado numa mão e um curso de auxiliar de cozinha no Senac na outra. “A fumaça da solda já estava me fazendo mal, precisava mudar de área”, conta. Ontem foi o terceiro dia dele na Maison, uma acolhida que ele chama de “maravilhosa”. “Foram meus amigos da rua do Imperador, que também vivem na rua, que me falaram daqui”, conta.

Os primeiros a tomar banho na Maison, essa quarta, foram Grazielle e Fábio, também moradores de rua, onde estão há um mês. Com ele desempregado, ficou impossível continuar pagando aluguel. Ambos têm 30 anos e “ficam” nas redondezas do Parque Treze de Maio, no Centro da cidade. “Estar na rua é estar à mercê de tudo, principalmente das drogas”, ela resume. Eles não têm dinheiro. O que acontece é que “pessoas oferecem em troca de ajuda”. Noutras palavras, usuários os fazem de atravessadores e, em troca, oferecem drogas. “Hoje mesmo uns ‘playboys’ chegaram lá pra gente fumar um baseado. Tudo menino de família”.

Fábio é ex-presidiário. Grazi conta que ele foi preso “porque foi mexer no que é dos outros”. Ela está em situação de rua pela segunda vez na vida. Conversa reticente até tomar um pouco de confiança: “Já passei muita fome. É o maior desespero do mundo ver os filhos passando fome e não ter comida. Eu me desesperei, me prostituí para ter o que dar a eles. Fiquei três meses nessa até ver que não dava para mim e fui atrás da minha mãe. Eu sabia que era a única pessoa que ia me ajudar”, diz. Os quatro filhos dela (com idades entre 15 e 8 anos) moram com a avó.

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