Pernambuco na onda da Robótica

Utilização dos kits de robótica nas salas de aula aumenta interesse e ajuda na evolução da rede estadual

Cinderela Cinderela  - Foto: Divulgação

Uma ferramenta capaz de transformar as aulas de matérias das Ciências Exatas, como Física e Matemática, em algo atrativo para os alunos. Que desenvolve aspectos importantes para crianças e jovens em fase de formação, como a criatividade, sociabilidade, a concentração e senso de coletividade. E que ainda proporciona, para aqueles que se destacam, a possibilidade de conhecer outras cidades e até mesmo outros países. Essa é a Robótica, uma metodologia que tem ganhado bastante espaço nas escolas da rede estadual de ensino público e que é mais um dos diferenciais da, hoje, melhor educação pública do Brasil.

A Robótica começou a ser implantada nas escolas públicas de Pernambuco em 2012, quando foram adquiridos kits para 226 escolas. Os professores e os chefes das Gerências Regionais de Educação passaram por formações para aprenderem a utilizar os kits nas aulas e logo a ferramenta se tornou muito atrativa para a movimentação das aulas de Matemática e Física. Assim, o número subiu para 324 escolas, com cerca de 130 mil alunos atendidos.

“É um grande diferencial, um atrativo. As pessoas que não gostam de Física e Matemática acabam criando um bloqueio com essas matérias. Quando a gente consegue trazer equipamentos, metodologias diferentes, que derrubam esses paradigmas, a gente percebe que há uma melhora dos alunos. Com o equipamento, a aplicação dos conteúdos passou a ser muito mais interessante”, explica a gerente de Políticas Educacionais do Ensino Médio, Raquel Queiroz.

As aulas de Robótica são priorizadas nas Escolas de Referência do Ensino Médio (EREM) e nas Escolas Técnicas Estaduais (ETE), que contam com jornada em tempo integral. Uma vez por semanas, os alunos dos três anos do Ensino Médio têm aulas específicas com a ferramenta. “Ela é um tema transversal nas aulas de Matemática ou de Física, dependendo do conteúdo a ser aplicado em sala de aula. Não entrou na matriz curricular, mas é obrigatoriedade da escola oferecer para o estudante”, explica a gerente.
Os alunos são desafiados a exercitar diversas habilidades, que vão desde a montagem dos robôs, que podem ser veículos ou mesmo animais, integrando os aspectos tecnológicos à formação a partir da resolução de situações-problema propostos pelos professores. Deste modo, não se promove apenas a formação de um usuário de tecnologia, mas também criam-se novas situações para a aprendizagem.

A Escola Estadual Escritor José de Alencar, em Maranguape I, Paulista, é uma referência em Robótica entre as escolas do Ensino Médio de Pernambuco. Não apenas na rede pública. Já conquistou títulos estaduais e representou o País em competições internacionais. De acordo com José de Almeida Cordeiro, que é professor da rede estadual há 28 anos e que desde 2002 é gestor da José de Alencar, o interesse em Robótica foi desenvolvido pelos próprios alunos, a partir do oferecimento da ferramenta pela escola. “Nós tínhamos um aluno que era encantado com a Robótica e acabou como um elo de ligação com os demais alunos. Ele já saiu e deixou outros alunos. Outros que já estão no 3º ano formaram os que ainda estão no 1º ano. E assim vai, a roda está sempre girando”, revela Almeida.

O gestor da José de Alencar explica que, através da montagem e programação dos robôs e dos diversos tipos de circuitos eletrônicos, os alunos que se interessam por Robótica têm a oportunidade de participar de um universo que gera conhecimento e, por conta das competições, interação. “É uma motivação para o estudante buscar a escola além dos muros. Através da Robótica, eles passam a ter contato com pessoas de outras escolas, de outras cidades e até de outros estados. A gente não vê mais como competição, mas como uma grande integração, uma oportunidade de compartilhamento do conhecimento”, explica.

Escola de Paulista é referência

A Escola Estadual Escritor José de Alencar é mas das representantes de Pernambuco nas disputas da Olimpíada Brasileira de Robótica, que acontece até a próxima quarta-feira, no Riomar Shopping. Algo que já está virando rotina para os alunos da escola de Paulista-PE, que há alguns anos tem dominado as competições no Estado e até disputado torneios nacionais.

Edson Acioly tem 17 anos e já participa de competições de Robótica há alguns anos. Ele é uma das “crias” da José de Alencar e é uma espécie de “capitão” da equipe NanoBit. É que cada equipe conta com quatro integrantes, sendo três montadores e um único programador, papel desempenhado por Edson, que é quem dá os comandos ao robô utilizado na disputa. “Na prática, todo mundo faz um pouco das duas funções”, afirma.

O aluno do 3º ano da José de Alencar é um bom exemplo dos benefícios que a Robótica pode gerar. Ele conta que, além do aspecto pedagógico, a ferramenta foi importante para a sociabilidade. “É uma coisa muito boa, que tem dado muita oportunidade pra gente.

Ajuda nas matérias, ajuda a gente a ter uma boa lógica em Matemática e Física. E também ajuda a fazer novos amigos. A robótica me ajudou a perder a timidez”, garante. Os outros praticantes da Robótica na José de Alencar reforçam o discurso de Edson e só enxergam coisas boas em dedicar tempo à atividade. “Traz organização, melhora o desempenho. A gente aprende a mexer mais com eletrônica. Ajuda na Matemática, na Física”, enumera Hugo César, 17, que faz parte da NanoBit junto com Edson, João Victor Albuquerque, 16, e Marcus Vinícius Chaves, 16.

Como as disputas acontecem em equipe, os alunos são obrigados a atuar coletivamente e acabam fortalecendo os laços de amizade entre eles. “Quando a gente entrou na robótica, a maior parte do pessoal era muito calada. Foi aqui que a gente passou a ter mais contato com outras pessoas. Somos como uma família. Somos todos ‘nanos’. É um vínculo muito bom que conseguimos criar”, diz Sarah Bethelim, 17. “Aqui é sempre um ajudando o outro a obter conhecimento”, explica Luiz Henrique, também de 17.

Como a roda da Robótica não para de girar na José de Alencar, novos alunos já estão inseridos no universo da montagem e programação, a fim de levar adiante o legado deixado por Edson, Hugo, Sarah, Luiz Henrique e outros que estão no último ano do Ensino Médio. Mirela de Castro, de 15 anos, está no 1º ano e disputou sozinha a seletiva estadual. Para Caio Santos, também de 15, a Robótica transformou a escola em algo muito mais legal de ser frequentada. “Incentiva sempre a gente a querer aprender mais. Antes, muita gente vinha pra aula sem motivação. Com a robótica, não. Já é um incentivo a mais pra gente frequentar a escola”, garante. 

Recife também se destaca

Se as escolas da rede pública estadual de ensino são referência na robótica no Ensino Médio, os alunos das unidades da rede pública municipal são destaques nas disputas reservadas para equipes do Ensino Fundamental. Graças ao bem-sucedido programa Robótica nas Escolas, implantado em 2014 pela Prefeitura do Recife, que atende a mais de 73 mil alunos, desde as crianças do grupo 3 da Educação Infantil até os jovens do 9º ano do Ensino Fundamental.

Na fase final da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), que começou ontem, no Riomar Shopping, a rede municipal contará com cinco equipes brigando pelo título. Entre elas está a da Escola Municipal Rodolfo Aureliano, que é a atual campeã brasileira e representou o País na Robot Cup deste ano, na Alemanha, quando conquistou um honroso 8º lugar. A rede pública municipal conta ainda com as participações das Escolas Municipais da Iputinga, de Tejipió e Paulo VI, que competem no Nível 1 (Ensino Fundamental), além do time da Unidade de Tecnologia na Educação (Utec) Gregório Bezerra, que inclui ex-alunos integrantes da equipe campeã brasileira de robótica em 2015. Esse último time participa da OBR no Nível 2, voltado para o Ensino Médio.

No total, são 18 alunos e alunas, que contam com o apoio de 14 professores, técnicos pedagógicos e estagiários da Secretaria de Educação do Recife. A rede municipal de ensino do Recife já tinha sido campeã estadual em 2014, com a equipe da Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Dom Bosco. "Somos campeões nacionais da OBR, vencemos duas vezes a etapa estadual e estamos confiantes em conseguir outro ótimo resultado. Conquistas como estas evidenciam o sucesso do programa, que faz os alunos aprenderem como se estivessem brincando", afirma o secretário de Educação do Recife, Jorge Vieira.

Em sala de aula, os alunos da escolas públicas do Recife têm mais contato com os robôs feitos com blocos de encaixe da Lego Education, que são os mais utilizados nas competições. Todas as 309 unidades de ensino da rede municipal receberam kits de robótica de encaixe, mas cabe aos professores optar por utilizar esse recurso pedagógico em suas aulas - não existe seleção para participar delas. 

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