Um Centro de Convivência para evitar que dores como as de Conceição Guedes Pereira se repitam
Promotora da Pessoa Idosa defende instalação de novas unidades para ampliar rede de apoio e proteção
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O Centro de Convivência da Pessoa Idosa Maria da Conceição Guedes Pereira, no bairro das Graças, Zona Norte do Recife, foi inaugurado nesta sexta-feira (23), para que as dores da professora de piano, que dá nome ao espaço, não se repitam. Esta é a luta da promotora da Pessoa Idosa do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) Luciana Dantas.
“A história de Conceição é muito triste. Ela não casou, não teve filhos, não tinha grupo de amigos, nem parentes próximos”, relata a promotora que há 15 anos acompanha o caso. “O centro surge para evitar situações assim. É preciso criar laços e, sobretudo, dispor de uma rede de apoio e proteção”, enfatiza Luciana Dantas.
Maria da Conceição Guedes Pereira era filha do engenheiro Paulo Guedes Pereira, renomado professor da Escola de Engenharia do Recife.Morava sozinha no casarão de dois pavimentos construído em 1920, início do século passado.
Era acompanhada por duas cuidadoras. Perto de completar 90 anos sofreu uma queda, quebrou o fêmur e não recebeu sequer os primeiros socorros, nem os devidos cuidados depois.
Exploração
Ao contrário. O filho de uma das cuidadoras aproveitou-se da situação e a obrigou a assinar uma procuração lhe dando poderes para representá-la. Apresentando-se como advogado da aposentada, chegou a vender um imóvel que pertencia a ela e a movimentar sua conta bancária.
O gerente da agência desconfiou e denunciou ao Ministério Público. A investigação acabou sendo reforçada por relatos de vizinhos de uma autoescola, que à noite ouviam gritos de dor.
Uma equipe do MPPE chegou ao local para vistoriar. Os envolvidos, favorecidos pelo tamanho do imóvel, fugiram. A assistente social Tânia Alves de Brito encontrou Conceição sozinha, sentindo dores, mas lúcida.
Crimes
Ela mesma contou o que estava enfrentando, apresentou nomes de alguns parentes e pediu para que tão logo morresse o imóvel tivesse cultura e cidadania como destino. A equipe do Ministério Público constatou crimes de cárcere privado e violência corporal e psicológica.
“Procuramos parentes, primos em segundo grau, família afetiva ou estendida. A busca foi grande, mas não encontramos quem admitisse qualquer ligação ou quisesse cuidar da idosa”, conta Luciana Dantas, acrescentando que todos os passos foram catalogados e compõem um relatório de quase 200 páginas.
Doação
Maria da Conceição Guedes Pereira morreu, há mais de uma década, aos 102 anos. Sem herdeiros, o imóvel foi doado à Prefeitura do Recife, como estabelece o Código Civil.
E como recomenda o Ministério Público, a promotora Luciana Dantas se tornou agente político. Transformou os maus-tratos e a morte de Conceição em alimento da luta pela instalação de pontos de convivência.
Preservação
Repassou as chaves do casarão ao Poder Público Municipal, com direito aos móveis, utensílios, obras de arte. Teve outras iniciativas, entre elas pedir vistoria e orientação ao Instituto do Patrimônio Histórico, para que o imóvel fosse preservado. Fez lives, visitou o local, pelo menos, umas cinco vezes.
“Não foi um trabalho só meu. Tive apoio da equipe da promotoria, da comunicação do Ministério Público, do Conselho Municipal da Pessoa Idosa. Nossa missão agora é fazer com que esse seja o primeiro, mas não o único centro de convivência. Importante que espaços como esses se multipliquem para que se evite a depressão e se estimule a inclusão dos idosos. Tenho muito orgulho do nosso trabalho”, enfatiza Luciana Dantas.

