Pesquisa da CNT mostra que pavimentação no Brasil tem 40 anos de atraso

Japão, Portugal e EUA têm rodovias com alta durabilidade, mas, no Brasil, manutenção é deficiente e material é pouco resistente

Asfalto da BR-101 já expirou, mas só em setembro, pela primeira vez desde 1975, será recuperadoAsfalto da BR-101 já expirou, mas só em setembro, pela primeira vez desde 1975, será recuperado - Foto: Arthur Mota/arquivo folha

 

Quem nunca reclamou de asfalto que parece se esfarelar na chuva? Ou de solavancos do veículo ao passar sobre remendos malfeitos? Na quinta-feira (24), a Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou um estudo inédito em que buscou responder por que os pa­­vimentos das rodovias do Brasil não duram. A conclusão foi que se usa metodologias atrasadas em até 40 anos em relação às de paí­­ses como Estados Unidos, Japão e Portugal. Ficou evidente ainda que faltam manutenção e fiscaliza­­ção das obras, algumas com deficiências técnicas que acabam custando até 24% do valor total dos projetos.
Portugal, por exemplo, é do tama­­nho de Pernambuco e considera três zonas para calcular o impacto das variações climáticas sobre técnicas e materiais usados. Aqui, a falta dessa diferenciação é um item de precisão a menos nos projetos. A ausência de cuidado é outro fator. Muitas rodovias já passaram de seu tempo de vida útil e, mesmo assim, só recebem reparos pontuais. Quase 30% não têm contrato de manutenção. Um caso prático é o do tre­­cho da BR-101 que corta o Grande Recife. Ele costuma passar por operações tapa-buraco cujos efeitos se perdem a cada inverno. Só a par­­­tir de setembro é que começará a ser recuperado em definitivo, pela primeira vez desde 1975.

Ainda conforme o estudo, 99% das estradas pavimentadas no Brasil têm asfalto em vez de concreto na composição. O primei­­ro tem vida útil estimada entre oito e 12 anos, e o segundo, entre 25 e 30 anos. Significa que usar asfalto é que tem sido o problema para tanta buraqueira? “Não. O pavimento de concreto é uma solução quando você tem condições de tráfego pesa­­­do. Para uma rodovia de tráfego lento, é jogar dinheiro fora”, explica o professor da UFPE Maurício Pi­­­na. “Mas há o excesso de peso. Já vimos caminhão com 21 toneladas num eixo, quando poderia ter dez. Não tem pavimento que aguente.”

Presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Civis no Estado (Abenc-PE), Stenio Cuentro afirma que há casos em que a espessu­­ra do pavimento é pequena e confirma que, em ou­­­tras partes do mundo, há materiais mais resisten­­­tes em uso. “Nossa tecnologia ficou como que 30 anos para trás, só que, nesse tempo, os caminhões come­­çaram a sair de fábrica aguentan­­­do mais peso. O peso é a primeira grande causa da destruição do pavimento”, avalia. A Polícia Rodoviá­­­ria Federal diz que, em Pernambuco, há cinco balanças em operação e que, nos primeiros sete meses de 2017, o total de autuações por exces­­­so de peso subiu de 356 para 509 em relação ao mesmo período de 2016, com o flagrante de 3,2 mil to­­neladas a mais em veículos de carga.

O estudo analisou condi­­­ções das estradas nos últimos 13 anos. Para o presidente da CNT, Clésio Andra­­­de, é preciso inves­­­tir mais. “Precisa­­­mos de uma políti­­­ca de transpor­­­te multimodal e in­­­tegrada, com ga­­­­rantia de investimentos consis­­­tentes, a longo prazo, para superar o atraso em infraestrutura”, afirma.

 

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