El Niño pode intensificar presença de tubarões em Pernambuco, diz pesquisador da UFRPE
"O que estamos observando, principalmente em regiões insulares, é que esses tubarões, durante o período migratório, estão permanecendo mais tempo nesses locais", disse o professor
O aquecimento das águas do Oceano Pacífico, através do fenômeno El Niño, pode ser uma explicação viável para a permanência de diferentes espécies de tubarões na zona costeira do estado de Pernambuco. Quem argumenta é o coordenador do curso de engenharia de pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Paulo Oliveira. Principalmente em casos que envolvem incidentes com o tubarão-tigre.
O mundo vive a expectativa de um possível “super El Niño” nos próximos meses, que deve ser sentido já no segundo semestre de 2026. Relembrando que o fenômeno produz o aquecimento acima da média histórica de 28°C nas águas do Oceano Pacífico Equatorial e as consequências podem ser sentidas em várias partes do globo.
Possibilidades
No Nordeste brasileiro, além de provocar menos chuvas, mais calor e tempo seco, o fenômeno também pode gerar impactos na vida marinha. Os tubarões são considerados extremamente sensíveis a essas mudanças, gerando alterações comportamentais.
Na última segunda-feira, um incidente com um tubarão-tigre aconteceu na praia de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. A vítima, Marcela Vitória de Lima Santos, 19 anos, teve a perna direita amputada.
O caso aconteceu apenas um dia após outro incidente ter sido registrado na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife (RMR). João Lucas Castor Nemézio Sales, de 11 anos, foi mordido por um tubarão-cabeça-chata e teve a perna esquerda amputada. Ambos seguem internados no Hospital da Restauração (HR), apresentando “estabilidade clínica e sem novos sangramentos”, segundo informou a instituição.
“O tubarão-tigre é um animal que está sendo estudado por nós e por vários pesquisadores do mundo inteiro e, diferente do cabeça-chata, ele é uma espécie essencialmente migratória”, iniciou Paulo.
“O que estamos observando, principalmente em regiões insulares, é que esses tubarões, durante o período migratório, estão permanecendo mais tempo nesses locais. Por exemplo, em Fernando de Noronha, quando a gente começou a fazer o monitoramento, os tubarões-tigre permaneciam semanas ou, no máximo, meses sendo detectados por nossa rede. Hoje, nós temos tubarões que estão há quase três anos sem sair do arquipélago”, revelou o pesquisador.
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De maneira geral, a maioria dos tubarões são de sangue frio. A temperatura de seus corpos é semelhante à temperatura da água ao seu redor. O professor explica que será necessário analisar o Oceano Atlântico para entender qual ambiente será mais favorável para a presença desses animais.
“Eles têm um limiar de qual temperatura é ideal para eles. Então, se a água esquenta ou esfria muito, eles podem ficar desconfortáveis. Isso pode provocar uma migração, saindo para procurar outro lugar ou, se permanecerem, vão ficar cada vez mais estressados, porque a alteração de temperatura catalisa muitas reações no corpo”, explicou.
Projeto liderado pelo pesquisador irá monitorar tubarões na costa do estado | Foto: Tarciso Augusto/Meio Ambiente PernambucoPesquisa
Visando o monitoramento desses animais, o professor Paulo Oliveira desenvolveu um projeto vinculado ao Programa Cientista Arretado, do governo de Pernambuco. A expectativa é que a ação tenha início ainda neste mês de junho.
O programa de monitoramento dos tubarões está em fase de trâmites burocráticos para que recursos superiores a R$ 1 milhão, ao longo de dois anos, sejam liberados. O montante será importante para compra de equipamentos, embarcações e aparelhos de pesca.
“Levaremos a informação, não só dos resultados desse monitoramento, mas acerca da ecologia e biologia desses animais para a população em geral, para que dessa forma a população assuma uma condição mais apropriada para a utilização dessa linha de costa e do mar de uma maneira mais segura”.
A expectativa é que cerca de 50 transmissores, também chamados de chips, sejam adquiridos, cada unidade no valor de R$ 6 mil, além de dez receptores para a rede de monitoramento dos tubarões, ao custo de R$ 20 mil.
“Os equipamentos são exatamente os de marcação e monitoramento. Os chips vão ser inseridos nos tubarões e os receptores vão ficar dentro da água. Todas as vezes que o tubarão marcado passar num raio de 500 a 700 metros, a depender, obviamente, da condição da água, esse equipamento vai detectar essa presença”, detalhou.
Projeto de monitoramento dos tubarões contará com cerca de 30 pesquisadores | Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco Vale ressaltar que o monitoramento não será realizado em tempo real nem evitará, por si só, novos incidentes.O intuito passa por entender os comportamentos dos animais, transmitindo conhecimento à população sobre o cenário.
“A gente precisa dos dados da nossa região, verificar quais são os padrões de utilização dos espaços por parte dos tubarões. Por exemplo, aconteceram esses dois incidentes agora nessa época chuvosa, onde a água está turva, mas esse padrão vai permanecer no verão? Esse padrão permanece nessa zona costeira? Eles se afastam mais ou ficam mais na região do estuário? A ideia é realmente responder a todas essas perguntas”, indicou.
Ainda sobre o questionamento se seria possível ter algum material que alertasse quando um tubarão se aproximasse da praia, o professor fez uma ressalva.
“Seria possível instalar um equipamento na água para que, quando o animal se aproximasse da praia, gerasse esse alerta. O problema é que ele só ia detectar e daria o start desse alerta de um animal que estivesse com o chip. Então, se aproximar um animal que não tenha recebido esse transmissor, as pessoas vão achar que a praia está segura, mas a realidade pode não ser essa”, ressaltou.
Cuidados
Os receptores que vão formar a rede de monitoramento estarão posicionados em pontos com histórico de incidentes, como, por exemplo, na Igrejinha de Piedade.
O projeto visa a captura, marcação, soltura e o monitoramento desses animais marcados. A pesca dos tubarões será um pouco mais afastada da linha da praia, mas a distância ainda será determinada a partir dos equipamentos que serão adquiridos.
Uma vez que forem capturados, o procedimento será realizado sem danos para os tubarões.
“O animal vai ser pescado com anzol circular, que a gente costuma chamar de canto de boca, sendo menos invasivo. E por ser circular, mesmo que alcance o trato digestório, a gente consegue tirar o anzol mesmo que ele esteja ‘fisgando’ por dentro”.
“Quando o animal for capturado, ele será embarcado. Um tecido escuro será colocado nos olhos para que ele fique tranquilo, além de botar uma mangueira com água salgada pela boca para que haja exatamente a troca gasosa. Esse processo de cirurgia e coleta de sangue de tecido dura em torno de cinco a sete minutos. É feita uma incisão de aproximadamente dois ou três centímetros na região ventral do animal. Depois, nós inserimos o chip e damos três ou quatro pontos para, em seguida, devolver o animal ao mar”, concluiu.

