Planalto intervém e centraliza a divulgação de informações sobre coronavírus

A Casa Civil encaminhou um ofício aos demais ministérios em que exige que todas as notas à imprensa sobre a pandemia de coronavírus recebam o aval do Palácio do Planalto antes da divulgação

Palácio do Planalto, sede do poder executivo do Governo FederalPalácio do Planalto, sede do poder executivo do Governo Federal - Foto: Reprodução/ Internet

Com o objetivo de "unificar a narrativa", a Casa Civil da Presidência da República encaminhou um ofício aos demais ministérios em que exige que todas as notas à imprensa sobre a pandemia de coronavírus recebam o aval do Palácio do Planalto antes da divulgação.

No mesmo documento, o chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, diz às demais pastas que todas as coletivas de imprensa de órgãos do governo sobre a Covid-19 deverão ser realizadas no Palácio do Planalto, em coordenação com a Secom (Secretaria de Comunicação Social da presidência).

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"Toda nota à imprensa a ser divulgada pelas Ascom [assessorias de comunicação] somente poderá ser publicada após coordenação com a Secom para que haja unificação da narrativa", diz o ofício. Braga Netto coordena o comitê de crise para coordenar e monitorar o combate à doença no Brasil.

Nos últimos dias, o presidente Jair Bolsonaro decidiu centralizar no Planalto os anúncios de ações do governo sobre o enfrentamento à pandemia. Nesta segunda-feira (30), o governo informou que seria adotado um novo procedimento para as entrevistas.  Ministério da Saúde terá de fazer seus comunicados à imprensa no palácio.

Na primeira entrevista nesse formato, nesta segunda, o ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde) foi o último a falar, depois de terem se pronunciado representantes da Casa Civil, Infraestrutura, Advocacia-Geral da União, Defesa e Cidadania. Nenhuma das pastas anunciou medidas novas, à exceção da Saúde. Braga Netto negou que as mudanças no formato da apresentação dos dados tivessem como pano de fundo problemas políticos.

As falas de Mandetta foram repletas de recados a Bolsonaro, antes da interrupção da entrevista. Apesar do anúncio do governo de que seriam aceitas oito perguntas, a entrevista foi interrompida depois da quarta, justamente após questionamento sobre as andanças de Bolsonaro no Distrito Federal no dia anterior.O ministro disse, por mais de uma vez, que continuará tendo uma atuação técnica no comando do enfrentamento da crise do coronavírus, que já matou 159 pessoas no Brasil.

"A pasta da Saúde continua técnica, continua científica", afirmou. "A Saúde é um norte, um farol. Enquanto não temos uma resposta mais cientificamente comprovada, a Saúde vai falar 'para e vamos evitar contágio'. Isso não é a Saúde ser boa ou má, estar certa ou estar errada. Isso é nosso instinto de preservação", disse Mandetta.

A atitude tomada pelo Planalto vai no sentido oposto a uma ação coordenada que ministros, integrantes do Congresso e do STF (Supremo Tribunal Federal) tentaram fazer no último sábado (28). O ministro Gilmar Mendes, do STF, foi escalado por Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e André Mendonça (AGU) para uma conversa com o presidente no Palácio da Alvorada.

O magistrado sugeriu a Bolsonaro que ele transformasse o comitê de crise em um órgão com poder efetivo, a exemplo do que fez Fernando Henrique Cardoso durante o apagão elétrico em 2001. À época, Gilmar estava à frente da AGU.

Incomodado com a publicação de matérias que expunham a tentativa de autoridades de fazê-lo mudar de postura e tirar o seu protagonismo, Bolsonaro reagiu. Menos de 24 horas depois de receber o conselho, Bolsonaro passeou pelo comércio de Brasília e deu um recado. "Alguns querem que eu me cale. 'Ah, siga o protocolo'. Quantos médicos não seguem o protocolo."

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