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Pluralidade de culturas marca o Carnaval de Pernambuco

A maior festa de Pernambuco é fruto da miscigenação responsável pela formação do Brasil como país

Integrantes do Maracatu Estrela BrilhanteIntegrantes do Maracatu Estrela Brilhante - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Se você pensa que o frevo tocado por orquestras de instrumentos de metal ou de pau e corda é apenas uma herança europeia, está enganado. “Fervida” a passos acelerados, a música e dança considerada símbolo do Carnaval de Olinda e do Recife tem origem híbrida, nascida da mistura do dobrado das bandas marciais e da polca-marcha trazida do Leste Europeu com o maxixe e a capoeira praticados pelos antigos escravos vindos da África.

A maior festa de Pernambuco, marcada por tradições centenárias que se expressam em pelo menos 17 polos, é fruto da miscigenação responsável pela formação do Brasil como país. Além do frevo, o maracatu e os caboclinhos, que remontam às raízes africanas e indígenas com todos os seus tambores, apitos, realeza e culto da jurema, compõem a própria identidade do Carnaval pernambucano, da forma como ela é divulgada para os turistas e para a população.

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No entanto, essas três expressões, por diversas que sejam, não dão conta de retratar a pluralidade de culturas que se vê na folia de hoje. Samba, axé, passinho, brega, funk, brega funk, swingueira, sertanejo, pop e até o rock anglo-saxão são alguns dos ritmos e danças que prometem se mesclar do Sábado de Zé Pereira à Quarta-Feira de Cinzas. Um cenário que começou a se formar no período colonial. “É interessante pensar como Pernambuco tem essa multiplicidade de expressões artísticas e como essas expressões dialogam em uma festa como o Carnaval”, comenta o antropólogo Leonardo Esteves, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Devido a essa característica, o Carnaval do Estado é difundido há alguns anos como multicultural. O conceito, no entanto, não é consenso entre os estudiosos. “Falar de multiculturalidade é também falar do problema da desigualdade. É, sobretudo, entender como essas agremiações se organizam durante o ano, como elas têm acesso a outras políticas que garantam uma certa equidade. Precisamos ir além do reconhecimento das diferenças”, considera o gestor cultural e doutor em Antropologia Eduardo Sarmento. “Precisamos avançar numa perspectiva de associar isso a uma agenda de direitos e à luta contra formas de discriminação social que extrapolam a sazonalidade do Carnaval”.

Para Leonardo Esteves, não existe, historicamente, uma fronteira nítida capaz de indicar onde começa e termina uma tradição cultural, já que todas essas expressões estabelecem relações entre si há décadas. “Elas estão sempre sendo influenciadas por outras práticas artísticas. Desde a origem, o Carnaval é essa mistura muito grande. Em Pernambuco, as tradições carnavalescas têm a ver com a própria colonização e as influências que recebemos ao longo do tempo. Então, é muito difícil definir quando começou esse processo. O que a gente vê é que essas coisas aparecem muito nítidas no desfile de uma agremiação ou numa apresentação de passista. Não existe nada tão ‘puro’ ali”, observa.

Tambores da África
Poucas manifestações são tão ligadas à cultura afro-brasileira quanto o maracatu nação ou de baque virado. A música e dança enraizada nas periferias de Olinda e Recife até hoje preserva, nos desfiles e ensaios, elementos que recordam a resistência do povo escravizado nas Américas. Todo o cortejo, composto por duas alas, a corte e o baque, remete à realeza. Rei, rainha, príncipes, barões, imperatriz, embaixatriz e outros nobres, acompanhados pelas catirinas, saem coloridos em meio aos batuqueiros, que abrem espaço como guardas de um exército.

“Não é [uma tradição] brasileira, é da África. A gente que roubou”, opina Marivalda Maria dos Santos, que, aos 66 anos, é rainha do Maracatu Estrela Brilhante, fundado em 1906, com sede no Alto José do Pinho. “Hoje a gente bota uma corte relembrando o passado da escravidão. Por isso que tem duque e duquesa, conde e condessa. Eram os patrões. Aí colocamos brilho. As damas bonitas, com roupas de lorde. Misturamos África com Brasil e Portugal, e deu certo”, diz.

Todo o peso dessa história resiste no tempo pelas novas gerações, representadas por brincantes como Andrena da Hora, 19, que mora perto da sede do Estrela Brilhante e participa do grupo há oito anos. “Eu dançava nos caboclinhos, mas comecei a gostar de maracatu pelo meu primo, que me motivou muito. O que me encantou foi o baque, a energia que tem aqui dentro. E também sou reconhecida. É emocionante”, descreve.

Essa emoção e o colorido contagiam também quem é de fora. Pelos tantos turistas que vêm conhecer e não se furtam de nutrir uma admiração por essa cultura centenária, o maracatu segue se misturando em outros países, como França e Estados Unidos. Canadense, a professora e musicoterapeuta Sarah Martin participa do grupo Mar Aberto, que se reúne em Toronto e tem 30 membros. É a segunda vez que ela vem visitar o Estrela Brilhante. “Eu adoro a energia, a alfaia. Fala muito de história, ancestralidade. Para a gente, é muito importante não se apropriar da cultura brasileira. A gente quer apreciar, conhecer e aprender a fazer direito. O jeito gringo não é bom”, comenta.

Batuques da avenida
Ritmo bastante identificado com o Rio de Janeiro, mas nascido na Bahia do século 19, o samba, outra herança da cultura negra, é disseminado no País inteiro. Não podia ser diferente no Recife. A exemplo dos desfiles cariocas e paulistanos, transmitidos há décadas na televisão, a Capital pernambucana também promove o próprio concurso, realizado na avenida Nossa Senhora do Carmo, no bairro de Santo Antônio. Na Cidade, há registros de agremiações desde os anos 1930.

Quando se fala nos batuques recifenses, difícil não recordar o Grêmio Recreativo Cultura e Arte Gigante do Samba. Criada no Alto do Céu, a escola, atual campeã que acumula 47 títulos, 12 deles consecutivos, hoje fica na Bomba do Hemetério, na Zona Norte.

“A Gigante nasceu antes [de se oficializar], se chamava ‘Garotos do Céu’, mas só foi documentada em 1942. Surgiu da própria comunidade, de estivadores, domésticas, prostitutas, pessoas que gostavam da cultura do samba. Esse nome, Gigante, dizem que é por conta de um estivador muito forte, grande, que tinha mais atuação [na escola]”, conta a vice-presidente da agremiação, Marize Lacerda.

Desde os fundadores, a escola, que chega a reunir cerca de dois mil desfilantes por ano, é mantida pelos moradores do Alto José do Pinho e das comunidades vizinhas. Fora do ciclo carnavalesco, a Gigante promove eventos e apresentações, inclusive em parceria com grupos de maracatu.

“As pessoas envolvidas são comprometidas, não sobrevivem do samba, até porque não tem como. Eu tenho meu trabalho, todo mundo tem renda. E a escola tem os seus produtos, que são os shows, as camisas e o espaço que a gente aluga. Tudo isso a gente vai investindo”, explica. “O diálogo com as outras manifestações é muito bom. Eles usam o nosso espaço para os ensaios, participam dos nossos eventos como atração. É uma forma de juntar forças”.

Frevo pop
Intitulado “o mais pernambucano dos ritmos”, o frevo também se reinventa, abraçando o cosmopolitismo da cultura pop internacional. É o que fazem blocos como os já tradicionais Enquanto isso na Sala da Justiça e John Travolta, que reverenciam os super-heróis e o ator americano, e, mais recentemente, o Bumba meu Bowie, que celebra o inglês David Bowie (1947-2017).

Fundado logo após a morte do músico, há três anos, o Bumba meu Bowie une o brilho e a estética inovadora que marcaram a imagem do artista com um repertório carregado no frevo de rua.

“Essa proposta de tocar rock em ritmo de frevo tem até outros blocos que fazem, como o Tá Bom a Gente Freva e o Pife Floyd. Mas a gente percebeu que é mais animado tocar os clássicos do frevo no Carnaval de Olinda. Na prévia, a gente toca de tudo”, conta um dos organizadores do bloco, Júlio Cavani. “Esse universo do pop e do rock, ou qualquer outra referência da cultura e até da política, está sempre presente nas fantasias, nos blocos, nos enredos de escola de samba. O Carnaval é uma festa que absorve o que acontece no mundo”.

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