RIO DE JANEIRO

PM que atirou em entregador diz que agiu em legítima defesa; caso foi registrado como lesão corporal

Rapaz foi socorrido e levado para o Hospital Salgado Filho, onde segue internado em estado grave

O entregador caído no chão após ser baleado O entregador caído no chão após ser baleado  - Foto: Reprodução

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O entregador de aplicativo Nilton Ramon Barromeu de Oliveira, de 25 anos, foi baleado à queima-roupa por um policial militar na noite de segunda-feira ao ter se recusado a levar a compra até a porta da casa do cliente num condomínio em Vila Valqueire, na Zona Oeste do Rio.

Atingido na coxa, o jovem já passou por duas cirurgias, e o estado de saúde dele é grave, de acordo com o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Após o crime, o cabo Roy Martins Cavalcanti se apresentou na 32ª DP (Taquara), alegou legítima defesa e foi liberado. O caso foi registrado como lesão corporal.

— Deu para ver pelos vídeos que os dois estavam alterados. Que era uma discussão. Mas nada justifica um policial militar, pago para nos proteger, sacar uma arma e dar um tiro. Isso é injustificável — lamentou o tio de Nilton, Jurandir Júnior. — Meu sobrinho gosta do que faz. O sentimento que fica é de tristeza. Ele não estava armado.

Artéria atingida
Amigos e companheiros de profissão fizeram manifestações ontem até o hospital em protesto contra a violência. O tiro atingiu a artéria femoral do jovem, que está UTI. Ontem, de acordo com parentes, ele abriu os olhos e perguntou por algumas pessoas.

Eram cerca de 19h quando Nilton chegou ao endereço da entrega. A cliente teria pedido para que ele entrasse e deixasse a compra no apartamento e não na portaria, mas o entregador se recusou. Pela norma do iFood, plataforma para a qual Nilton trabalha, a obrigação é deixar o pedido “no primeiro ponto de contato, seja a portaria da casa ou a portaria do prédio”. Essa é a orientação repassada a entregadores e clientes. Diante do impasse, Nilton, que é entregador há quatro anos, acionou o protocolo de devolução da encomenda e voltou para a loja, na Praça Saiqui.

Armado, o marido da cliente, o cabo Roy, foi atrás do entregador até a lanchonete. Ao ser abordado, Nilton começou a filmar a discussão — o policial aparece com uma arma. A esposa do PM também aparece na confusão. A vítima não registrou o momento do disparo. No entanto, vídeos que circulam em redes sociais mostram o entregador caído no chão após ser baleado, ainda com a mochila nas costas. É possível ver pessoas se movimentando ao redor dele.A arma de Roy chegou a ser apreendida pela Polícia Civil, mas devolvida logo depois. Na delegacia, ele disse que fez um torniquete na perna do entregador e que chamou o socorro. O crime será investigado pela 28ª DP (Campinho). Um processo da Corregedoria da Polícia Militar também foi instaurado para apurar as circunstância do caso.

O iFood informou que já registrou este ano quatro mil casos de ameaça e agressão a seus entregadores no Estado do Rio. Em junho do ano passado, a pedido dos colaboradores, a plataforma lançou uma Central de Apoio Psicológico e Jurídico no Rio, para oferecer suporte a vítimas de violência. Desde então, foram 28 atendimentos: 32% por ameaça, 25% por agressão física, 18% por descriminação e 7% por violência sexual. A maior parte dos casos (42%) foi registrada na Zona Sul da capital.

— A central de apoio nasceu muito dessa necessidade de passar uma mensagem de que esses casos não vão ficar impunes. No Rio, temos uma dificuldade muito grande já que essa violência contra os entregadores está enraizada devido a muitos problemas culturais — afirmou Tatiane Alves, porta-voz do iFood.

A plataforma informou ainda que uma advogada vai acompanhar o caso de Nilton.

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