MUNDO

Poeta, fundador de partido "contra a violência": quem é o acusado de atirar em premier da Eslováquia

Homem tinha porte de arma e se associou a grupo pró-Rússia na década passada, com forte discurso anti-imigração e contra a 'expansão do Ocidente'

Polícia prende homem acusado de atirar no primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, em Handlova Polícia prende homem acusado de atirar no primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, em Handlova  - Foto: RTVS / AFP

Preso após efetuar cinco disparos contra o premier da Eslováquia, o homem responsável pelo atentado que deixou Robert Fico à beira da morte na quarta-feira foi apontado por investigadores e pela imprensa local como um escritor com posições políticas fortes, comentários racistas e que dizia “não concordar com” os rumos do governo.

— A mídia está liquidada. Por que a RTVS [TV estatal eslovaca que está sendo remodelada e renomeada pelo governo] está sendo atacada? Por que [Jan] Mazák [ex-presidente do Conselho Judicial] foi demitido? — perguntou o homem, em vídeo gravado após a prisão e divulgado em redes sociais. O ataque teria sido planejado há cerca de um mês.

O homem de 71 anos foi descrito pelo site Dennik N como sendo membro da Associação de Escritores Eslovacos — a instituição condenou o atentado e prometeu expulsá-lo caso sua identidade seja confirmada e sua culpa comprovada — e frequentador de uma biblioteca e de um clube literário em Levice, cidade de 33 mil habitantes onde ele mora.

Segundo o Dennik N, uma bibliotecária disse que ele usou o local para apresentar um de seus livros, uma obra de poesia, e o descreveu como alguém “rebelde na juventude, mas não agressivo”. O clube literário não se pronunciou sobre o ataque.

O homem publicou três coletâneas de poemas e dois romances: em uma delas, atacou diretamente os ciganos, afirmando que eles “abusam do sistema de proteção social”, e que “jamais viu tantos ciganos sem olhos na Europa como agora”.

Em 2016, ele se aproximou de um grupo extremista pró- Rússia, ligado ao Kremlin e afirmou que “centenas de milhares de imigrantes” chegavam ao continente, e que os militantes agiriam como “patriotas” para defender o país dessa “influência estrangeira”, conforme escreveu em uma publicação no Facebook na época. Naquele momento, vários países europeus, como a Eslováquia, eram contra acolher as centenas de milhares de refugiados vindos majoritariamente da Síria e da Líbia — o próprio Fico disse na época que só aceitaria “imigrantes cristãos”, e que “vigiaria de perto cada muçulmano em seu país”.

 

Até o desmantelamento do grupo extremista, seus membros repetiam as mesmas teses proferidas pelo Kremlin sobre a Ucrânia, com críticas ao Ocidente, à União Europeia e à expansão da Otan, aliança militar da qual a Eslováquia faz parte desde 2004. Recentemente, o próprio Robert Fico, apontado como “pró-Rússia”, disse que vetaria a entrada da Ucrânia na organização.

O acusado tinha porte de arma, como o filho dele confirmou à imprensa eslovaca.

— Não tenho absolutamente nenhuma ideia do que o pai pretendia, o que planejou, por que isso aconteceu. Talvez tenha havido algum curto-circuito, não sei. Ele é mais enérgico, mas não a ponto de ser tratado de forma psiquiátrica — afirmou.

O homem trabalhou como segurança de um centro comercial em Levice. Em um incidente, em 2016, foi agredido por um jovem sob efeito de drogas, mas sem gravidade. E não há anotações sobre possíveis incidentes violentos relacionados a ele no passado. Por sinal, ele tentou, também na década passada, juntar assinaturas para fundar um partido chamado "Movimento Contra a Violência". A última publicação da sigla no Facebook é de abril de 2022, e trazia críticas à invasão da Ucrânia pela Rússia.

— Foi um partido que fundamos contra a violência, depois do caso em que um filipino foi espancado até a morte — disse um vizinho do homem ao site eslovaco Aktuality, que revelou um caso de agressão sofrida pelo suspeito no Exército, mas sem associar o incidente ao ataque desta quarta-feira. — Eu não quis acreditar, mesmo diante das imagens, fiquei chocado com o que aconteceu hoje [quarta-feira]. Não quero julgá-lo. Ele nunca se expressou assim, às vezes falava sobre o que não gostava no governo, mas isso é um choque.

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