Por que não viver mais plenamente em 2019?

As coisas pequenas, banais, as picuinhas, são investidas usualmente porque se ignora a morte, de acordo com a professora de psicologia hospitalar da Fafire Josélia Quintas

Sandra MottaSandra Motta - Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Paciente e voluntária do Hospital de Câncer de Pernambuco, Sandra distribuía presentes na festa de Natal das crianças. Chamava, elas respondiam e buscavam o brinquedo. Uma delas, que tinha pedido um relógio, não respondeu. Tinha falecido naquela manhã. O tempo dela tinha acabado. Ninguém sabe a hora em que vai acabar o seu, leitor. Então, por que não fazê-lo valer a pena?

Sandra Motta, 48, acredita que o tempo mais válido é aquele doado aos outros. Por isso distribuía brinquedos para as crianças. O perdido é gasto com intrigas, mesquinharias e, principalmente, desejando o mal e agindo por ele. “Não sabemos quanto tempo teremos para ajudar alguém. Meu câncer de mama é agressivo, com 90% de chance de metástase. Desde 2016 já fiz cirurgia, quimioterapia. Só quem tem algo assim adquire essa percepção de quanto o tempo é importante”, conta, tentando mostrar o valor do tempo aos saudáveis.

As coisas pequenas, banais, as picuinhas, são investidas usualmente porque se ignora a morte, de acordo com a professora de psicologia hospitalar da Fafire Josélia Quintas. “Nós não vivemos como mortais. Nos defendemos tanto desse trauma de ter um fim, que agimos como se tivéssemos todo o tempo do mundo. A morte é sempre a do outro. Quem consegue perceber o próprio limite sente um grande impacto e passa ser mais desapegado”, explica. “Quanto mais longe vê-se a morte, menos se vive.”

O estudo do tempo permeou toda a história. Mas, segundo o professor de filosofia da UFPE Érico Andrade, o medo da própria finitude levou os pensadores à negação do tempo. “O que é não persiste, o que é travessia, era negado. E o corpo, que é o que mostra mais evidentemente que o tempo passa, era colocado em segundo plano sob a noção de que havia uma alma que o animava e que era eterna. É por isso que as religiões ocidentais creem nessa imortalidade”, explicou. As tentativas vãs de retardar o envelhecimento estão ligadas à opção de negar à morte em vez de vê-la como possibilidade de vida.

Só recentemente, no século passado, a Filosofia partiu para um ponto de vista diferente na compreensão do tempo. “Com Heidegger, tem-se a noção de que a vida é consumida em direção à morte. E, aí, o tempo é o que nos constitui como absolutamente instantes, momentos”, relatou. “Para mim, o tempo é o imponderável e imprevisível, o que não controlamos.”

Sandra Motta

Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

O psicanalista Jacques Lacan ainda divide o tempo em dois tipos diferentes. O cronológico e o lógico. “O primeiro é o de todo mundo. É o definido pelo padrão horário. O segundo é o interno, individual. Ele gira em torno dos traumas, dos fantasmas que cada um carrega”, conta o professor de psicologia da UFPE Sylvio Ferreira.

Desde Freud, antes de Lacan, o tempo é uma questão importante, já que ele dizia que o inconsciente é atemporal. Isso significa que o conteúdo do inconsciente - local inacessível da nossa mente - não sofre mudanças com a passagem do tempo. Esse conteúdo são os fantasmas que Sylvio cita. Ou seja, um trauma presente no inconsciente, por exemplo, leva uma pessoa à repetição compulsiva de um mesmo comportamento. E a ter as mesmas consequências malfadadas, acreditando num suposto acaso.

Pedaços da eternidade
O ano é uma parcela de tempo, dividido arbitrariamente para que as pessoas consigam sentir sua passagem. A virada, que ocorre na segunda-feira, serve para nós nos darmos conta das mudanças. “Transformamo-nos a todo momento, durante todo o ano. Mas precisamos dessa virada para tomar consciência do que fizemos”, explica Érico Andrade. É também a parcela mais utilizada para estabelecer metas. Então, por que não, em 2019, viver mais plenamente?

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