Portela leva para a Sapucaí enredo inspirado em livro de escritor pernambucano

Obra usada pela escola de samba retrata a trajetória de imigrante judeus que, após serem expulsos do Recife, ajudaram a construir a cidade de Nova York

Quarto carro da Portela vai representar um navio pirataQuarto carro da Portela vai representar um navio pirata - Foto: Raphael Perucci/Divulgação

Quando o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela entrar na Marquês de Sapucaí, na noite de 12 de fevereiro, levará para a avenida um pouco de Pernambuco. O enredo com o qual a escola de samba carioca desfilará no Carnaval 2018 tem como inspiração o livro "Caminhos cruzados: A vitoriosa saga dos judeus do Recife - da Espanha à fundação de Nova York", do escritor pernambucano Paulo Carneiro. A obra narra a trajetória dos imigrantes judeus que passaram pelo Estado e, após a expulsão holandesa, no século 17, foram parar nos Estados Unidos, ajudando a construir uma das maiores metrópoles do mundo.

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O autor, que não vive no Recife há mais de duas décadas, revela que o livro - lançado em 2015 - surgiu com a proposta de provar que a presença de judeus pernambucanos na fundação da Big Apple não se trata apenas de uma lenda. Ao longo de suas 164 páginas, a publicação traça os passos de um povo até seu desembarque na colônia de Nova Amsterdã, atual Nova York, no dia 7 de setembro de 1654.

Ao pesquisar sobre o assunto durante mais de um ano, Carneiro acabou descobrindo uma ligação pessoal com esses personagens: ele é descendente de cristãos-novos, judeus que se converteram ao catolicismo e, por isso, permaneceram no Brasil.

Essa saga acabou chamando a atenção da carnavalesca Rosa Magalhães, que assumiu o lugar de Paulo Barros na Portela, logo após a escola conquistar o primeiro lugar no Carnaval do ano passado. Ela ganhou o livro de Carneiro de um amigo e ficou encantada com a história. O anúncio de que seu texto seria tema de um desfile carnavalesco foi uma surpresa para o jornalista. "Não esperava que isso acontecesse. Meu livro não é nenhum best-seller e o tema não costuma ser tão abordado", confessa.

Com base nas informações apresentadas pelo autor, Rosa definiu o enredo da águia azul e branca para 2018: "De repente de lá pra cá e dirrepente daqui pra lá". "É um fato histórico pouco conhecido, mas muito interessante. É uma história com início, meio e fim, e que possibilita boas fantasias e alegorias", afirma Fábio Pavão, que integra a comissão de Carnaval da agremiação. Buscando uma abordagem contemporânea, a carnavalesca propôs falar também da atual crise migratória que ocorre na Europa e em outras partes do mundo.

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"A intenção é mostrar como o passado pode nos apontar coisas sobre o presente e o futuro. Há uma mensagem forte contra a xenofobia e a favor da paz entre os povos", comenta Fábio. O samba-enredo escolhido, composto por Samir Trindade, reforça o recado: "É legado, é união, é presente, igualdade. É 'Noviórque' pedestal da liberdade".

Este ano, a escola entra no sambódromo com seis carros alegóricos e 3.400 pessoas. "O primeiro setor explora as paisagens do Nordeste a partir da visão dos artistas holandeses. No terceiro carro, retratamos o Recife do período holandês, mostrando como era uma cidade aberta às diferentes culturais", detalha.

Um dos carros preparados reproduz um navio pirata. A alegoria representa o momento em que os judeus, após a expulsão de Pernambuco, partem para a Holanda, mas são atacados por uma embarcação espanhola. "Acredito que, com essa música, o tema e tudo mais que estamos preparando, a Portela tem todas as chances de levar o bicampeonato consecutivo", assegura.

Pernambuco na avenida

Miguel Arraes - Em 2016, a Unidos de Vila Isabel resolveu homenagear o centenário de Miguel Arraes. Com o enredo "Memórias de Pai Arraia", o carnavalesco Alex Souza fez um apanhado da trajetória de vida do político que, embora cearense, construiu sua carreira em Pernambuco, onde foi governador, prefeito do Recife, deputado estadual e federal.

Frevo - Os 100 anos do mais icônico ritmo pernambucano inspiraram o desfile de 2008 da Estação Primeira de Mangueira. Seguindo o enredo "100 anos do frevo, é de perder o sapato. Recife mandou me chamar...", o carnavalesco Max Lopes colocou na avenida sombrinhas, maracatu e baile de máscaras, misturando frevo e samba.

Fernando Pinto - A Mocidade Independente de Padre Miguel levou para a Sapucaí, em 2014, o enredo "Pernambucópolis", desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Menezes. A proposta era apresentar um retrato da cultura pernambucana, sob o olhar de Fernando Pinto, carnavalesco de origem recifense que fez carreira no Carnaval carioca.

Luiz Gonzaga - A Unidos da Tijuca recebeu o título de campeã do Carnaval carioca de 2012 reverenciando a figura e o legado de Luiz Gonzaga. O enredo "O dia em que toda a realeza desembarcou na avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão", assinado por Paulo Barros, contou também com referências a outros ícones da cultura nordestina, como os bonecos de barro do Mestre Vitalino.

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