Pós-pandemia traz desafio de manter redução dos impactos humanos na natureza

Isolamento melhorou a qualidade do ar, diminuiu a poluição dos rios e aproximou os animais do espaço urbano. Para ambientalistas, "novo normal" precisa abraçar o cuidado com a natureza.

Cidades como Recife precisam estabelecer convivência mais harmônica com a naturezaCidades como Recife precisam estabelecer convivência mais harmônica com a natureza - Foto: Alexandre Aroeira/Folha de Pernambuco

O ser humano é natureza. A frase, por mais que soe óbvia, parece ter caído no esquecimento após séculos de avanços tecnológicos. Se houve um problema que se revelou ainda mais latente nesta pandemia do coronavírus, foi a necessidade de se reconfigurar a nossa convivência com o espaço onde nascemos e moramos. O alerta foi dado há duas semanas na Folha Mais por estudiosos como o neurocientista Miguel Nicolelis e a filósofa Viviane Mosé. A relação predatória que estabelecemos com o meio ambiente e as outras espécies contribui para a gravidade da crise atual.

A reflexão pode até ganhar um reforço por causa do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado na sexta-feira (5), mas ela está aqui e aí, o tempo todo. Porque a natureza é tudo o que nos rodeia e, portanto, está ligada a tudo o que vivemos.

“A mutação genética do vírus ocorre quando você tem animais em situações de estresse ou aglomerados, como morcegos, que vivem em cavernas, todos muito próximos. E esse vírus passa para os humanos através de um animal estressado, retirado do seu hábitat, sendo vendido numa feira. Mas ainda é difícil as pessoas correlacionarem a pandemia com a forma como a gente abusa da natureza”, observa a bióloga e ambientalista Maria Adélia de Oliveira, professora do Departamento de Morfologia e Fisiologia Animal da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

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As provas dessa correlação são perceptíveis no dia a dia. A mesma Covid-19 que obriga parte considerável da população a se trancar dentro de casa revelou-se um fator a mais que desnuda o descaso com que se trata o planeta. Bastou o ser humano se resguardar um pouco para logo os ecossistemas reagirem. A qualidade do ar melhorou e os níveis de poluição dos rios diminuíram.

É o que mostram indicadores da Agência Estadual do Meio Ambiente (CPRH). Em abril, início da quarentena, as emissões de dióxido de nitrogênio (NO2), um dos gases tóxicos que agravam o efeito estufa, sofreram uma queda de 15%. O registro foi feito em uma área extremamente impactada pela ação humana, o Complexo Portuário de Suape, onde o órgão mantém as quatro estações de monitoramento do ar existentes no Estado. Não há medições desse tipo sendo realizadas nas cidades, mas entende-se que, com a redução do fluxo de carros nas ruas, a malha urbana também tenha apresentado efeitos semelhantes.

Outro indicador é a melhora na qualidade das águas dos rios Capibaribe e Ipojuca, que nascem, respectivamente, no Agreste e no Sertão e desaguam na Região Metropolitana.

“Dois fatores foram importantes para isso: a paralisação de parte da indústria e o aumento do volume das chuvas na região. Jogou-se mais água dentro dos rios, fazendo com que a matéria orgânica despejada fosse carreada para pontos mais baixos, deixando o rio um pouco mais limpo. Mas não chegou ao ponto de dizer que a gente pode ter acesso àquela água para beber ou tomar banho. Até porque ali há coliformes e outras bactérias que podem causar danos à saúde”, explica o diretor de Controle de Fontes Poluidoras da CPRH, Eduardo Elvino.

Porém, é cedo para festejar. As melhorias não são definitivas, e os índices de poluição podem voltar ao que eram ou, mesmo, aumentar se, depois da pandemia, o mundo – ou seja, nós – quiser “compensar” tudo o que deixou de produzir e consumir neste período de distanciamento social. Nesse sentido, as próximas semanas, marcadas pela retomada das atividades econômicas, serão decisivas.

“O ‘novo normal’ tem que abraçar o meio ambiente, considerando o que a gente tem nas florestas, nos rios e no ar. É essencial que as empresas revisem suas matrizes produtivas e, a partir daí, se cada um colabora um pouco, a gente consegue chegar a um denominador muito bom”, defende Eduardo Elvino.

Presença animal
Agora cante e imagine, se possível de olhos fechados, este cenário: “Não se admire se um dia / Um beija-flor invadir / A porta da sua casa / Lhe der um beijo e partir”. Soou familiar? Os versos iniciais desse forró composto por Vital Farias e famoso nas vozes de Elba, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, de alguma forma, remetem a um dos reflexos dessa melhora ambiental registrada nos últimos meses. Até quem não mora em casa com quintal, como este repórter que assina a matéria, deve ter recebido alguma visita não humana em meio ao isolamento.

Com menos barulho e poluição das avenidas, a aproximação dos animais do meio doméstico se tornou mais intensa. Mesmo quem vive junto de locais de mata e está mais acostumado com essas visitas, nota uma mudança comportamental nos bichos.

“Nos primeiros dias, eu observei uma revoada muito grande de borboletas na cidade inteira. Fora isso, estou vendo os passarinhos mais relaxados. Sagui é danado, sempre interage. Também estou vendo mais sabiás e timbus”, conta a artista Catarina Dee Jah, que mora no Sítio Histórico de Olinda. “Parece que os animais estão mais calmos. Você vê a olho nu que a atmosfera está mais limpa. Eu tenho muita sorte de estar aqui”.

Esse “fenômeno” constitui uma via de mão dupla. Para a professora Maria Adélia de Oliveira, não só os animais se sentem mais à vontade para se aproximarem, como o silêncio do confinamento coletivo ampliou a sensibilidade humana para uma presença que nunca deixou de existir. “Em todos os lugares, o número de pessoas e de carros é menor quando não é zero. Tudo isso faz com que os nossos sensores fiquem mais atentos. Tem gente que se admira quando vê uma borboleta. Na verdade, ela sempre esteve ali e você não via. Mas também há alguns animais que reagem como a gente, com os próprios sensores, e passam a ser um pouco mais ousados”, avalia.

Mundo saudável
Manter uma relação mais harmônica com a natureza se reflete também em benefícios à saúde. Os estímulos que vêm dessa proximidade com o verde e as outras espécies ampliam percepções e sensações de bem-estar.

“O ser humano tem uma tendência a se ajustar ao que tem. A gente passou a se habituar com as buzinas dos carros e deixou de procurar outros tipos de som, como o dos passarinhos. Neste momento tão singular que estamos vivendo, passamos a ter uma posição um pouco mais contemplativa em relação ao que está ao redor”, diz a psicóloga Conceição Pereira. Na visão dela, essa postura de contemplação do entorno facilita a vida em isolamento. “Eu estou dentro de casa, mas buscando um contato com o que está fora daqui. Isso vai me ajudar nesse processo de equilíbrio”, comenta.

Como é de se esperar, o ar mais limpo proporcionado pela baixa emissão de poluentes melhora o estado geral do corpo, prevenindo o contágio de doenças respiratórias como a Covid-19. O médico Ângelo Rizzo, chefe do setor de pneumologia do Hospital das Clínicas de Pernambuco (HCPE), recorda que existem dois tipos de poluição: a ambiental e a autopoluição. “A primeira está no ar que você respira independentemente do que você faz. Por autopoluição, estou falando de cigarro e uso de substâncias que podem agredir o pulmão. Por exemplo, fogo de lenha, tintas, vernizes, fumaça de motor a combustão. Ambos os tipos de poluição são nocivos”, afirma.

O nível de toxicidade com que o corpo é afetado depende do grau de exposição à poluição a que cada pessoa está submetida. “Asmáticos, por exemplo, têm uma chance maior de piorar se o ambiente onde ele vive é fechado e mais poluído do que num ambiente aberto. Nessa pandemia, as pessoas estão mais confinadas, algumas até são fumantes, e isso pode aumentar o risco de elas contraírem o coronavírus também”, diz o médico Ângelo Rizzo. Entre os danos provocados pelos poluentes, estão a irritação das mucosas nasais e possíveis mutações nas células respiratórias, gerando alguns tipos de câncer.

Hábitat urbano
Por tudo isso, é tão importante viver em ambientes menos poluídos e mais arejados. Uma realidade ainda distante para a maior parte da população, que mora nos becos apertados das periferias ou à margem de canais entupidos de lixo. Tanto quanto os cidadãos, que precisam colaborar na conservação da natureza, as prefeituras devem planejar a estrutura das cidades para que os níveis de poluição sejam reduzidos ao mínimo possível. E isso passa pela questão dos transportes e do enfrentamento à desigualdade social.

Professora de Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Danielle Rocha ressalta que a preocupação com o coronavírus modificou o foco da mobilidade em diferentes metrópoles do mundo para adequar a malha urbana ao “novo normal”, com menos aglomerações no transporte e nos espaços públicos.

“Algumas cidades estão incorporando, nesse período de pandemia, ações como ampliar o número de ciclovias, alargar as calçadas para permitir um maior distanciamento entre as pessoas e aumentar o espaço de estacionamento de bicicletas. Londres está fazendo isso”, exemplifica.

Previstas no novo Plano Diretor do Recife, que está sendo analisado na Câmara de Vereadores, essas diretrizes reduzem os impactos da urbanização no meio ambiente.  “Se você tem uma cidade que prioriza os pedestres e bicicletas, com calçadas mais largas e ciclovias e ciclofaixas interligadas, ela favorece uma qualidade de vida melhor em termos de saúde e poluição tanto do ar quanto sonora”, analisa. “No Recife, mais de 50% da população habita Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), que carecem de uma estrutura melhor tanto de mobilidade quanto de acessibilidade. São espaços que não têm a mesma facilidade das áreas mais formais e devem ser priorizadas”.

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