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Prática de exercícios físicos traz qualidade de vida e ajuda no tratamento de doenças

Paciente de câncer deixou de tomar morfina no crossfit. Com esclerose, cantora se encontrou no muay thai; na musculação, fotógrafo evitou duas cirurgias.

Crossfit foi fundamental para Ana Maria Assunção enfrentar o câncerCrossfit foi fundamental para Ana Maria Assunção enfrentar o câncer - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Aos 38 anos, Ana Maria Assunção mudou a vida radicalmente após a descoberta de um tumor no seio enquanto amamentava o filho recém-nascido. O câncer de mama foi diagnosticado no estágio IV, considerado avançado e desenvolvido a ponto de haver metástase óssea.

Após quatro anos, a condição permanece irreversível, mas foi atenuada pela prática do crossfit. A história dela é mais um exemplo que mostra como o exercício físico é um dos principais meios de prevenção ou estabilização não só deste como de muitos outros problemas de saúde.

Ana está afastada há três anos da ocupação de supervisora de companhia aérea e já solicitou a aposentadoria. A metástase óssea foi herdada do pai, vítima de câncer de próstata aos 58 anos.

Ela foi pega de surpresa quando recebeu o resultado e diz que o ‘chão se abriu’ nas primeiras semanas. Mas cair não era alternativa, ainda mais depois de outro diagnóstico na mesma época.

“Sempre me tratei com terapeuta. Me apoiei na minha família, amigos e meu filho. Sou mãe solteira e ele foi diagnosticado com autismo. Tive que ter forças, porque meu propósito é cuidar dele. Tenho que cuidar de mim pra poder cuidar dele. Me agarrei em tudo que pude pra ocupar a mente”, afirma Ana.

Dados levantados neste ano pelo Ministério da Saúde mostram que o câncer de mama é mais comum entre as mulheres brasileiras (29%) do que no resto do mundo (25%). A estimativa é que mais 66 mil casos sejam contabilizados no país em 2020, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Somente no Recife, 560 estão previstos.

O Inca também destaca a letalidade da doença, sendo a causa de morte mais frequente no gênero feminino. Isso se deve não apenas pelas consequências danosas que atingem o corpo humano, mas o tempo para notar os sintomas. Muitas mulheres são assintomáticas e só tomam providências quando se torna visível, como aconteceu com Ana Maria.

Atividades físicas sempre estiveram atreladas à sua vida, seja pela competitividade do jiu-jítsu ou idas à academia. Porém, as evoluções física e emocional se alinharam no crossfit. O acolhimento da comunidade pesou para as propostas irem além de apenas fortalecer a musculatura.

“Sempre fui um pouco introspectiva, então na academia era basicamente cada um por si. (No crossfit) Eu evoluí muito espiritualmente. Porque lá são vários tipos de pessoas, vários relatos, várias interações. Mesmo tomando morfina, que é o remédio mais forte pra dor, meu médico me dizia: ‘Também quero lhe dar qualidade de vida, não só cuidar da doença’. Depois de tanto fazer exercício, não tomo mais morfina desde o início do ano”, contou.

O médico de Ana é o oncologista Thiago Apolinário, atualmente residente em Lisboa, Portugal, para se especializar em tratamento de câncer de mama. Segundo ele, a prática de atividades físicas impacta na redução de mortalidade, efeito relacionado ao tratamento e ao bem-estar psicológico. 

“É muito comum as pacientes, e a família também, acharem que o melhor pra paciente é ela ficar mais em repouso, sem realizar atividade nenhuma. Mas é exatamente o contrário. Quando ela deixa de fazer as atividades do dia a dia, pode acabar com mais efeitos adversos, além de contribuir também para a perda da identidade pessoal”, explicou.

Mesmo a condição de Ana sendo incurável, o desaparecimento das dores manifesta sinais de estabilização do avanço constante do câncer. Em julho, foram completados três anos de tratamento.

A melhora está também relacionada à qualidade de vida impulsionada pelo exercício físico, o que se reflete em outras pacientes. “Tem estudo mostrando uma redução de 23% da mortalidade em pacientes com câncer de mama avançado, quando comparado com pacientes que não fazem atividade física”, apontou o oncologista.

A atividade física humanizada é um diferencial para o conforto do paciente nesta etapa do tratamento. Ana foi acompanhada pelo instrutor Bruno Leal, experiente com alunos em recuperação clínica. “Já atendi e atendo diversas pessoas com diferentes tipos de problemas, desde articulares a alunos com pontes de safena, transplantados, problemas renais, respiratórios e por aí vai”, disse o profissional da OkaBox.

Ele explica quais exercícios aplicados foram fundamentais no caso de Ana.

“Todos os exercícios que envolvem as principais valências da aptidão física voltada para saúde, a exemplo dos trabalhos aeróbio, de força, flexibilidade. E como resposta por este processo, a melhoria da composição corporal. Vale salientar que todos os exercícios precisam ter as variáveis de intensidade e volume bem equilibradas, para que não sobrecarregue seu sistema imunológico, dada sua condição”.

Ana Maria treina com o coach Thiago ApolinárioAna Maria treina com o coach Thiago Apolinário (Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco)

Força para o cérebro
Manter na rotina a prática de exercícios físicos também pode ser crucial para o tratamento de doenças que comprometem a saúde do cérebro e do complexo sistema nervoso. Uma realidade que a cantora Felicidade Cordel, 27, percebe diariamente.

Aos 18, ela foi diagnosticada com esclerose múltipla, condição neurológica que afeta a bainha de mielina, membrana que protege a parte do neurônio responsável pela transmissão dos impulsos nervosos. Isso causa uma série de transtornos e, no caso da artista, provocou surtos que, junto às medicações e à terapia, só cessaram depois de começar no muay thai.

“Eu estava numa casa de praia em Porto de Galinhas e senti dormência nas pernas. Achei que tinha deitado de uma forma diferente, mas eu dormi e, no outro dia, acordei com mais dormência. Não conseguia sentir nada quando fazia minhas necessidades fisiológicas. Voltei a Recife e os sintomas só pioraram, a ponto de colocar uma sapatilha no meu pé e não sentir”, recorda Felicidade, que não chegou a perder os movimentos, mas, em alguns surtos, teve perda de visão por alguns minutos.

Levada para a emergência, a jovem ficou um mês internada até receber o diagnóstico, já depois de sair do hospital.

Os quatro anos seguintes foram foram difíceis. Ela demorou para aceitar a doença e descontava a ansiedade na comida. Chegou a pesar 96 quilos. Aos poucos, sentiu a vida melhorar à medida que seguia o tratamento com os remédios e a terapia. Mas o grande ponto de virada veio em 2016, quando uma amiga a convidou para participar de um grupo feminino de muay thai.

“Comecei a fazer uma aula por semana, depois aumentei para duas e passei a fazer particular. Com a esclerose, eu tinha problemas de força e mobilidade. E a minha personal trabalhou comigo o processo de aceitação da doença, entendendo que eu conseguiria fazer os movimentos como qualquer pessoa normal”, conta Felicidade.

A professora dela, Angel Bertoldo, acompanhou de perto a evolução. “Quando Felicidade chegou para treinar, ela não me disse que tinha esclerose, mas, de cara, percebi que se desequilibrava muito. No final da aula, ela comentou que não sabia se podia continuar por causa da esclerose. Eu não conhecia nada sobre a doença, mas uma certeza eu tinha, de que o esporte só traria benefícios. Só precisava saber como adaptar, se fosse o caso, para a realidade dela”, lembra. 

Assim, ao buscar informações com outros profissionais e conduzindo as práticas nas sessões, a treinadora aprendeu a lidar com os surtos e as limitações, motivando também pelo emocional. “Ela se tornou tão boa aluna quantos as outras. Participou de graduações, que são exames rigorosos. Foi nítida a mudança”, observa Bertoldo.

Felicidade Cordel, 27, e a professora de muay thai Angel BertoldoFelicidade Cordel e Angel Bertoldo (Foto: Cortesia)

O engajamento foi tanto que Felicidade chegou a treinar quatro vezes por semana, causando preocupação nos pais, que acharam que aquela frequência podia ser prejudicial. A filha procurou a médica. “Pedi um aval, e ela disse: ‘Você deve se exercitar. O maior remédio da sua vida é fazer exercícios’”, conta.

Por meio do esporte, Felicidade se sente hoje muito melhor consigo mesma. Perdeu 30 quilos e faz dois anos que não tem mais surtos. E mesmo durante o período que passou sem medicamentos - ela recebe remédios do sistema público de saúde e precisa renovar a solicitação a cada três meses -, o exercício ajudou a evitar novas crises. “O muay thai foi a coisa que mais me deixou feliz”, diz a cantora.

Qualidade de vida
Mais do que um fator de motivação, o equilíbrio das emoções é fundamental para todo processo de recuperação. E nesse sentido, a prática de exercícios desempenha um papel central.

Para o psicólogo Fernando Cruz, membro do Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco (CRP-2), onde atuou em estudos dedicados à Psicologia do Esporte, exercer qualquer atividade física, em especial as aeróbicas, é benéfico à saúde mental, contribuindo para o controle da ansiedade. 

“Ajuda muito na regulação do sono, o que é importante porque é muito difícil você recuperar a energia quando seu sono está desregulado. Melhora muito o fluxo da respiração e da função cardiovascular, outro ponto intimamente ligado às crises de ansiedade. Também ajuda na consciência corporal, de você ter a possibilidade de se perceber no movimento e na respiração. Assim, num momento de crise, você entende como seu corpo está se desregulando”, explica.

Essa possibilidade de se conhecer que o exercício proporciona torna muito mais fácil o retorno ao equilíbrio. “O importante é que a pessoa encontre uma atividade que se adeque à própria realidade de vida. As atividades em grupo ajudam a motivar, na questão da sociabilidade. Mas um esporte como a natação, em que não dá para ficar conversando enquanto pratica, favorece a autorreflexão”, avalia. 

Professora de Educação Física do Centro Universitário dos Guararapes (UniFG), Érika Castro destaca ainda o efeito das práticas esportivas na redução das dores.

“Assim como é capaz de aumentar a sensação de prazer, com hormônios como a serotonina, o exercício tem um caráter anti-inflamatório. Outro aspecto importante é que a atividade física regular vai melhorar a capacidade cognitiva, o estresse, a ansiedade e a autoestima”, ressalta. “As pessoas fisicamente ativas têm menor risco de desenvolver doenças cardiovasculares”.

O exercício livrou Marcos Pastich Gonçalves, 40, de fazer cirurgia duas vezes, além de ajudá-lo a manter as taxas em dia desde que se descobriu pré-diabético. Ex-fumante, o fotógrafo levava uma vida sedentária até os 29 anos, quando começou a praticar surfe a convite de um amigo.

Fazendo musculação, Marcos Pastich, 40, deixou de fazer cirurgias no ombro e no joelhoFazendo musculação, Marcos Pastich, 40, deixou de fazer cirurgias no ombro e no joelho (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi em um desses passeios pelas ondas, em 2016, que ele sofreu uma queda que rompeu parcialmente o ligamento do ombro direito. “Fui a dois ortopedistas e eles queriam fazer cirurgia, mas para mim essa era a última solução. Procurei uma fisioterapeuta e, analisando meus exames, ela disse que não precisava operar e faria um trabalho de fortalecimento muscular”, conta.

Depois de 20 sessões de fisioterapia, Marcos passou a fazer musculação e, desde então, não sente dores no ombro. Um ano depois, outra queda no surfe provocou um problema em um dos joelhos. Apesar da indicação pela cirurgia, ele percebeu, na academia, que tinha um encurtamento no músculo da coxa. Assim, com um treino específico para os membros inferiores, deixou de sentir o incômodo. 

Pré-diabético, o fotógrafo também observa que as taxas permanecem mais baixas quando junta os exercícios à medicação. “Quando eu tomo só o remédio, percebo que ficam um pouco acima”, diz. Mas, no fim das contas, o principal ganho é a qualidade de vida. “Hoje eu me sinto muito mais jovem do que 15 anos atrás”, atesta.



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