Prazo expira e João de Deus é considerado foragido

Segundo a Promotoria, 335 contatos já foram recebidos, com mensagens principalmente por email, incluindo também outros seis países (Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça)

João de DeusJoão de Deus - Foto: Arquivo

A força-tarefa que investiga o médium João Teixeira de Faria, 76, conhecido como João de Deus, considera-o foragido desde as 14h deste sábado (15). A decisão foi confirmada em nota pelo Ministério Público (MP) de Goiás. O horário limite para que o suspeito se apresentasse foi fixado na sexta-feira (14). O médium é suspeito de ter abusado sexualmente de centenas de mulheres em sete países durante atendimentos espirituais. 

"O senhor João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, passou a ser considerado foragido, pois as diligências de localização em todos os seus endereços resultaram negativas e o comparecimento espontâneo não ocorreu nas 24 horas seguintes à ordem de prisão, a despeito das tentativas de negociação com a defesa", informou o órgão.

O MP acrescentou que o nome do médium será incluído na lista de procurados da Interpol. Com isso, ele poderá ser preso por qualquer autoridade policial brasileira ou estrangeira, caso saia do país.  O mandado de prisão contra ele já está público e foi disponibilizado no Banco Nacional de Mandados de Prisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Neste sábado, André Fernandes, delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, evitou o termo "foragido" e afirmou que as negociações estão evoluindo, mas ainda falta acertar com a defesa do médium o dia e o local da apresentação. "Pode ser que não seja hoje [sábado]. Ele não deve estar em local próximo. Acho que ele pode estar em outro estado", disse.

Um acerto definitivo com a defesa só deve sair na noite deste sábado. "Ele está mantendo o contato [via defesa] e está avançando a questão da apresentação. Não está se negando a cumprir a ordem judicial."

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Habeas corpus
Enquanto isso, a defesa do médium informou que já apresentou um pedido de habeas corpus na tentativa de revogar o pedido de prisão temporária, feito pelo Ministério Público de Goiás e aceito pela Justiça na sexta. "A defesa não esperará o habeas corpus. Apenas não se submeterá ao prazo para apresentação que, no entanto, se dará e de forma espontânea", disse o advogado Alberto Toron.

Para tentar cumprir o mandado, policiais chegaram a procurá-lo em Goiás, Anápolis e Abadiânia -- cidade onde ele prestava os atendimentos --, mas não tiverem êxito. Mais de 20 locais foram visitados em busca do paradeiro do suspeito. O médium nega as acusações.

Na manhã deste sábado, Ana Keyla Teixeira, mulher de João de Deus, pediu orações durante um evento de Natal na Casa da Sopa, em Abadiânia. "Apesar das turbulências que estamos enfrentando, peço a vocês que continuem orando para que a verdade prevaleça", disse.

Na sexta, os advogados do médium afirmaram que a ordem de prisão preventiva é ilegal e injusta. Segundo eles, "apenas alguns depoimentos, de poucas vítimas, acompanham o pedido de prisão preventiva, ainda assim, sem os seus nomes".

Entenda o caso
As denúncias de abuso sexual vieram a público após 13 mulheres relatarem as denúncias no sábado (8) durante o programa Conversa com Bial, da TV Globo, e ao jornal O Globo.

Na segunda (10), Aline Saleh, 29 contou sua história à Folha de S.Paulo: "Quem tem de sentir vergonha é ele, e não eu". Ela diz que, em 2013, esteve na casa e que foi levada para um banheiro, posta de costas e que João de Deus colocou a mão dela em seu pênis.

No início da semana a Promotoria chegou a criar uma força-tarefa para recolher as inúmeras denúncias de abusos sexuais contra o médium. Segundo a Promotoria, 335 contatos já foram recebidos, com mensagens principalmente por email, incluindo também outros seis países (Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça).

Também foram colhidos os depoimentos de 30 pessoas nos Ministérios Públicos de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Espírito Santo. Em comum, a maioria das mulheres diz que recebeu um aviso para procurar o médium em seu escritório ao fim das sessões em que ele atende aos fiéis. No local, segundo as vítimas, João de Deus dizia que elas precisavam de uma "limpeza espiritual" antes de abusá-las sexualmente. Entre as vítimas estariam mulheres adultas, crianças e adolescentes.

O promotor Luciano Miranda Meireles afirmou que os depoimentos podem ser a única forma de comprovar as acusações, já que crimes como estupro não ocorrem à luz do dia nem têm testemunhas.

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