Gean Loureiuro

Prefeito de Florianópolis é acusado de estupro; candidato à reeleição diz que foi 'consensual'

No boletim de ocorrência, registrado em 9 de outubro deste ano, a mulher relata três situações diferentes, ocorridas entre 2017 a 2019

Gean Loureiro (DEM)Gean Loureiro (DEM) - Foto: Reprodução

Uma mulher de 47 anos acusa de estupro o prefeito de Florianópolis e candidato à reeleição Gean Loureiro (DEM).

No boletim de ocorrência, registrado em 9 de outubro deste ano, a mulher relata três situações diferentes, ocorridas entre 2017 a 2019. Em duas delas houve relações sexuais, segundo o relato. No último, a mulher registrou no celular o ato –a reportagem teve acesso a frames do vídeo, mas não a íntegra da gravação.

Na madrugada desta quinta-feira (29), o político se manifestou em vídeo e afirmou que o sexo foi consentido e classificou o caso como "armação eleitoral" e "armação covarde", nas palavras dele.

Segundo Loureiro, a câmera foi colocada "de propósito" e a intimidade dele exposta. A reportagem procurou o Ministério Público e a Polícia Civil, mas os dois órgãos afirmaram que não vão se manifestar.

A mulher trabalhava na Secretaria Municipal de Turismo, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de Florianópolis, na qual atuava no gabinete do secretário. E, segundo o boletim de ocorrência, todos os atos ocorreram ali. O nome dela será preservado.

A primeira situação teria ocorrido em 2017 –o mês não foi especificado. Segundo o relato, ela estava arrumando a sala de reuniões quando Loureiro "inexplicavelmente passou a fazer investidas" e a vítima foi agarrada por ele.

"(Loureiro) segurou firme com uma das mãos um dos braços da comunicante e com a outra tentou tocar as partes íntimas por baixo da roupa da comunicante, a qual imediatamente o empurrou e saiu da sala", diz o registro de ocorrência.

Aos policiais, a mulher relatou que "ficou muito abalada e envergonhada" com a situação e acabou não contando para ninguém. A segunda situação teria ocorrido entre o final de 2017 e o começo de 2018 –a data não foi apresentada. Loureiro teria solicitado que ela fosse buscar água para ele e, ao voltar, o político trancou a porta e teria iniciado as investidas.

"Passou a abraçá-la e baixou a calça e a calcinha da comunicante, que em choque não conseguiu reagir. Na sequência, Gean empurrou a comunicante contra uma mesa e passou a praticar a conjunção carnal, que durou poucos minutos, sendo que na sequência o senhor Gean vestiu sua calça e abriu a porta, momento em que a comunicante se vestiu rapidamente e saiu", ainda segundo o boletim de ocorrência.

A mulher contou que novamente ficou em choque e que passou a ter crises de ansiedade, passando a ser acompanhada por psicóloga e psiquiatra. Entretanto, não contou para ninguém por "medo do poder do prefeito" e "vergonha da situação".

A terceira situação teria ocorrido em 10 de outubro do ano passado por volta das 19h. Ela estava saindo do trabalho quando o prefeito passou a puxar conversa. Segundo o documento, a mulher "temendo o que poderia acontecer instintivamente colocou o seu celular para gravar", já que temia uma investida do prefeito.

Logo após, o político teria trancado a porta e passou a retirar a roupa. "O senhor Gean baixou a calça da comunicante e a empurrou em cima do sofá e passou a praticar conjunção carnal, que durou poucos minutos. Na sequência, ele se vestiu, sem falar nada e saiu da sala. A comunicante ficou em pânico e em choque", diz o boletim de ocorrência.

Após esse terceiro episódio, a mulher passou a chegar em casa "quase todos os dias chorando" e que, após discutir muito o assunto em terapia "tomou coragem e decidiu buscar justiça" com o apoio do marido, que ficou sabendo o que estava acontecendo.

Por último, disse que durante os atos sexuais se sentia "sob grave ameaça, pois o autor é muito poderoso na cidade". E ainda afirmou que não consentiu nenhum deles.

OUTRO LADO
Na madrugada desta quinta-feira, o prefeito se manifestou em vídeo e por uma nota. Na gravação, o político inicia dizendo que precisa "fazer desabafo".

"Hoje eu e minha família fomos surpreendidos de forma rasteira e violenta, por uma avalanche de mentiras. Fui acusado de algo que abomino com todas as minhas forças. Nunca, em toda a minha vida, eu cometi um ato de violência contra quem quer que seja", salientou o prefeito.

Em seguida, Loureiro reconheceu que teve um relacionamento extraconjugal. "É algo que não me orgulho e que assumo todas as consequências. É um assunto doloroso que eu e minha esposa já havíamos tratado dentro das quatro paredes da nossa casa, lugar de onde esse assunto jamais deveria ter saído. Pedi perdão para minha família pela dor que causei. Sei o que fiz e me arrependo, mas também sei o que não fiz", disse o político.

Logo após, o candidato à reeleição observou que não iria se calar "diante essa tentativa desesperada e da armação eleitoral" a qual ele seria a vítima. "Agora, há poucos dias da eleição estão tentando transformar em crime um ato consensual entre dois adultos que aconteceu lá em 2019. Isso mostra que não há limites para a baixeza e do jogo sujo da política. Fui alvo de uma armação covarde, com uso de uma câmera escondida de propósito, expondo imagens da minha intimidade de forma desumana nas redes sociais. Quem já sofreu uma acusação injusta, quem teve sua imagem destroçada publicamente sabe o que estamos sentindo", disse o político.

Por último, Loureiro pediu perdão à família e aos amigos pelo "sofrimento que todos estão passando" e pediu apuração da justiça "com rigor máximo para que a verdade prevaleça".

Loureiro iria participar de um debate presencial com os candidatos a prefeito organizado pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Entretanto, na manhã desta quinta, acabou desistindo.

Procurada, a assessoria do candidato disse que o político está ainda com Covid-19, ao qual foi diagnosticado recentemente.

MP e Polícia Civil não se manifestam A reportagem procurou o MP-SC (Ministério Público de Santa Catarina) e a Polícia Civil e os dois órgãos não se manifestaram.

No MP, a reportagem entrou em contato com a coordenadora de comunicação, Sílvia Pinter, que afirmou que "devido ao segredo de justiça por razões legais, o MP não se manifesta".

Já na Polícia Civil a reportagem entrou em contato com o assessor Diogo Vargas. Em mensagem, ele apenas afirmou que o órgão não iria se manifestar pois "casos desta natureza correm em sigilo

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