Presépio pela tolerância representa nascimento de Jesus com peças de várias culturas

Peças expostas no Museu do Homem do Nordeste até o dia 6 de janeiro são resistência contra a intolerância

Todas as peças emprestadas ao museu. Bonecos trazidos de vários lugares do mundo. Os tecidos são da China, do Paquistão, da Croácia e do Sertão do CaririTodas as peças emprestadas ao museu. Bonecos trazidos de vários lugares do mundo. Os tecidos são da China, do Paquistão, da Croácia e do Sertão do Cariri - Foto: Rafael Furtado

O presépio exposto no Museu do Homem do Nordeste até o dia 6 de janeiro é uma peça de resistência contra a intolerância. Apresenta personagens de diversos países, com óbvias diferenças físicas e culturais, e busca mostrar a semelhança entre a espécie humana com a reunião. Traz José, Jesus e Maria negros, com dreadlocks nos cabelos, trazidos de Yaoundé, nos Camarões. É a origem, também, dos Reis Magos. Outras vêm de países tão distintos quanto a França e Rússia, China, Turquia e até Uzbequistão.

“Não somos tolos de achar que no mundo real é assim, com os humanos vivendo em harmonia. Mas queremos trazer um pouco de brandura nessa reunião das peças”, argumentou a curadora da amostra, a doutora em antropologia Ciema Mello. “Somos um museu de antropologia, então trabalhamos com a diferença, mas é na semelhança que estamos focando com essa apresentação. Sob uma casca, sob a pele, somos iguais.” As peças são do próprio museu ou emprestadas por pessoas físicas. Dentre as várias à mostra, a favorita de Ciema é russa. Um Papai Noel moscovita tocando um acordeão. “Essa coincidência, dele estar segurando uma sanfona, me encanta.”

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A sanfona foi patenteada por um armeno, quando a Armênia pertencia ao Império Russo. Também chama à atenção um casal de judeus do Brooklyn, em Nova Iorque. “São aqueles que comem mortadela o ano inteiro e se arrependem depois. São iguais a todos nós, humanos”, fantasiou a curadora. Criar um presépio especial neste ano foi ideia coletiva. Foi montado pelo setor educativo, chefiado por Edna Silva e pelo funcionário mais antigo do local, Rizonildo Guedes. Trabalhando há 40 anos, foi homenageado na abertura da exposição, que houve no dia 18. Para Edna, o afeto criou uma ligação com uma boneca turca. Com um turbante azul e cores vibrantes, representa a felicidade na exposição. “É importante por ser mulher e não ter aquele peso que se dá à mulher islâmica”, opinou. “Além disso, ela representa o belo nesta amostra.”

Tanto ela quanto Ciema destacam a presença do anjo Gabriel, sobre o presépio. Ele é representado por dois bonecos, um masculino e um feminino, propondo a lembrança de que os anjos não têm um gênero. “São sauditas”, explicam. Logo abaixo da manjedoura, uma coleção de bonecos que representam várias religiões. Há um soldado inglês (fotografia 5), onde a população é predominantemente anglicana. Próximo, um soldado alemão, trazido de Nuremberg, representando os protestantes luteranos. Há ainda, na mesma altura, um casal de católicos conservadores franceses. Os budistas são vistos em peças vindas da China, no último “degrau” do presépio. Abaixo, são as bonecas russas. Trazem, de acordo com Edna, mais palpavelmente a associação com as camadas que, caso fossem retiradas, revelariam o que há de humano em nós. “Você vai abrindo e tirando e elas vão ficando menores, como se chegassem no íntimo”, interpretou

Há ainda a possibilidade de admirar as bonecas ucrarianas, eslovenas e os uzbeques, sorridentes espécies de Reis Magos, com melancias para presentear o Jesus que acabou de nascer. Em carta aberta escrita pelo Museu em primeira pessoa (pelas mãos de Ciema), ele próprio explica que é um museu de antropologia e não ignora - e respeita - os ateus. Mas entende que a maioria das pessoas crêem em um Deus. E, ainda que suspeita ser a vida sem Ele incompreensível, já que o humano aprende cedo o conceito de morte.

Presépios

De acordo com pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco realizada por Semira Adler Vainsencher, é atribuído a São Francisco de Assis a criação do primeiro presépio, por volta de 1223. Foi feito em uma gruta de Greccio, na Itália, e já era composto com bois, burros e reis magos. “Na Região Nordeste, por sua vez, os estudiosos atribuem ao franciscano Frei Gaspar de Santo Agostinho, no século XVII, a introdução do primeiro presépio na cidade de Olinda.”

Semira lembra ainda que, no Recife, o presépio dos Irmãos Valença ficou particularmente conhecido na primeira metade do século passado. Era um espetáculo que eles reconstruíram, porque tinha sido realizado pela primeira vez pelo avô dos irmãos em 1865, época da Guerra do Paraguai.

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