Sáb, 07 de Março

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Presidência brasileira da COP ainda tem desafios pela frente até passar o bastão

Pelas regras da ONU, país segue no comando até o encontro na Turquia; entraves vão de questões internas ao combustível fóssil

COP30. Cúpula reuniu 28 chefes de Estado ou de governo, menos da metade do registrado na COP anteriorCOP30. Cúpula reuniu 28 chefes de Estado ou de governo, menos da metade do registrado na COP anterior - Foto: Pablo Porciuncula/AFP

O encerramento da COP30, em novembro, sem a inclusão de qualquer menção aos combustíveis fósseis no documento final, é apenas um dos desafios que a presidência brasileira da conferência enfrenta até a passagem de bastão para o evento do ano que vem.

A resistência capitaneada por países produtores de petróleo que prevaleceu no Pará, a dificuldade de angariar financiamento climático e questões ambientais internas estão entre as dificuldades, destacadas por especialistas, que deverão ser encaradas pela equipe capitaneada pelo embaixador André Corrêa do Lago até a próxima edição, que ocorrerá na Turquia.

Até lá, pelas regras da ONU, o diplomata segue como principal nome do grupo.

Apesar da intenção da delegação brasileira, reiterada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando esteve em Belém, a elaboração de um “mapa do caminho” para a eliminação do uso de combustíveis fósseis não foi acordada. Coube a Corrêa do Lago o anúncio de que o Brasil lideraria a formação de roadmaps paralelos para esse tema e para o desmatamento.
 

O cientista Carlos Nobre, referência internacional no debate sobre Amazônia e mudanças climáticas, entende haver uma intenção concreta do Brasil de avançar nessa discussão. Ele destaca o encontro diplomático que será realizado em Bonn, na Alemanha, em meados de 2026, como um momento-chave neste percurso.

Leia mais: Transporte, setor em que emissões mais crescem no Brasil, tenta virada ecológica

— O maior desafio é fazer com que todos os países concordem com o fim do uso de combustíveis fósseis. Muitos já declaravam em Belém que não iriam aderir. Os que mais chamaram atenção foram Rússia, China e Emirados Árabes. Já o roadmap pelo fim do desmatamento encontrou entraves nos países tropicais que não têm planos de zerar a devastação até 2030. Isso ocorre, sobretudo, em nações produtoras agrícolas. Se questionar o mercado do agro, eles não apoiam — afirma Carlos Nobre.

Três eixos prioritários
O comitê científico criado por Corrêa do Lago para a conferência continuará ativo no próximo ano, auxiliando a presidência da COP30 em três principais áreas: a redução de emissões, do desmatamento de florestas tropicais e do uso de combustíveis fósseis.

— Esses três tópicos devem guiar a ação brasileira em 2026 para que possamos chegar na próxima COP com documentos bem elaborados, consolidados e negociados com demais países — aponta Paulo Artaxo, cientista membro do comitê.

Especialista em Política Climática do Observatório do Clima, Stela Herschmann destaca que a presidência brasileira deve usar outros eventos, como as semanas de mudanças climáticas pelo mundo, para ajudar a destravar as negociações sobre financiamento climático. A pesquisadora acredita que a elaboração dos “mapas do caminho” é o principal desafio da equipe de Corrêa do Lago, uma vez que é uma iniciativa liderada unicamente pelo Brasil.

— Será desafiador realizar o desenho desse processo até o fim do uso de combustíveis fósseis, e garantir o trabalho com países que apoiaram o “roadmap” na COP30. É importante para conseguirmos ter, além de um relatório técnico, um movimento nestas nações e decisões na COP31. A implementação é eminentemente nacional, por isso é necessário o engajamento internacional — explica Herschmann.

Em dezembro, o presidente Lula determinou que os ministérios de Minas e Energia, do Meio Ambiente, da Fazenda e a Casa Civil também elaborem, em até 60 dias, um “mapa do caminho” nacional para a transição energética. Ainda que tenha defendido a pauta durante a COP30, o governo federal recebeu críticas por ter aprovado, no mês anterior à conferência, a perfuração para exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas.

Para Nicole Oliveira, diretora-executiva do Instituto Internacional Arayara, o “primeiro desafio do Brasil até a COP31 é a implementação dos compromissos climáticos assumidos em Belém”.

— A meta climática que foi apresentada pelo Brasil prevê a redução de emissões, mas estamos vendo um aumento delas no país, principalmente no setor de energia. A política interna brasileira tem sido pró-fósseis nitidamente. Há também o desafio da conservação da biodiversidade, principalmente com a nova mudança da Lei de Licenciamento Ambiental — enumera Oliveira.

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