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Primitivo, o medo segue contemporâneo. Qual é o seu?

O medo é um dos sentimentos mais primitivos do homem e está relacionado ao instinto de sobrevivência e evolução da espécie. Mas o que mudou em relação à percepção e construção do medo ao longo da história? Como ele se forma? Veja na reportagem.

Medo provoca instinto de luta ou fuga que são primordiais para a sobrevivênciaMedo provoca instinto de luta ou fuga que são primordiais para a sobrevivência - Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco

Esqueça-se dele como sinônimo de fraqueza. Muito além, este é um dos sentimentos mais primitivos das espécies animais, incluindo o Homo sapiens. Como mecanismo de resposta biológica ao perigo - com uma química e física que acontece no sistema nervoso central, mas impacta todo o organismo -, o pavor é apontado por vários especialistas como elemento chave da sobrevivência e evolução humana.

Contudo, no contraponto da história, o medo vem mudando de cara. Se nos tempos primitivos a face era a dos predadores gigantes, hoje quimeras atormentam milhares. O medo saiu das florestas, invadiu metrópoles e, fora instinto de conservação da vida e integridade, virou vilão de uma gama contemporânea de adoecimentos provocados pelo próprio instinto de forma exagerada.

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“Medo é nome que damos a um conjunto de respostas do nosso corpo e da nossa mente quando somos expostos a situações de perigo. Ao detectarmos essas situações, entramos em um estado mais ou menos automático que, na grande maioria das vezes, nos impele a fugir daquilo que percebemos como perigoso. Também pode produzir reações do tipo paralisia ou de luta. Nesses momentos, nosso corpo apresenta uma série de mudanças fisiológicas, principalmente ligadas à liberação de adrenalina (aumento da frequência cardíaca, sudorese, etc), como também experimentamos um estado emocionalmente desagradável de alerta e apreensão mental, o qual passa a conduzir nosso comportamento”, explicou o psiquiatra e mestrando em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Rodrigo Marques.

Ainda sobre como o medo é processo no corpo humano e o que ele produz no organismo, o docente de psiquiatria da UFPE Amaury Cantilino contou que esse sentimento é desencadeado a partir de uma região do cérebro chamada amígdala. “Ela, por sua vez, ativa o hipotálamo, que vai preparar o corpo para fugir ou lutar. A reação de luta-fuga leva a aumento da frequência cardíaca para que o sangue seja bombeado mais rapidamente, da frequência respiratória para que o indivíduo acumule oxigênio, do tônus muscular para que não caia. Além disso, o sangue sai da pele para que não sangre com facilidade, se houver lesão, e do intestino para poder irrigar melhor a musculatura”, elencou. Isso sem falar que o indivíduo tem uma amplitude do campo visual e nas altas liberações de adrenalina e cortisol no organismo.

Psiquiatra Amaury Cantinilo

Psiquiatra Amaury Cantinilo - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco


Esse “tsunami” no nosso corpo tem por objetivo nos salvar de riscos, mas de forma recorrente ou desnecessária traz malefícios a saúde física e mental. A médica algologista (especialista em dor) do Real Hospital Português (RHP), Ana Karla Arraes comentou ao longo do tempo, essa resposta ao estresse agudo foi sendo ampliada. É como se o sentimento primitivo tivesse se rebuscado, acrescido, problematizado. Antes o motivo do medo era dar de cara com um animal selvagem, agora o bicho pode ser um semelhante armado, por exemplo. “O que se viu, é que a mudança na forma de vida das pessoas começou acionar esse mecanismo (do medo) mesmo quando não existe um predador. Então, por exemplo se você sofre assédio de um chefe de certa forma aciona esse mecanismo com cortisol alto, adrenalina alta. Não há predador, mas componentes de um estresse crônico”, alertou.

Ana Arraes dá ênfase a mudanças sociais na percepção do medo

Ana Arraes dá ênfase a mudanças sociais na percepção do medo - Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco


Medo como construção social

“Há medos inatos, como o de escuro, de barulhos intensos; há medos aprendidos com a experiência pessoal, como o de altura a medida que a pessoa vai levando quedas, o de sair de casa quando a pessoa passa por um assalto; e há medos aprendidos com a observação ou a experiência dos outros, como o medo de morrer ou de ter uma doença grave”, exemplificou Amaury Cantilino.

Já Rodrigo Marques destaca nesta construção simbólica do medo, justamente, o sentimento formado pela coletividade e passado pelas gerações. “Entre os humanos, apesar de alguns poucos elementos inatos, o medo se constrói quase totalmente a partir do aprendizado, baseado em elementos familiares, sociais e culturais. Por serem adquiridos através desse condicionamento, nossos medos tendem a se desenvolver sobre temas comuns ao meio ao qual pertencemos como também podem evoluir para incluir não apenas as situações de risco em si, mas também sinais antecipatórios que indiquem que essas situações estão para ocorrer”.

O medo também é construção coletiva

O medo também é construção coletiva - Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco

“Acho que aprendi muito do medo com a minha mãe. Somatizei na forma de enfrentar a vida”, confessou uma atriz recifense de 40 anos, que preferiu não ter o nome divulgado. O medo de se expor está ligado a outro medo: o do estigma da doença psiquiátrica. Em tratamento correto há cerca de dois anos, ela demorou muito para aceitar que as dores pelo corpo, a insônia, o nervosismo e o estresse não eram uma doença física, mas os sinais da Síndrome do Pânico.

Ao longo do processo de conhecimento foram muitos exames de imagem e laboratoriais que negativavam e só fazia aumentar a sensação de temor. “Sempre o medo era de perder minha mãe ou da minha própria morte. Apesar de terem acontecido alguns gatilhos ao longo da minha vida adulta, atribuo muito disso tudo a muita insegurança absorvida por mim na infância. Fui criada apenas pela minha mãe. Ela falava muito sobre os perigos de sair sozinha com os filhos e os riscos de tudo”, relembrou. Casos como os da atriz, em que o medo se associava a queixas dolorosas não raros, assim como a negativa de aceitar que a doença era emocional e não física. “É muito difícil para o ocidental entender que um desconforto psíquico- emocional possa trazer, sim, danos físicos”, justificou a médica Ana Arraes.

Medos que extrapolam
Quando esta reação ocorre sem que haja, de fato, uma situação de luta ou fuga, os médicos chamam o episódio de crise de pânico. “Isto é muito comum. Mais ou menos 2% das pessoas vão apresentar em algum momento da vida. Na crise de pânico, a pessoa interpretação a reação de luta ou fuga como se fossem sintomas físicos como taquicardia, falta de ar, tremores, tensão muscular, palidez, náusea ”,disse Amaury Cantilino. Fora os ataques de pânico, o medo também é patológico nas fobias, que neste caso é o temor desproporcional ao perigo que a situação realmente representa.

A pedagoga Carolina Kroll, 36 anos, tem pavor a gatos, por exemplo. “Eu vejo nele uma ameaça principalmente quando ele olha nos meus olhos. Dá um desespero muito grande, meu coração acelera. Porquê eu não sei, mas fico com muito medo. As pessoas não entendem meu medo, porque acham que acham que a figura do gato é inofensiva. Muita gente acha graça e rir porque é mais ‘natural’ ter medo de cachorro”, contou.

Gatos são o temor de Carolina

Gatos são o temor de Carolina - Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco


No caso do empresário Jayme Fonseca Júnior, 39, é a figura do palhaço que o tira do eixo. “Sempre foi assim desde pequeno. Tem foto minha chorando perto de palhaço. Hoje, até quando aparece um palhaço no semáforo para pedir dinheiro eu fecho o vidro, mudo de faixa, porque não consigo olhar. Se for em outro ambiente, saio para ir no banheiro. Não gosto de ficar perto”, confessou.

Desde a infância, Jayme evita como pode os palhaços

Desde a infância, Jayme evita como pode os palhaços - Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco


Medo anestésico
E quando o medo vira anestésico natural? Pois a relação é real e foi isso que cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) ligada a Universidade de São Paulo (USP) reproduziram em laboratório em 2018. O experimento que recebeu o Prêmio Juarez Aranha Ricardo, durante a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC), foi produzido por Raimundo da Silva Soares Júnior sob orientação do professor Norberto Cysne Coimbra e com apoio do CNPq, da FAPESP e da CAPES.

A experiência conseguiu induzir com ajuda de um fármaco o comportamento do tipo pânico em camundongos e verificar que durante a resposta luta ou fuga, os modelos paravam de sentir dor e com isso tinham mais chances de sobrevivência a um predador. “No funcionamento do sistema nervoso parece que existe um mecanismo que diminui a sua capacidade de sentir dor quando se sente medo intenso. O que a gente vê na pratica é que existe alguma relação entre a sensação de medo muito intenso e a diminuição na capacidade de sentir dor. A esse fenômeno damos o nome de antinocicepção. Sabíamos dessa relação na prática, mas precisávamos entender os neurônios que estavam envolvidos, que área do cérebro estava relacionada”, explicou Raimundo da Silva.

Testando dois fármacos e duas áreas distintas do cérebro (teto mesencefálico e núcleo dorsal da rafe), o grupo verificou uma relação ainda mais próxima. Um dos fármacos utilizados acabou tanto alterou a capacidade de sentir dor como a do comportamento tipo pânico. Foi diminuída a antinocicepção e os efeitos do medo intenso naqueles camundongos que foram testados no núcleo dorsal da rafe, especificamente nos receptores serotoninérgico 5HT2A. “Isso nos mostra que talvez, muito provavelmente, que esse subtipo de receptor pode ser um alvo farmacológico para futuras intervenções médicas conseguir melhorar a qualidade de vida e diminuir os sintomas de pessoas que sofrem com o transtorno no pânico”, afirmou.


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