Projeto usa cordel como terapia na colônia penal feminina de Abreu e Lima

Reeducandas de Abreu e Lima usam a literatura popular de cordel como forma de enfrentamento de problemas, como a depressão no cárcere

Mulheres utilizam as rimas e os versos para contar suas histórias, expressar suas angústias, medos e a saudade das famíliasMulheres utilizam as rimas e os versos para contar suas histórias, expressar suas angústias, medos e a saudade das famílias - Foto: Brenda Alcântara /Folha de Pernambuco

A Colônia Prisional Feminina de Abreu e Lima (CPFAL), vinculada à Secretaria Executiva de Ressocialização (Seres), tem em sua totalidade 381 reeducandas, e os índices daquelas que precisam de acompanhamentos psicológicos são altos. Como forma de lidar com esses problemas e enfrentar a depressão no cárcere, o projeto “Educando com Cordel”, do cordelista e poeta Edgar Diniz, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação, tem sido uma ferramenta importante para as reeducandas que estudam da Escola Estadual Irmã Dulce, localizada dentro da Colônia Prisional.

Se uma das principais funções sociais da literatura de cordel é informar por meio de rimas, métricas e oralidade, as mulheres da CPFAL a utilizam para contar suas histórias, que ficam restritas apenas às celas em que ocupam. Para Keller Geziane Nogueira, de 35 anos, é no cordel que ela expressa todas as suas angustias, medos e a saudade dos filhos e da família. “Sempre gostei de escrever versinhos e cartas de amor. E aos poucos a forma de escrever o cordel foi me encantando. Falo o que sinto e me baseio nas vivências de outras pessoas que estão aqui comigo”, afirmou.

Natural de São Paulo, Keller está presa há três anos e meio e espera que, ao ter liberdade, possa trabalhar com música e artesanato, além de viver ao lado do seu filho, sua maior inspiração. “Superação, coragem mostrou ele por mim, em um amor que não tem fim. Numa breve passagem, não perdeu a viagem, carregou amor e fé. Andou léguas a pé, chorei, quase morri. Despedi-me e sofri. Até um dia. Até”, diz trecho de uma das poesias dedicadas ao filho que veio de Minas Gerais até a colônia de Abreu e Lima, para visitá-la.

O cordel também tem sido uma forma de reviver o passado de boas lembranças. “A cultura popular e o Sertão mostrados no cordel, tudo isso eu vivenciei em Ibimirim, mas não sabia que ele tinha tanto valor. Hoje, uso como terapia mesmo, ele traz lembranças de uma vida digna e honesta, que pretendo ter novamente”, declarou Nanci Valéria da Silva, de 45 anos, reclusa há cinco anos. No projeto, elas participam de tudo, desde a construção dos versos até a confecção das xilogravuras feitas no isopor.

Definido pelo idealizador do Educando com Cordel como “ferramenta de liberdade”, o poeta Edgar Diniz afirma ter sido uma experiência gratificante desenvolver o projeto na Escola Irmã Dulce. “Foi um trabalho maravilhoso, e muda a visão temos do lado de fora. Conseguimos trabalhar com muitos vieses e um deles é também facilitar a leitura através da poesia.”

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Iniciativa aumenta participação
 A diretora adjunta da Escola Irmã Dulce, Solange Regina, diz que atividades como essa aumenta a participação nas aulas e levam as reeducandas a buscar melhorar o rendimento escolar. “Elas mudaram o comportamento, se tornaram mais participativas nas atividades em conjunto, principalmente as mais ansiosas”, afirmou.

O cárcere traz muito mais que a reclusão da sociedade. O projeto usa cordel como terapia em colônia penal. Retrata também o abandono delas pelos familiares. Por isso o número de mulheres que precisam de assistência psicológica tem aumentado. “O cordel foi fantástico. Ele nos trouxe autoestima, falamos o que sentimos, produzimos as xilogravuras”, afirmou Janaina Francisca de Lima, de 41 anos, reclusa há um ano e quatro meses.

Sobre o que esperar do lado de fora, ela escreveu: “O muro alto me esconde. A sociedade não vê. Sinto falta da família. Que sofre por não me ter. Eu posso estar aqui. O pensamento está fora. Vou sonhando dia e noite. A liberdade demora”.
 

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