Projetos no Recife engajam moradores para transformar realidade das periferias

Iniciativas como o Centro Saber Viver, na Ilha de Deus, e o Polo Cultural da Bomba do Hemetério buscam promover o desenvolvimento humano, com ações de estímulo ao turismo criativo.

Comunidade da Ilha de Deus, no Recife, subsiste da criação de mariscosComunidade da Ilha de Deus, no Recife, subsiste da criação de mariscos - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Gargalo histórico do Brasil, a desigualdade social é sintoma de uma realidade que torna a maior parte da população vulnerável a toda sorte de problemas, da violência à falta de saneamento básico, moradia e transporte de qualidade. No Recife, a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em novembro, revela um abismo de quase 1.500% na comparação entre a renda média mensal dos 10% mais ricos, de R$ 11.483, e a dos 40% mais pobres, que corresponde a R$ 730 - o levantamento não inclui as pessoas que vivem na miséria e não têm emprego. Mais dependentes dos serviços públicos, são esses dois últimos grupos que mais sofrem com a estrutura deficitária das cidades.

O contraste se reflete na própria paisagem urbana. Quem transita pela Avenida Norte, por exemplo, pode se deparar, à primeira vista, com os arranha-céus da Tamarineira e do Rosarinho, mas não precisa ir muito longe para avistar as escadarias de Alto José do Pinho, Morro da Conceição, Vasco da Gama, Nova Descoberta e Córrego do Jenipapo. Entre elas, os barracões da Macaxeira e, no caminho para o Centro, os becos e ruelas da parte periférica de Santo Amaro.

Em resposta a esse paradoxo, grupos de moradores das periferias do Recife se organizam para transformar a localidade onde vivem e promover o desenvolvimento humano. Embora atuem de forma independente, esses transformadores sociais se associam com o setor privado e o poder público na busca por gerar resultados positivos para as comunidades.

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Viver a Bomba
Um plano no meio de morros com mais de 8.400 habitantes, a Bomba do Hemetério é o cenário de uma dessas mobilizações. Gerido pelos próprios moradores, o Polo Cultural da Bomba do Hemetério reúne projetos artísticos e sociais de estímulo ao turismo criativo, inserindo o bairro e as localidades do entorno em um roteiro que destoa do tradicional circuito Boa Viagem/Recife Antigo/Alto da Sé. Mais do que conhecer mirantes com vista bonita e pontos históricos, o coletivo leva o turista a uma imersão na rotina e no estilo de vida do lugar.

Entre as atividades oferecidas nos passeios, estão oficinas de adereço e percussão, apresentações de maracatu, coco, balé afro e bumba-meu-boi e experiências gastronômicas. O Polo recebe, em média, de 60 a 80 turistas por ano. Os valores vão de R$ 15 a R$ 70 por pessoa, dependendo do pacote. “O roteiro mais em conta que a gente faz é o ‘Conhecendo o Território’, um passeio pelas ruas da Bomba, incluindo as sedes de agremiações como a Orquestra Popular e a escola Gigantes do Samba. Tem também o ‘Recife é Sempre Carnaval’, que é o mais procurado, com as oficinas e vivências de apresentação cultural”, explica um dos guias do projeto, Rivaldo Ferreira. A programação varia conforme as vontades dos visitantes, mas, em geral, começa pela manhã e se estende até a tarde, terminando em algum bar ou restaurante da região.

O Polo Cultural ultrapassa os limites da Bomba e abrange as comunidades vizinhas. Um dos pontos que fazem parte dos roteiros é o Sítio de Pai Adão, em Água Fria, onde fica o Ilê Obá Ogunté, o mais antigo terreiro de culto Nagô de Pernambuco. “É muito bom porque é um pouco do sustento que a gente tira”, diz o cozinheiro Ítalo dos Santos Ferreira, de 27 anos, que participa do maracatu Raízes de Pai Adão e é um dos organizadores das oficinas para os turistas.

Hoje desempregado, ele teve que trancar a faculdade por não poder pagar o curso, mas ressalta as oportunidades que o maracatu trouxe. “Já dei aula para pessoas dos Estados Unidos, México. É um pouco difícil entender as línguas deles, mas eles trazem tradutores. Foi uma experiência legal”, considera. “Agrega muito valor para a gente. Quando se fala na Bomba, as pessoas já olham diferente, sabem que é cultura”, complementa o coordenador do maracatu do Polo, Jorge Carneiro.

O movimento beneficia ainda o mercado gastronômico local. Dona do Espetinho da Ceça há 17 anos, Maria da Conceição Carneiro, 49, diz que deu um salto no próprio negócio desde o começo do projeto, em 2010. Antes uma barraca na calçada, hoje a petiscaria é um restaurante de primeiro andar, com quatro funcionários. “Meu faturamento cresceu mais de 80%. Abriu várias portas para mim. Através do meu trabalho, minha filha se formou em educação física. Meu filho também é empreendedor, montou um estúdio de tatuagem. No começo, eles me ajudavam, mas cada um segue seu próprio caminho”, conta.

A iniciativa no campo turístico também fez os moradores a se conscientizarem sobre a limpeza das ruas, incluindo um projeto que substitui os pontos de lixo por jardineiras. “Todo mundo se educou para descer o lixo na hora certa, quando o caminhão da coleta passar”, diz Ceça.

No mangue dos mariscos
Quem hoje atravessa a ponte estreita que leva à Ilha de Deus vai estranhar quando souber que aquele lugar incrustado num braço de rio entre os bairros da Imbiribeira e do Pina já foi chamado um dia de “Ilha sem Deus”. A comunidade de cerca de 2.600 habitantes, que subsiste da criação de ostras e mariscos e passou por um projeto de revitalização e construção de moradias populares no fim da década passada, abriga também a sede do Centro Educacional Popular Saber Viver. A instituição oferece cursos e treinamentos para crianças e jovens, além de promover o turismo local, com passeios aos moldes dos que são realizados na Bomba do Hemetério.

Criado por uma freira no início dos anos 80, o Centro Saber Viver deixou de ser uma entidade filantrópica numa comunidade marcada pela violência e hoje é uma organização não governamental gerida por moradores. Um dos diretores da ONG é a chef de cozinha Geiseane Ataíde Gomes, 31, conhecida na vizinhança como Negra Linda. O apelido também é o nome do bistrô que administra e fica em uma antiga escola de remo onde ela serve pratos com os frutos do mar criados na própria localidade. Nascida na Ilha de Deus, ela vem de uma família que sobrevivia da pesca, foi uma das crianças atendidas pela instituição e agora é uma empreendedora de sucesso.

“Eu participava dos cursinhos. Fiz curso de cabeleireiro, culinária, dança, teatro, artesanato. E eu me identifiquei com a culinária. Em 2014, começamos com o turismo de base comunitária, que hoje chamamos de turismo criativo, porque precisamos ter uma renda. E a gente dá assistência aos empreendedores locais”, narra Geise. Atualmente, cerca de 70 pessoas participam das aulas oferecidos pelo projeto. Com tantos talentos sendo desenvolvidos em áreas diferentes, os membros do Centro se juntaram para montar o programa de turismo na Ilha. “Pegamos o nosso grupinho da ONG, e cada um ficou com uma função dentro do percurso turístico. Tem o condutor local, o palestrante, a marisqueira, que ensina como o marisco é pescado e tratado, até chegar a mim para cozinhar. Antes eu fazia a sobremesa, mas a minha mariscada fez sucesso e eu passei a função para outra pessoa porque todo mundo tem que ter uma renda”, afirma.

Turismo e coletividade
O principal efeito desejado com os projetos de turismo de base comunitária é ativar a cadeia produtiva do bairro, distribuindo oportunidades. “A Negra Linda compra os produtos da Ilha, vende os produtos que compra dos pescadores para os turistas, e isso gera renda para quem trabalha no bistrô”, explica o coordenador de Projetos Sociais do Centro Saber Viver, Edy Rocha.

Para ele, a melhoria de infraestrutura na Ilha de Deus realizada em 2007 ajudou a impulsionar essa transformação não só na atuação da ONG, mas em toda a comunidade. “Mas devemos lembrar que as pessoas que agora moram em casa com azulejo cimentado, banheiro, são as mesmas que moravam nas palafitas. Hoje elas têm um custo bem maior. Ou seja, nós temos que cuidar dessas pessoas para que elas não vendam as casas e voltem às palafitas”, ressalta.

Um princípio importante para que essas intervenções, públicas ou privadas, deem certo é, na visão do antropólogo Thiago Santos, tomar as ações tendo como base as características a cultura do local, ouvindo atentamente a população. “Tem que partir de uma escuta dessas pessoas, quais são as necessidades específicas do lugar, as principais atividades, o que deveria ser potencializado, o que a juventude espera. Não é porque, por exemplo, a comunidade é tradicional na pesca que os jovens querem se vincular a essa atividade. Pensar também a mudança de vida pelas profissões sem estigmatizar”, argumenta.

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