Qual a fórmula da educação?

Entre a permissividade e a criação mais rígida, pais buscam o equilíbrio na hora de preparar os filhos para a vida adulta. Especialistas advertem que “educar também é saber dizer não”

Rossandro KlingeyRossandro Klingey - Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

Não existe manual para criar filhos. Caso existisse, talvez a vida fosse um pouco menos complicada. Ou não. Mas imagine se isso fosse uma realidade? Como deveria ser? Possivelmente, cada pai e responsável colocaria uma infinidade de dicas e regras diferentes. Mas uma coisa é unânime: como todo livro atualizado periodicamente, esse também seria, de modo que a edição utilizada atualmente seria diferente da usada no passado. E essas adaptações, atualizações e mudanças nas orientações causariam uma transformação na sociedade que temos hoje, em comparação com a de alguns anos atrás. O que não se pode ter certeza é se os resultados dessas mudanças seriam positivos ou negativos.

Esse manual nunca foi ou será realmente produzido, mas, segundo o psicólogo paraibano Rossandro Klinjey, existe de fato uma mudança no estilo de criação dos filhos que vem ocorrendo há algum tempo. “Quem foi criança nos anos 60, 70 e 80, por exemplo, vem de uma geração que enfrentou certas dificuldades, que precisou lutar para crescer e o fez. O problema é que essas pessoas tiveram a infeliz ideia de poupar seus filhos de todas as dificuldades. Elas pensam: ‘Eu passei por isso ou não tive isso, então significa que meu filho não passará e terá tudo o que eu não tive’. Isso é um dos maiores erros e é muito comum. É um tipo de compensação por algo”, comenta. “Existe uma falta de limites tão grande que gera uma fragilidade em uma geração inteira e isso atinge todo o mundo ocidental. Pais que mimam os filhos, pais que superprotegem, pais que não dizem Não. Há uma causa e efeito aqui. O adolescente não preparado, no primeiro murro que leva da vida, vai a nocaute.”

Alguém que fez algo assim foi o professor universitário Adailton Laporte, 45 anos. Pai de dois filhos - Pedro, 21, e Celeste, 6, - ele conta que a criação dos irmãos difere bastante por uma série de motivos, mas que o mais velho acabou sendo um pouco mais “protegido”. “Eu tive o Pedro com 24 anos, era muito novo. Muito da educação dele lembra a que eu recebi dos meus pais - que foi mais rígida, mais tradicional, católica. Talvez pelo fato de ter me separado da mãe dele. Eu tentava sanar toda e qualquer necessidade que ele tivesse. Não existia não ou qualquer limite. Eu era muito complacente. E não deixava ele falhar. Antes de ele cair, eu já colocava uma joelheira nele, sempre fui muito coruja”, conta.

Segundo o professor, a criação do Pedro é completamente diferente da criação da caçula Celeste. “Os fatores idade e maturidade são determinantes aqui. Além do fato de que eu crio a Celeste juntamente com a Joana (mãe da menina). Continuo sendo muito coruja e cuidadoso, mas ela sempre puxa minha orelha. Joana sempre destaca que devemos mostrar para nossa filha que estamos aqui para o que der e vier, porém que ela tem que fazer as próprias coisas.”

“Discutimos às vezes porque eu tomo a iniciativa de fazer as coisas para a Celeste. Coisas que ela poderia fazer, mas que eu acabo fazendo, como amarrar o sapato ou buscar água, sabe? É mais forte do que eu. E na minha visão, eu posso ser amigo dos meus filhos. Claro que existe uma hierarquia, antes de tudo eu sou pai, mas eu sou amigo deles, tanto de Pedro quanto de Cel”, pondera.

Mãe é mãe
Esposa de Adailton, a turismóloga Joana Chaves, 42, tem uma visão bem diferente. “Nunca me considerei e nem me considero amiga das minhas filhas. Além da Celeste, tenho outra filha: Luana. Ela tem 22 anos. Tive ela muito nova, com 19 anos, e por diversos fatores, a criação dela foi dividida com a minha mãe. Tanto é que em alguns momentos, existe uma confusão pois ela parece minha filha e também parece minha irmã”, explica. Joana acrescenta que a relação entre ela e a filha mais velha vai mais pela troca de experiências.

“Ela é facilitada pela proximidade das idades, pelos gostos em comum, mas nós não somos amigas. Somos mãe e filha. Entretanto, é completamente diferente da relação que eu tinha com a minha mãe, que achava que sabia mais que o mundo. Sempre esteve comigo para tudo, sempre me amou muito, assim como eu a ela, mas nós não conversávamos como eu e Luana conseguimos conversar hoje em dia, sabe? Mas nós não somos amigas.” “Mãe é mãe. Eu não posso ser muito permissiva, dar tudo o que quer e tratar como coleguinha e criar uma pessoa sem preparo para lidar com frustrações. No futuro, elas perceberão que isso foi culpa dos pais e eu não quero esse peso”, destaca.

As histórias de Joana e Adailton são exemplos do que Klinjey explica. “Uma relação mais próxima é diferente da relação de amigo. Quando eu, como pai, deixo meu papel e hierarquia e assumo um lugar comum de amigo, de coleguinha, como eu espero contribuir para a formação da ego e caráter da criança? Ela precisa olhar para você e saber que você manda”, avalia.

Apesar de sempre ter tentado ser amiga da filha de 21 anos, foi mais ou menos isso que a funcionária pública Solange Fernandes, 45, tentou fazer ao criar Tatiana. Mãe solteira, ela afirma que sempre quis ser amiga da filha, na intenção de ter uma abertura para falar sobre tudo, mas sem abrir mão da autoridade quando necessário. “Nós sempre conversamos sobre tudo. Eu acho que fiz um bom trabalho. Criei alguém consciente de que não pode ter tudo o que quer”, declara.

Para o sociólogo Nadilson Silva, quando se trata de criação de filhos, atualmente, há uma relativização de valores, ao contrário do passado, quando existia um sistema mais claro, mais tradicional - que os filhos costumavam aceitar sem questionar. “Existe uma insegurança quanto há um padrão de criação e ela vem de pais e filhos. Além disso, existe uma questão da falta de tempo dos pais. Há uma pressão muito grande para ganhar dinheiro, ou seja, os pais acabam tentando compensar uma ausência na vida de seus filhos com agrados”, esclarece Nadilson Silva.

O problema desses agrados exagerados é que ele deixa essas crianças e jovens dependentes de seus pais e despreparados para o mundo. “Estamos vivendo um período de transição. O script antigo - onde se tinha regras impostas pela igreja, pelas escolas e pelos próprios pais, não é mais satisfatório para o jovem, mas o modelo atual também não é bom para ninguém. Os adultos estão perdidos neste contexto de vida atual. O diálogo é necessário. É necessário, mas não de igual para igual. E é diferente de dar limites. Tudo precisa ser debatido e não oprimido. Não se pode apenas substituir problemas de afetividade com consumo ou outras coisas”, finaliza.

Harmonia
A servidora pública Patrícia Brandão, mãe da Luna, 10, e do Miguel, 7, tenta ao máximo deixar o relacionamento mãe e filho bem resolvido. Para ela, autoridade amorosa é diferente de uma autoridade ditatorial. “Eu preciso me posicionar, conter a vazão dos meus filhos, impor limites. Mãe não precisa ser inacessível, mas mãe não é amiga. Ser amiga é mais fácil. Ser amiga não é educar. Educar é direcionar para que eles caminhem sozinhos no futuro”, comenta.

Sobre como seria o jeito certo de se criar um filho, Rossandro sugere o seguinte o equilíbrio. “Amar também é dizer não. Devemos manter valores do passado que se perderam, como respeito e disciplina, agregados o que se tem hoje: democracia e diálogo. A gente sai de uma família repressiva para uma família permissiva. O que se deve buscar? Uma família equilibrada. Que eu retome aquilo que foi importante na minha educação, lá do passado. Uma educação que tinha respeito, norma, disciplina, mas era rígida, distante, machista e tal - e isso não deve ser repetir. Mas disciplina e ordem são as únicas coisas capazes de forjar a você as competências”, finaliza o psicólogo.

Geração Nem-Nem
A dependência que os agrados e presentes em exageros, citados pelo sociólogo Nadilson Silva, pode causar em crianças e adolescentes se encaixaria como um dos fatores que causam o aumento da chamada geração Nem-Nem (que nem estuda e nem trabalha). Segundo uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 48,5 milhões de jovens entre 15 e 29 anos de idade no Brasil, pouco mais de 25 milhões não concluíram o ensino superior e nem frequentaram escola, curso, universidade ou qualquer outra instituição regular de ensino em 2017. São mais 330 mil pessoas em comparação a 2016.

Ou seja, em 2017, um em cada cinco jovens não trabalha nem estuda. Isso representa 21,7% dos jovens de 15 a 29 anos, um ligeiro aumento em relação a 2016, quando foi registrado 20,5%. O número foi maior entre as mulheres, cuja incidência foi de 27,1%, enquanto entre os homens, a taxa ficou em 16,4%. Entre os jovens pretos e pardos, o percentual daqueles que não estudam ou trabalham foi de 24,4%, enquanto que entre os brancos, a taxa ficou em 17,7%. Por faixa etária, o grupo de 18 a 24 foi o mais afetado, alcançando 28%.

As justificativas variam entre as mais diversas. Segundo o IBGE, Ter que trabalhar, estar à procura de emprego ou ter conseguido uma vaga que vai começar em breve foram as principais justificativas para a interrupção dos estudos, apontadas por 39,6% dos jovens. As mulheres são maioria nessa pesquisa, representando 28,9% e o principal motivo alegado foi o trabalho como motivo para não estudar. Ter que realizar afazeres domésticos/cuidar de pessoas, foi apontado por 24,2% delas, mais que o dobro da média dos jovens, e muito superior à taxa dos homens, com apenas 0,7%. Para eles, os principais motivos alegados para não estudar foram o trabalho, com 49,3%, e o desinteresse, com 24,2%.

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