Quando a felicidade faz a curva

Pesquisa feita por antropóloga da UFRJ mostra que, na “curva da felicidade”, mulheres com mais de 60 anos estão no topo

Ridete Santos, 73, diz que a felicidade surge quando a pessoa não se importa com parâmetrosRidete Santos, 73, diz que a felicidade surge quando a pessoa não se importa com parâmetros - Foto: Brenda Alcântara

“Na próxima encarnação quero nascer homem.” Mesmo em pleno século 21, essa frase, ainda dita por muitas mulheres, é reflexo da liberdade e das facilidades que o homem tem em relação à mulher - seja por tirar a camisa quando está com calor ou até por atitudes mais banais, como não precisar sentar para fazer xixi. É injusto, mas eles são mais felizes do que o público feminino por quase toda a vida. O jogo para elas só vira a partir dos 60 anos, quando vários tabus são quebrados. Pelo menos, é o que indica a pesquisa “Corpo, Envelhecimento, Felicidade”, feita pela doutora em antropologia social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mirian Goldenberg.

Tentando desvendar as infelicidades do sexo feminino, a antropóloga realizou, ao longo dos últimos 30 anos, uma pesquisa com cinco mil homens e mulheres na faixa etária dos 18 aos 96 anos. Ao entrevistar ambos os gêneros, Miriam descobriu a “curva da felicidade” entre as mulheres: as que tinham entre 40 e 50 anos, na base da curva, eram as que mais se sentiam infelizes e frustradas. Reclamavam da falta de tempo, de reconhecimento e, principalmente, de liberdade. Este último como sendo um dos privilégios dos homens que mais despertavam inveja entre elas.

“As entrevistadas com mais de 60 anos [num dos topos da curva] disseram, categoricamente, ‘este é o melhor momento de toda a minha vida. É a primeira vez na vida que posso ser eu mesma. Nunca fui tão livre’”, contextualiza a antropóloga. Ao analisar detalhadamente os aspectos da vida moderna, revelou-se que os homens experimentam níveis mais elevados de felicidade do que as mulheres por estarem mais satisfeitos, por exemplo, em relação ao corpo e à aparência.

Na Capital pernambucana, não é diferente com as mulheres na faixa etária próxima dos 40 e 50 anos. Muitas impõem a beleza estética como algo essencial para ser feliz. Hoje, com 12 quilos a menos, a advogada Clara Andrade, 37, diz-se mais livre e empoderada com o corpo que conquistou. "Antes, minha autoestima era baixa e eu me privava de usar um vestido colado, por exemplo. Sinto-me bonita e independente em relação a Carla de antes", declara.

Entre os pontos principais que Mirian ressalta a partir da pesquisa, está o fato de que o padrão de beleza que tantas mulheres buscam é idealizado pelo capitalismo, enquanto que o maior capital que as mulheres devem ter é o tempo para olharem para si mesmas e aproveitá-lo para fazer o que se tem vontade, sem se importar com o que os outros vão pensar ou criticar. “Por que demoramos tanto tempo para descobrir uma coisa tão simples? Que a melhor rima para a felicidade é a liberdade? E que rir muito, principalmente, rir de nós mesmas é sempre o melhor remédio?”, questiona a antropóloga.

Essa lição, a aposentada Lhuba Gandelsman, 87, leva à risca. “Faço o que dá na telha, sou livre, não tenho problema em relação ao que visto e ao que vão pensar.” Compartilhando da mesma ideia, a também aposentada Ridete Santos, 73, reforça que a felicidade vai muito além dos padrões estéticos impostos. “O segredo é ser você mesma sempre, sem se importar com parâmetros. Se gostar e se colocar em primeiro lugar é a chave para a liberdade. E quando se é livre, se é feliz. O tempo que me ensinou a ver a vida dessa forma”, conta.

Críticas
Na avaliação da professora de Direito e membro da Comissão de Direitos Humanos da UFRPE, Ana Pontes, ”o discurso de Miriam é bom para um determinado público, que é de classe média. Mas, se for analisar de forma macro, chega a ser um problema ela ser simplista e culpar a mulher pela própria infelicidade. Como chegar e falar que ela tem que cuidar de si mesma e deixar de ligar para o que os outros pensam para uma mulher que passou a vida inteira entupida de estereótipos? Dizer que ela deveria ter se libertado antes? Esse discurso enxerga apenas uma classe”, critica.

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