Quem foi Maria Lacerda de Moura?

A coluna Mulheres em Movimento recebe a contribuição da feminista Fernanda Grigolin que, segundo ela, é artista, editora, e acredita no feminismo autônomo como prática artística

Maria LacerdaMaria Lacerda - Foto: Divulgação

A coluna Mulheres em Movimento recebe a contribuição da feminista Fernanda Grigolin que, segundo ela, é artista, editora, e acredita no feminismo autônomo como prática artística. Publica entre outros textos o Jornal de Borda, doutoranda pela Unicamp, ela nos conta o que a inspirou a publicar o livro A mulher é uma degenerada, de Maria Lacerda de Moura.

Você já ouviu falar nessa mulher que nasceu no século XIX, mas que poderia ser nossa contemporânea pela atualidade do seu pensamento? O livro está disponível para venda através da Tenda de Livros: http://tendadelivros.org/marialacerdademoura/.

Saiba mais a respeito, comente, compartilhe a coluna e leia o livro!
Carla Batista

Novamente em circulação: A mulher é uma degenerada, de Maria Lacerda de Moura

Por Fernanda Grigolin

O que me levou a republicar o livro A mulher é uma degenerada, de Maria Lacerda de Moura? Para responder essa indagação, eu poderia repetir o que disse na apresentação do livro: a publicação ainda é extremamente atual em vários aspectos, em especial no que tange à crítica ao capitalismo e à sociedade burguesa; e à defesa da maternidade livre e do amor livre. Contudo, o ato de republicá-la não teve esse único motivo.

Poderia justificar o ato de republicar Maria Lacerda pela sua importância e as inúmeras pesquisas que realizaram sobre ela dentro e fora da academia. Maria Lacerda é uma anarquista brasileira muito reconhecida entre pesquisadoras/es, ela é assunto em teses e pesquisas nas universidades brasileiras, sendo o trabalho de Miriam Moreira Leite o primeiro focado, exclusivamente, na autora. Todavia, Maria Lacerda é, infelizmente, uma mulher muito pouco lida na fonte primária pelo público contemporâneo. Poucos fora do circuito acadêmico ou anarquista sabem quem ela foi. Atualmente, ficaram a cargo de anarquistas estudos e leituras em seus textos originais. São eles, de fato, os guardiões dos escritos e livros da autora. Maria Lacerda de Moura nasceu em maio de 1887 e morreu aos 57 anos em março de 1945. Foi precursora do que hoje denominamos anarcofeminismo, uma vertente do feminismo que se relaciona com os feminismos autônomos e com os movimentos anarquistas.

Poderia justificar a republicação do livro por Maria Lacerda ter sido extremamente ativa em sua época. Ela era lida por intelectuais, militantes e escritores tanto do Brasil quanto do exterior. Publicou mais de vinte livros, entre eles: Renovação (1919), A mulher e a maçonaria (1922), A fraternidade na escola (1922), A mulher é uma degenerada (1924), Religião do amor e da beleza (1926), Amai e… não vos multipliqueis (1932), Fascismo: filho dileto da igreja e do capital (1933). Foi editora da revista Renascença.

A mulher é uma degenerada é um entre tantos livros e é, seguramente, o mais conhecido. Escrito há quase cem anos, em 1924, tivera até então mais duas edições no Brasil (1925 e 1932) e uma na Argentina (1925). Desde 1932 não havia notícia de uma nova edição. A última edição em vida da autora foi por ela revisada e inclui cartas enviadas por pessoas que leram o livro. Há impressões de Roquette Pinto e trechos do texto da poeta Gilka Machado, por exemplo. O trecho da carta de Gilka a Maria Lacerda de Moura é particularmente interessante: “quando a miséria nos acirra, é inútil recorrer a uma patrícia: ela não tem noção da caridade (que eu diria, solidariedade), do dever humano e só protege em dias determinados, por meio de chás concertos e requebros de tango; para elas a desgraça sempre é motivo de divertimento”. O trecho de Gilka foi o mote da carta que escrevi a Maria Lacerda: quem assina a carta é a narradora do meu doutorado, a Mulher do canto esquerdo do quadro, uma operária que viveu no século passado. O trecho também foi destacado por Carolina O. Ressurreição, uma das comentadoras convidadas para escreverem no livro; ela traz para primeiro plano as questões de classe e raça unidas ao anarquismo. Destaco dois trechos abaixo:

Ainda que faça a crítica à mulher das classes abastadas, da boa sociedade, e registre – como Gilka Machado – que quando “a miséria nos acirra não há como buscar solidariedade nas patrícias”, Maria Lacerda não estende a crítica dos privilégios à questão racial.

Hoje, influenciadas pelo pensamento libertário de Maria Lacerda de Moura inclusive, podemos invocar um feminismo que se diga interseccional, que considere ativamente em suas leituras do mundo não só as opressões que podemos ver e de que podemos eventualmente ser vítimas, mas as opressões fora de nosso campo imediato de visão que se relacionam com as “nossas” de forma estrutural e vinculante. Hoje, dizemos no feminismo, tal qual no anarquismo, que não há liberdade para uma mulher se não houver para todas. Não há liberdade sexual em relação à maternidade para mulheres que podem escolher, se não houver direito de escolha para mulheres pobres, esterilizadas à revelia, ou mulheres negras, incapacitadas de cuidar de questões de sua [não] reprodução por estarem presas às crias de mulheres brancas.


Poderia justificar o ato de republicar o livro por ser um objeto primoroso em conteúdo e forma. A escolha de manter o texto de Maria Lacerda em formato fac-símile foi realizada de maneira consciente, era uma maneira de tê-la presente no formato, pois seguramente o desenho de capítulos e de parágrafos foi pensado pela autora. Porém, junto ao fac-símile há uma pesquisa iconográfica e um estudo tipográfico. A designer Laura Daviña fez um estudo rigoroso sobre as relações tipográficas das edições anteriores do livro de Maria Lacerda. Deste estudo vieram a capa e elementos como orelha, folha de rosto e cartazes. Sem o trabalho de Laura, o livro não seria tão primoroso. Houve uma entrega e dedicação por parte dela. A mulher é uma degenerada é parte da série “Aquela Mulher”, um desdobramento da pesquisa que iniciei em Arquivo 17 e ainda tem muitas ações a realizar. Publicá-lo decorre de uma escolha pessoal e editorial, mas só foi possível pela entrega e parceria com todas as pessoas envolvidas.

Poderia justificar o ato de republicar o livro por ser ele todo um lugar da autoria compartilhada em todo o seu processo. O nome posto na capa denomina muitas vezes apenas a autoria textual, mas o livro é um objeto de produção, edição e circulação. A mulher é uma degenerada é de todas as pessoas que o fizeram vivo e trouxeram para o hoje a voz de Maria Lacerda outra vez (todas as pessoas estão citadas em Sobre o livro A mulher é uma degenerada).

Livro A mulher é uma degenerada, de Maria Lacerda de Moura

Livro A mulher é uma degenerada, de Maria Lacerda de Moura - Foto: Divulgação

O motivo que me levou, verdadeiramente, a republicá-lo é que eu gostaria de vê-lo nas diversas estantes e mesas de pessoas que almejam um “outro porvir” e querem lutar por isso. Eu desejaria ter lido o livro na íntegra e pelos meus olhos quando eu iniciei minha militância feminista, em 1998, aos dezoito anos. O encontro com Maria Lacerda na adolescência teria me permitido conhecer logo cedo um feminismo autônomo, anticapitalista, anticlerical e anarquista. Um livro potente começa com um desejo de vida, transformação e encontro; é a grande utopia compartilhada que tenho como artista e editora que acredita no ato de publicar.

A edição de 2018 de A mulher é uma degenerada possui 320 páginas, que incluem o livro original em fac-símile, textos inéditos de pessoas convidadas, estudo gráfico e intervenção artística. A organização e edição são de Fernanda Grigolin, capa e projeto gráfico de Laura Daviña e comentários de pessoas que estudam e possuem uma relação com a obra de Maria Lacerda, como: Margareth Rago, professora titular da Unicamp, que possui publicações sobre Maria Lacerda e outras mulheres anarquistas tanto do Brasil quanto do exterior; a pesquisadora especializada na história das mulheres anarquistas na Primeira República e sua relação com o anarcossindicalismo Samanta Colhado Mendes; a anarcofeminista e pesquisadora do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri, Juliana Santos Alves de Vasconcelos, a historiadora e pesquisadora independente de sexualidade e anarcofeminista Carolina O. Ressurreição e as anarcofeministas Eloisa Torrão e Marina Mayumi.

Além dos comentários, no livro está contida uma carta a Maria Lacerda de Moura escrita pela Mulher do canto esquerdo do quadro, a narradora de uma pesquisa em arte que Fernanda Grigolin realiza. O conselho editorial é composto por Antonio Carlos Oliveira e Maria de Moraes, e a pesquisa de fontes primárias foi feita no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL- IFCH/Unicamp), na Biblioteca Terra Livre, no Centro de Cultura Social e no Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri.

Ouça a carta que escrevi para Maria Lacerda de Moura: https://soundcloud.com/fernandagrigolin/carta-a-maria-lacerda-de-moura

A edição de A mulher é uma degenerada foi pensada como lugar de acesso a trabalhos de arte e/ou coletivos, além da já citada carta da Mulher do canto esquerdo do quadro, há a ação/convocatória Vamos mais longe/¡Vamos más lejos!. Convite aberto para feministas de todas as gerações, consiste em responder o cartaz homônimo que contém a seguinte frase de Maria Lacerda de Moura: É muito medíocre o anseio de ser igual ao homem… De reivindicar seus direitos, dentro desta organização social de escravos e máquinas a serviço da mediocracia e do industrialismo. Vamos mais longe!

A primeira resposta, de Carolina Ressurreição, está impressa na edição fac-símile comentada de A mulher é uma degenerada, e a expectativa é que venham novas. A segunda resposta, de Itzell Sanchez, virou uma música: “Vamos más Lejos”. Conheça o projeto aqui.

Outros trechos do livro A mulher é uma degenerada
Emancipação da mulher (diversas páginas, trechos esparsos)


Quantas grandes almas femininas por este mundo afora, desejam ardentemente o filho não desejando absolutamente o marido!... E essas, justamente, são as chamadas “emancipadas”, as inteligentes, as de carater, as que se não sujeitam ao jugo do senhor mediocre e presunçoso, muito abaixo delas, entretanto, sujeitar se-iam gostosamente ao jugo da maternidade absorvente.

É ao caráter feminino que atacam, é o combate à rebeldia e à superioridade moral, à insubmissão, ao anseio de liberdade e Amor – na mais ampla significação da palavra.

Os homens têm tido por objetivo conservar a irresponsabilidade feminina, a eterna futilidade do sexo, porquanto assim é mais fácil comprá-la com bombons e rendas e leques e pérolas….

As exceções femininas provam que a mulher se faz por si mesma e, para isso, precisa acotovelar os preconceitos e voar o pensamento para além das pequeninas minudências da vida e das futilidades sociais.

Eu não discuto com um homem apenas, com o sr. Bombarda, com Lombroso, ou com Ferri: protesto contra a opinião anti-feminista de que – a mulher nasceu exclusivamente para ser mãe, para o lar, para brincar com o homem, para diverti-lo. O sr. Bombarda foi o pretexto.

A mulher é fisiologicamente diferente do homem – não inferior. Sua inferioridade é apenas econômico-social, inferioridade de preconceito.

A criança e a mulher proletárias são os entes mais prejudicados pelo capitalismo, pelo industrialismo moderno…


Sobre o tempo que ela vivia (Ninguém mais nasce de olhos fechados, capítulo
sobre arte e literatura, trechos sequencias)


Início de um grande movimento em que se confundem e se estorcem os trovões das tempestades ameaçadoras, a brisa umedecida das nuvens baixas, a atmosfera pejada dos desmoronamentos e o fuzilar seco dos coriscos, estalando as superfícies e ameaçando ruir até os alicerces.

Duas formidáveis correntes se entrechocam e se desafiam rudemente: o passado não cede, facilmente, o lugar ao porvir.

Forças igualmente grandes, igualmente poderosas se arregimentam e se armam na defesa dos seus princípios e vêm bater-se na arena social. Estamos em frente de dois exércitos majestosos.

Um tem, forçosamente, de ceder tudo ao outro, em uma transmutação de valores moraes. São incompatíveis o dogma e o pensamento livre, o princípio de autoridade e o princípio de liberdade, o preconceito e o bem-estar individual.

É a encruzilhada.


*Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas

 

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