Preconceito

'Preto e pobre não merece estar aqui', foi o que ouviu jovem agredido em marina no Paulista

Segundo a vítima, o que era para ser um simples passeio com amigos da faculdade virou cenário de intolerância e violência gratuita

Lucas De Lima Paiva, 20 anos, estudante de engenharia da UFPELucas De Lima Paiva, 20 anos, estudante de engenharia da UFPE - Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

Lucas de Lima Paiva, 20 anos, estudante de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi agredido em uma marina. Este poderia ser um relato de uma agressão sofrida por um jovem comum, mas a motivação dessa violência revela outra realidade. Segundo relatou à Folha de Pernambuco, ele foi agredido por ser negro. O crime aconteceu na tarde do último sábado (30), numa marina localizada no bairro de Maria Farinha, em Paulista, no Grande Recife. As imagens do crime circularam nas redes sociais.

Apesar da Polícia Civil de Pernambuco, que investiga o caso, não ter revelado os nomes dos agressores, a Folha de Pernambuco confirmou com uma fonte que testemunhou as prisões que o crime foi cometido pelos irmãos Thierry Rocha, Thayanne Rocha e um amigo dos dois, cujo nome ainda não foi identificado.

O que era para ser um simples passeio com amigos da faculdade, a convite de uma colega, virou cenário de cenas de intolerância e violência. "Fui convidado para uma lancha. Eu e meus amigos. Uma amiga convidou mais pessoas que eu nunca tinha visto na vida, totalmente desconhecidas. Não falei com elas, não falaram comigo", relatou Lucas. Ele era um dos convidados de um passeio de lancha, que navegava no Rio Timbó, na tarde ensolarada de sábado.

Lucas conta que foi abordado por um dos convidados e sofreu a primeira injúria. "No momento em que passei para comprar bebida, ele disse: 'tu gosta de azul ou de vermelho? Eu respondi que qualquer um, sei lá, vermelho. Aí ele disse: 'mas eu não gosto de vermelho, eu gosto de azul. E tu vais ficar me contrariando, é?' Aí eu falei, não pô, tá tranquilo. Eu só quero passar, isso não importa para mim, não", contou o estudante. Depois de cerca de uma hora, o agressor voltou a atacá-lo. "Ele me estranhou e perguntou: 'O que é que tu tás fazendo aqui, boy? Tu é preto. Tu tem carro? Tu tem dinheiro pra tá aqui? Tu não merece estar aqui não, pô. Preto e pobre não pode estar nesses locais, não", descreveu.

Segundo Lucas, depois de sofrer as agressões verbais de cunho racista, ele pensou em desembarcar. "Aí eu falei: eu não vou ficar nessa lancha enquanto ele não for embora. Aí, nessa hora, a irmã dele gritou: sai mesmo, sai mesmo, pobre, sai daqui, tu não merece estar aqui não, preto!", relatou. Lucas disse que chegou a pedir ao comandante para pular da lancha, mas foi demovido dessa ideia devido ao risco de acidente com as pedras. O piloto, então, o deixou na marina, local onde aconteceriam as agressões físicas.

"Eu já cheguei no restaurante dizendo que ele queria me agredir, aí eu pensei que ele não fosse vir, porque tinha muita gente. Quando olho para trás, ele já pega e me bate. Aí meus amigos chegaram na hora, empurraram ele e me tiraram. Aí os funcionários do restaurante me esconderam pra ele não vir mais pra cima de mim", contou Lucas.

A Polícia Militar foi acionada e dois homens, de 23 e 25 anos, e uma mulher de 23 anos foram detidos em flagrante, de acordo com a Polícia Civil de Pernambuco (PCPE). Um inquérito foi aberto para apurar os crimes. Os três foram encaminhados para a Delegacia de Polícia Civil de Paulista.

"Agora  a minha sensação é de revolta e ódio contra eles. Isso só mostra que ele pensa que tem dinheiro e um poder a mais e pode fazer o que quiser. E não gostei dele por isso ou aquilo, vou então agredir ele e humilhar. É revoltante", desabafou o estudante.

Veja também

Em cadeia nacional, Queiroga defende vacinação e apela para que pessoas tomem a 2ª dose
VACINAÇÃO

Em cadeia nacional, Queiroga defende vacinação e apela para que pessoas tomem a 2ª dose

Preso na Paraíba suspeito de envolvimento na morte de Marielle Franco
Investigação

Preso na Paraíba suspeito de envolvimento na morte de Marielle Franco