Recomeço por meio da arte

Cinquenta reeducandos do Sistema Prisional produzem peças ao longo do ano. Até o dia 17, elas podem ser adquiridas na Fenearte

Filme "Anjos da Noite - Guerras de Sangue"Filme "Anjos da Noite - Guerras de Sangue" - Foto: Divulgação

O sol que nascia quadrado e anunciava mais um dia inóspito passou a representar o recomeço. As mãos que tocaram em armas são as mesmas que dão contornos delicados a esculturas e brinquedos. Os artesãos são 50 reeducandos de dez unidades do sistema penitenciário pernambucano. O trabalho deles é uma confirmação que, com oportunidade, o ser humano é capaz de mudar. A arte é produzida ao longo do ano. Segue para comercialização em lojas do Recife. Mas até o dia 17 deste mês tem espaço privilegiado no maior evento de artesanato da América Latina, a Fenearte.

No presídio de Igarassu, na RMR, onde 3.682 detentos cum­­prem pena, nove homens integram o setor. Divididos en­­tre o trabalho na marcenaria e na finalização, os reeducandos produzem brinquedos e artigos de decoração de madeira. Nas mais de 200 pessoas que passaram pelo pro­­­jeto até hoje, um fator é ob­­servado. “A convivência com homens que têm histórias de vidas semelhantes e que desejam um futuro parecido aflo­­ra a vontade de mudar de vida”, observa o supervisor do projeto, Josivan Oliveira.

Ressocialização
Em meio à superlotação dos presídios pernambucanos, 1,9 mil detentos são autorizados a trabalhar em regime fechado, segundo a Secretaria de Ressocialização (Seres). Recebem 75% de um salário em mãos. Os outros 25% são depositados em uma conta para sacar após a liberdade. Entre os benefícios de cumprir a carga horária de oito horas diárias, durante cinco dias na semana, está a mudança para um pavilhão diferenciado e a remissão de um dia na pena a cada três trabalhados.

Mas essa oportunidade de trabalhar na prisão pode ser considerada um privilégio: apenas 8% de toda a população carcerária do Estado a tem. “Hoje, 2,5 mil detentos trabalham. Infelizmente, ainda há muita resistência em contratar mão de obra carcerária”, constata o gerente de Qualificação Profissional da Seres, Carlos Cordeiro.

O supervisor de gerência de educação e qualificação profissional da Seres, Josafar Reis, defende a intensificação da atividade profissional dentro dos presídios. “São 30 mil homens recebendo três refeições diárias, além dos gastos com água e energia. Se trabalhassem, poderiam diminuir o custo do Estado”.

Professora do mestrado em Direitos Humanos da UFPE, Ana Maria de Barros destacou a dificuldade de ressocializar um detento no País. “Não há o cumprimento do acesso à educação, que é essencial à ressocialização. O sistema se torna um transgressor dos direitos, pois, no lugar de participar de discussões para que reflitam os problemas, eles são agredidos”, disse.

“Eu mudei. Não vou mais cometer erros”
Entre casinhas de bonecas inacabadas, Leandro Félix da Silva, 27, preso por associação ao tráfico, acha que a arte poderá contribuir para a convivência com a família. “Tenho uma filha de oito anos e sonho em um dia me divertir com ela com os brinquedos que fabrico. Quando sair daqui, vou mostrar a minha filha que mudei através da arte. Que não vou mais cometer erros”. Ele lembra a transformação que passou desde que começou a trabalhar dentro da prisão, em Igarassu, onde está há 2 anos e 6 meses. “Comecei a trabalhar há um ano e o meu caráter mudou completamente. Agora, quero sair daqui e fazer faculdade de Teologia. Só fico triste por não poder ver o resultado do meu esforço na Fenearte. Mas vou continuar trabalhando para poder sair daqui e um dia ver tudo”.

“Quero voltar a conviver com a minha família"
Dos dois anos e nove meses preso por tráfico no presídio de Igarassu, o paranaense Leonildo Francisco da Costa, 34, frequenta o ateliê desde 2014. “Tinha uma vida estável, uma família muito boa e trabalhava com meu pai. Cometi um erro. Mas hoje estou aqui para não errar novamente. Sei que se não tivesse tido essa oportunidade poderia voltar a errar. Pois, você se sente muito humilhado. No meio de todos os presos sempre tem aborrecimento. Quando venho para a oficina é o melhor momento do meu dia. Aqui, minha cabeça pensa em coisa boa. Lembro da minha família e espero poder voltar para o meio deles e continuar trabalhando com a arte para sempre”, comentou ele, que é pai de três filhos.

 

 

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