Redes sociais e de proteção feminina contra a agressão doméstica

Mulheres se unem na internet contra a violência, física ou psicólogica

Filme "BR 716"Filme "BR 716" - Foto: Divulgação

Luana* só descobriu que tinha vivido um relacionamento abusivo anos depois. A ajuda veio através da Internet. Relatos de abusos sofridos por outras mulheres em páginas do Facebook chamaram a atenção jovem pernambucana pela semelhança de comportamento dos homens. Hoje, com 22 anos, ela mesma utiliza as redes sociais para fortalecer o feminismo e os direitos ao corpo e à própria independência.

Seu próprio relato foi lido por muitas mulheres. O poder multiplicador das redes sociais como ferramenta importante do movimento é até atestado pela própria Maria da Penha, que dá nome à lei que busca proteger as mulheres contra a violência doméstica. "As redes sociais permitem que a mulher descubra que aquilo que ela nem acreditava ser agressão é e pode ser denunciada", afirma.

Em meio a relatos semelhantes de agressão, muitas vezes sutil, Luana* contou sua experiência no Facebook. “Meu namorado tinha trancado a porta do quarto quando eu desconfiei de uma traição. Ele queria me obrigar a ouvi-lo. Jogou a chave pela janela do apartamento. Eu ameacei me machucar para que ele abrisse a porta, nem que fosse para o Samu entrar. Cortei meu braço com uma seringa e ele sacou uma chave extra de dentro do guarda-roupa”, contou Luana. “Outras mulheres viram essa história.”

Em fan pages de coletivos feministas, os relatos são constantes e permitem um tipo de identificação que vai além do presencial. “Eu acredito que as mulheres acabam se vendo nos comentários justamente por não conheceram as pessoas por trás deles. Talvez, se fosse a mãe ou a amiga falando que o relacionamento dela poderia ser abusivo, a força diminuísse.”, comenta a vlogger Jout Jout.

Ela mesma relatou sua história no vídeo “Não tira o batom vermelho” [veja abaixo], hoje com mais de dois milhões de visualizações no YouTube. Nele, Jout Jout comenta situações corriqueiras que algumas pessoas não percebem se tratar de uma relação abusiva, como reclamar das pessoas e ditar com quem a companheira deve se relacionar ou não. Entre a repercussão do vídeo, um comentário chama atenção: “Assisti com meu namorado. Terminamos.”

 

É mais fácil enxergar o lugar do outro quando se está distante e não há laços afetivos, acreditam Jout Jout e a jornalista Fernanda Capibaribe, que tem pesquisa na área de violência contra a mulher e internet. Um exemplo é a página "Moça, seu relacionamento é abusivo", criada em 2014 pela jornalista baiana Tali Bezera. A fan page, que possui mais de 13 mil curtidas, surgiu justamente da ideia de mostrar para as amigas quais eram as situações abusivas: “Comecei com memes que vinham com a frase ‘Se ele faz tal coisa, é um relacionamento abusivo’. A partir disso, as mulheres começaram a me enviar relatos, comecei a postar e foi um pouco assustador”, conta a idealizadora Tali.

Tali acredita que hoje a página ajuda um número maior de pessoas do que a quantidade de curtidas. “As mulheres mandam relatos de que não podem curtir a página porque os companheiros monitoram as redes sociais.” A idealizadora da página também chegou à conclusão de que, antes de notar que se está vivendo uma situação de violência psicólogica, vem a negação. “A maioria dos depoimentos começa com: 'Depois de ler a página, depois de ler os relatos, percebi que já passei por situações parecidas”.

A faixa etária das mulheres que envia relatos de relacionamento abusivo para o "Moça, seu relacionamento é abusivo" varia entre 20 e 30 anos. Algumas, inclusive, acreditam que não tem mais jeito para elas, mas ficam felizes em saber que muitas podem encontrar apoio na internet: “Já recebi o depoimento de uma senhora de 60 anos dizendo que vivia há mais de 40 anos nesta situação, mas que a alegria dela era saber que outras pessoas não precisavam passar pelo que ela passou”, conta Tali.

“A internet é um ambiente que permite que a violência se torne pública, cria uma reverberação muito importante. É uma forma de denunciar e formar laços de solidariedade e a possibilidade de criar redes de apoio. Campanhas como a do Meu primeiro assédio e do Amigo secreto, por exemplo, são muito importantes “, explica a especialista em internet e violência doméstica Fernanda Capibaribe. Entretanto, para Fernanda, as redes sociais também têm um outro desafio pela frente: “As campanhas só vão ser um fator resultante nos índices quando puderem fazer mobilizações presenciais”.

A união de relatos pode gerar frutos. Na campanha "Meu primeiro assédio", por exemplo, um grupo de meninas se identificou com as denúncias contra um ex-namorado em comum. Os relatos de jogos psicológicos feitos por ele as levou à união.

Contra o agressor, que costumava inferiorizá-las, criaram um evento no Facebook chamado o “Dia em que Leandro chorou muito”, em referência a um post dele reclamando dos relatos. “Nós postamos as situações nos referindo ao relacionamento com ele. Sequer sabíamos da existência das outras. Mas a semelhança entre as postagens denunciaram que estávamos falando da mesma pessoa. Dois websites postaram um comentário dele dizendo que estávamos fazendo uma perseguição. Disso, nos conhecemos e surgiu a ideia de criar o evento”, conta Maria*.

O evento no Facebook tem data para comemorar um ano de vida. Para o evento, mais de 100 pessoas já asseguraram o comparecimento no Marco Zero, no fim de novembro.

*Nomes fictícios

Veja também

Arce assumirá as rédeas de uma Bolívia polarizada e em crise econômica
América Latina

Arce assumirá as rédeas de uma Bolívia polarizada e em crise econômica

Rússia espera registro da Sputnik V no Brasil em dezembro e produção em janeiro
Covid-19

Rússia espera registro da Sputnik V no Brasil em dezembro e produção em janeiro