Renda vs educação

Hábitos de consumo, poder aquisitivo e alimentação: o que têm a ver?

Como nos alimentamos é tema constante entre profissionais de saúde públicaComo nos alimentamos é tema constante entre profissionais de saúde pública - Foto: Da editoria de Arte

Quando se discute os fatores que influenciam os hábitos de consumo em geral (e, dentre eles, os alimentares), surge a velha questão entre renda versus educação. Os profissionais de Saúde Pública questionam o assunto à semelhança do adágio popular “quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”

Com a renda insuficiente, as famílias restringem também o consumo de produtos alimentícios básicos. A definição “linha de pobreza” já é significativa para compreender as privações a que se submetem os indivíduos assim categorizados.

Nem sempre a melhora na renda corresponde à adoção de hábitos mais saudáveis. Refiro-me ao consumo de refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote e comidas semiprontas.

Ao priorizar o consumo de produtos supérfluos (influenciado em boa parte pela propaganda) tais famílias deixam de perceber a troca injusta que fazem. É como se os alimentos regionais, base da cultura alimentar, deixassem de ter prestígio em nome de um progresso que inventa embalagens coloridas, reluzentes e atrativas para coisas com nomes importados, que logo caem no gosto popular.

É inegável a contribuição da tecnologia de alimentos, que proporciona menos perecibilidade aos produtos, entre outras vantagens. No entanto, devemos manter o foco nas escolhas saudáveis, e não nos deixarmos seduzir pelo que é prático, colorido, bonito e moderno, em detrimento do que tem importância nutricional.

Se formos ao extremo oposto da linha de pobreza, observamos distorções sérias, também. Refiro-me àqueles para quem “dinheiro não é problema” e que exageram no consumo de certos alimentos e bebidas. A substituição frequente de refeições convencionais por lanches rápidos, a irregularidade de horários, o modismo de consumir baldes de pipocas e megacopos de refrigerantes, já sinalizam esta realidade.

Nunca deveria sair de moda consumir frutas, sucos saladas, sopas, arroz, feijão, pão, ovo, carne. O que se observa, porém, é a inversão de prioridades, como se não valesse mais a pena manter a rotina e o tempo necessário à compra racional e ao preparo de refeições que correspondam ao café, almoço e jantar. É como se o estilo “fast-food” viesse substituir para sempre as panelas, o fogão, e tudo o mais que se pareça com uma cozinha doméstica.

Neste ponto já podemos retomar a discussão renda x educação, para fechar o raciocínio proposto no início: qual o limite que um razoável poder aquisitivo traria para as famílias? - talvez nenhum, já que na teoria só há ganhos na qualidade de vida se a renda aumenta.

Mas a educação contribuirá sempre (e infalivelmente) para o uso racional dos recursos. Afinal, o que direciona escolhas saudáveis está alicerçado em valores cuja aquisição é fundamentada no aprendizado. Nunca será demais o investimento que fizermos desde o berço; a sucção do leite materno é instintiva, mas é necessário o incentivo dos profissionais de saúde para o aleitamento, por parte de mulheres com novos e estressantes papéis na sociedade.

O desafio das famílias na preservação de hábitos saudáveis é enorme, quando a criança sai de casa para a escola e para todas as experiências sociais que se instalam a partir daí.

Bem, esta discussão é provocativa e parece interminável. Convém equilibrar os argumentos e dar uma direção racional ao que importa: a saúde, este bem que devemos preservar ao máximo!

 *É nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo do Programa Saúde Legal. Escreve quinzenalmente neste espaço