Entrevista

Representante do Unicef: 'Priorizar escolas não é abrir já, mas não dá para esperar controle total'

Para Florence Bauer, priorizar a retomada das aulas presenciais significa ter um planejamento de investimento financeiro na educação

Florence Bauer, nova representante do UNICEF no BrasilFlorence Bauer, nova representante do UNICEF no Brasil - Foto: UNICEF Argentina

Um dos países com o maior tempo de suspensão de aulas presenciais, mas também o terceiro do mundo em número de casos de coronavírus (mais de 4,5 milhões) e segundo em mortes (136,9 mil), o Brasil enfrenta confusão no processo de reabertura das escolas.

No momento em que as autoridades brasileiras apresentam dificuldade em definir quando e como será o retorno das aulas, a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) fizeram um alerta de que a reabertura das escolas deve ser prioridade no processo de retomada das economias.

Para Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, priorizar a retomada das aulas presenciais significa ter um planejamento de investimento financeiro na educação, reorganização escolar e proposição de ações pedagógicas para recuperar as aprendizagens.

"É fundamental que a reabertura seja feita com diálogo com toda a sociedade. A volta vai exigir um comprometimento de todos, por isso, é importante que todos, professores, alunos funcionários, se sintam seguros e saibam o seu papel para evitar o contágio dentro da escola", diz.

Pergunta - Mesmo com o número elevado de novos casos e mortes no Brasil, é o momento de iniciar a volta às aulas?
Florence Bauer - Sim, é o momento de preparar a volta às aulas pensando na situação epidemiológica de cada região, cada estado, cidade e até mesmo bairro. O Brasil é um país muito grande, não podemos esperar que a situação esteja controlada em todo o território para a reabertura das escolas.

A OMS preparou um documento com orientações sobre como fazer essa volta às aulas de acordo com a situação epidemiológica. O Brasil hoje tem esses quatro cenários diferentes acontecendo em cada local. Cidades sem nenhum caso, com casos esporádicos, com transmissão localizada e com transmissão comunitária.

Para cada uma dessas situações, há recomendações específicas a serem aplicadas para a reabertura das escolas. E mesmo onde não for possível reabrir, é importante que se iniciem as ações de preparação, garantir que as unidades tenham água potável, sabonete, ventilação nas salas.

Os professores destacam a falta de estrutura histórica das escolas como um entrave para o retorno seguro. Esses problemas precisam ser resolvidos antes da reabertura?
FB - É importante que essas questões sejam solucionadas e, mais ainda, reconhecidas. Precisamos reconhecer que as escolas públicas têm estrutura muito precária. Ainda temos unidades sem abastecimento de água.

Mas essas disparidades não vão ser resolvidas de um dia para o outro. O importante é tomar medidas realistas para que a volta às aulas aconteça o mais rápido possível. Por exemplo, se a escola não tem água encanada, é preciso providenciar uma estação para a lavagem das mãos, com um contêiner ou alguma solução nesse sentido.

É preciso pensar em medidas que podem ser tomadas rapidamente. Evidentemente, faltam recursos, mas é preciso uma organização rápida para possibilitar a volta.

Ainda com todos esses problemas estruturais das escolas, a reabertura é segura?
FB - Precisamos pensar no impacto das escolas fechadas. Apesar da tentativa de manter as atividades de forma remota, muitos alunos não conseguiram acessá-las. Há um risco muito grande de abandono escolar, aumento das disparidades.

Há o impacto óbvio na educação, mas também há consequências negativas na nutrição das crianças, do desenvolvimento social, o impacto da violência doméstica. O fechamento das escolas tem um efeito muito negativo e profundo.

O fechamento foi necessário, mas a prioridade nesse momento deve ser a de analisar a situação de cada local para preparar essa volta.

O que me preocupa é a inércia. É a sociedade se acostumar com as escolas fechadas, não estar disposta a pensar nas estratégias para a reabertura.

Avalia que houve demora no planejamento de reabertura das escolas no Brasil?
FB - É uma situação muito inédita, de muita incerteza. Por isso, o planejamento é fundamental. Na situação atual, a prioridade deve ser a reabertura das escolas, mas não que essa abertura vá ocorrer amanhã e de qualquer forma. Mas pensar em como ela se dará de forma segura.

Assim que a pandemia arrefecer, a abertura tem que ser rápida. Precisamos enxergar como uma questão de urgência colocar as crianças na escola novamente. Manter as unidades fechadas deveria ser apenas em casos extremos.

Professores e famílias devem ser ouvidos para a decisão de reabertura?
FB - O fundamental é tomar essa decisão pensando no impacto para as crianças, sempre garantindo a segurança delas. Nesse processo, o diálogo com as famílias, alunos, professores também deve acontecer de forma constante. É importante que todos se sintam seguros e saibam qual é o seu papel nesse retorno.

Todos têm que ter entendimento sobre as medidas necessárias, o respeito às regras para que a volta às aulas aconteça de fato de forma segura. Se não houver diálogo com as famílias, como esperar que os pais não mandem para a escola uma criança com sintomas de gripe? A comunicação é fundamental.

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