Coronavírus

Resistência à vacina: o impacto na imunidade coletiva e na economia

Em Pernambuco, quase 500 mil pessoas estão com a segunda dose da vacina em atraso. Especialistas alertam para a importância de completar o esquema vacinal

Foto: Arthur de Souza/ Folha de Pernambuco

Importante meio de enfrentamento contra o novo Coronavírus, a vacina mostrou-se um agente fundamental para a diminuição de casos graves e internamentos causados pela doença. Porém, em Pernambuco, quase 500 mil pessoas que estão aptas a tomarem a segunda dose, ainda não completaram o esquema vacinal. 

A cobertura vacinal completa permite a diminuição das chances de proliferação do vírus, aumenta a proteção contra a doença e permite maiores flexibilizações no Plano de Convivência das Atividades Econômicas com a Covid-19.

“Ao tomar a segunda dose, você consegue ter um complemento do seu esquema vacinal e eleva bastante, não só a proteção contra a doença, mas também a sua possibilidade de transmitir para outras pessoas, além de diminuir drasticamente duas coisas importantes: taxas de internação e mortalidade. O maior exemplo disso são as doses de reforço, que se mostram necessárias para se conseguir ter uma cobertura ainda adicional, principalmente contra as variantes vigentes no nosso meio”, explicou o médico infectologista e chefe da Triagem de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, Filipe Prohaska. 

Busca ativa nos municípios

Em Pernambuco, de acordo com o levantamento do Programa Nacional de Imunizações (PNI), preenchido por 95% dos municípios, cerca de 492.779 mil pessoas estão com a segunda dose da vacina em atraso e 52,62% encontram-se com a cobertura vacinal completa.

“Habitualmente, nas campanhas de vacinação, quando a gente começa a vacinar esse público de adulto jovem, eles fazem a primeira dose, mas demoram a retornar para a segunda. O grande problema disso é que, quanto mais tardiamente deixar para fazer a segunda dose, mas a pessoa corre o risco de adoecer, já que a vacina só garante proteção com duas doses. Nesse momento, a nossa orientação é que os municípios façam busca ativa para que a gente garanta um número maior de pessoas vacinadas”, pontuou a Superintendente de Imunizações de Pernambuco, Ana Catarina de Melo. 

Barreira de imunização

Segundo o professor e pesquisador Jones Albuquerque, do Instituto para Redução de Riscos e Desastres de Pernambuco (IRRD), a resistência à vacina pode causar uma barreira de proliferação do vírus.

“Epidemiologicamente, quando uma fração da população se recusa a ser imunizada, isso gera uma barreira de proliferação do vírus, do mesmo jeito que quando nos vacinamos, criamos uma barreira contra o vírus. Quando a gente não se vacina, cria-se uma barreira de imunização, o que é terrível, pois atrapalha completamente a tão sonhada imunidade coletiva. Por isso, é muito importante que todos estejam com os seus esquemas vacinais completos. Já fizemos isso com o sarampo, a poliomielite e o tétano. Todas essas doenças combatemos no País vacinando massivamente”, destacou o pesquisador. 

“No caso de Pernambuco, quase 500 mil pessoas não completaram o ciclo de imunização e isso significa entre 5 a 7% da população pernambucana. Para ter alguma flexibilização, como deixar de utilizar a máscara, devemos ter de 80 a 85% de vacinados. Com essas pessoas sem completar o esquema vacinal, já retardamos a flexibilização em 2 ou 3 semanas até, e isso é terrível economicamente e socialmente. A imunização só funciona se nos vacinarmos coletivamente”, acrescentou Jones. 

Resistência à vacina

Mesmo apresentando comorbidades, como a asma, a enfermeira aposentada M.J.S, de 61 anos, moradora do município de Olinda, não tomou a vacina contra a Covid-19 e explicou que tem receio de uma reação futura.

“Eu não acredito que antes de 3 a 5 anos uma vacina esteja pronta para ser adequada. Além disso, se essa vacina fosse tão eficaz, não existiria uma terceira dose. Também não sei do que ela é composta, sou muito alérgica e não posso me permitir tomar uma vacina que eu não conheça. Não vejo benefícios nela e tenho medo de me prejudicar.”

Porém, mesmo sem tomar a vacina, a aposentada continua com as medidas de prevenção contra a doença, como a utilização de máscara e álcool em gel.

“Eu me previno, porque eu creio que exista o vírus. Aqui na minha casa todos da minha família têm o costume de lavar os objetos que a gente traz dos supermercados. Temos o hábito de ter álcool na bolsa sempre e continuamos com a higiene. Eu também evito aglomerações. Além disso, não entramos em casa com a sandália da rua e lavamos as roupas que usamos.”

Ação de incentivo

No Recife, segundo a Secretária de Saúde do município, 47.009 pessoas estão com a segunda dose em atraso, o que corresponde a 5% do total de pessoas que deveriam estar com o esquema vacinal completo. Mais da metade (32.296) é formada por adultos de 18 a 59 anos. Em seguida, os trabalhadores da saúde correspondem a 2.687 dos atrasados, seguido das pessoas com comorbidades (2.037) e das pessoas entre 60 a 64 anos (1.979). 

“A gente acredita que, como a mobilidade aumentou, muitas pessoas podem ter se mudado ou terem feito as segundas doses em outros locais. Há gente que pode ter tido alguma reação, ainda que leve na primeira dose, e ficou com receio de tomar a segunda. Alguns também acreditam que só a primeira dose já é suficiente para garantir a efetividade da imunização. É uma questão multifatorial”, explicou a secretária executiva de Planejamento da Saúde do Recife, Yluska Reis. 

A secretária executiva acrescenta que algumas ações estão sendo realizadas pelo município para incentivar a vacinação. “A Prefeitura do Recife vem lançando algumas estratégias, como enviar comunicados via WhatsApp, e-mail e SMS para todas essas pessoas que estão com alguma dose em atraso. E também a gente tem feito um esforço de busca ativa de vacinação nas comunidades do Recife”. 

Economia em crescimento

O avanço da imunização contra a Covid-19 não só impacta o cenário epidemiológico, mas também o econômico. Afinal, é a partir dos indicadores da Covid-19 - possibilitada pela vacinação - que o Governo de Pernambuco vai analisando a possibilidade da retomada das atividades econômicas e planejando a reabertura gradual dos serviços e eventos.

Segundo a secretária executiva de Desenvolvimento Econômico do Estado, Ana Paula Vilaça, o cenário atual é otimista para a economia pernambucana.

“Estamos em um ambiente bastante otimista, e as atividades estão começando a funcionar em sua plenitude. Nós temos a rede hoteleira com ocupação bem significativa, os bares e restaurantes também voltando a funcionar, o setor de eventos, que recentemente foi autorizado, também voltando com o seu funcionamento e toda uma cadeia produtiva que está por trás de cada atividade dessa. Nesse momento de retomada econômica, a gente tem impulsionado também novas contratações através do Programa Emprego PE, que o estado paga R$ 550 durante seis meses, estimulando que as empresas voltem a contratar”, pontuou a secretária. 

Vilaça ressalta que, com os investimentos do Governo de Pernambuco, a economia tende a ter um avanço no próximo ano.  “Lançamos no mês de agosto o Plano de Retomada Econômica com investimentos de R$ 5 bilhões do Governo de Pernambuco, além de mais investimentos privados, capacitação, qualificação e essa questão da transformação digital, muito importante e que foi acelerada pela pandemia. Acreditamos que estamos vivendo um segundo semestre melhor e vamos viver um 2022 também com avanço."

Para o economista Rafael Ramos, a expectativa para 2022 também é positiva e pode ser o início de uma recuperação econômica. O avanço da imunização e as eleições realizadas no próximo ano a nível nacional são fatores que vão incentivar esse crescimento.

Em relação a flexibilização dos protocolos, o economista afirma que a população pernambucana teve um grande avanço em comparação com o mesmo período do ano passado.

“A vacinação trouxe uma liberdade bem maior em relação a flexibilizar grande parte desses protocolos. Hoje, mesmo com a Variante Delta estando presente, a gente não vê com tanta possibilidade a questão do fechamento das atividades econômicas, como o comércio. A vacinação, de fato, possibilitou termos protocolos de higienização em relação a Covid-19, mas muito menos impactantes economicamente, com a possibilidade de funcionamento das atividades”, finalizou Rafael.

Outubro como mês decisivo

De acordo com o secretário de saúde André Longo, outubro é um mês decisivo para o avanço da vacinação. “Até o final deste mês, já teremos oferecido as duas doses da vacina para todos os adultos acima dos 18 anos. A vacinação, mais que um direito de cada pernambucana e de cada pernambucano, é a única forma de voltarmos a viver uma vida normal, sem o risco de contaminação pelo vírus”, afirmou Longo. 

O secretário acrescentou, ainda, que todas as vacinas em uso no Brasil passaram pelas fases clínicas de pesquisa, tiveram seus dados de eficácia e segurança avaliados e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelas mais importantes agências internacionais.

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