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Debate

Reunião sobre saúde mental de presidentes na psiquiatria da USP é reagendada após polêmica

Existiram boatos de uma possível pressão para cancelar o evento, que será dia 26

Fachada da Faculdade de Medicina da USPFachada da Faculdade de Medicina da USP - Foto: Reprodução/Internet

Após a polêmica causada pelo cancelamento de uma reunião que debateria o afastamento de um presidente devido a transtorno mental, o Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP reagendou o evento para o próximo dia 26.

Inicialmente marcado para o último dia 5, o evento tinha sido suspenso na véspera sem justificativa. A decisão gerou revolta entre professores, médicos e alunos do setor, que a interpretaram como censura.

Eles diziam a chefia tinha sido pressionada a cancelar o evento porque havia o temor de que a discussão resvalasse para a saúde mental do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A reportagem apurou com quatro professores do departamento que, antes de a suspensão da reunião ser anunciada, um conselheiro do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) havia enviado um e-mail ao Hospital das Clínicas da USP questionando o tema da reunião dos médicos.

O hospital respondeu que se tratava de uma discussão genérica e teórica, e que não haveria debate sobre nenhum caso clínico específico. Ainda assim, o conselheiro insistiu que poderia ser aberta uma sindicância para apurar eventual infração ética.

Em nota, a diretoria do Cremesp negou o envio institucional da mensagem e disse que em nenhum momento houve qualquer tipo de interferência em relação à aula em questão.

"O Cremesp esclarece ainda que toda e qualquer mensagem institucional, ou seja, em nome deste conselho, é emitida oficialmente por meio de sua diretoria ou assessoria de comunicação", informou.

A reunião envolveria três psiquiatras da USP: Laís Pereira Silva, palestrante, e os debatedores Gustavo Bonini Castellana e Daniel Martins Barros. Silva faria uma revisão histórica e considerações éticas e forenses acerca do tema da saúde mental de presidentes da República.

À reportagem, os professores do departamento, que pediram para manter o anonimato, disseram que a pressão do conselho foi determinante para o cancelamento da reunião no dia 8. Eles dizem que o reagendamento só ocorreu pela repercussão negativa da suspensão dentro e fora da USP.

A reunião geral do departamento de psiquiatria acontece há anos, sempre foi aberta, trata de temas gerais e nunca discutiu casos clínicos de pacientes.

Em nota enviada à reportagem, os professores Orestes Forlenza e Eurípedes Miguel Filho, chefe e sub-chefe do departamento de psiquiatria da FMUSP, confirmaram o reagendamento da reunião para o dia 26, às 10h30, e dizem que a manutenção da atividade em sua integralidade reitera que a decisão anterior não foi pautada por censura.

Segundo eles, a suspensão teve o "objetivo de preservar a liberdade de expressão e o debate médico-científico institucional sobre tema relevante à psiquiatria contemporânea, evitando a intrusão de qualquer tipo de viés político-ideológico ou de interesses alheios à nossa missão acadêmica".

Não é a primeira vez que essa discussão da saúde mental do presidente vem à tona. Em março, o psiquiatra forense Guido Palomba tratou do tema em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo. À época, porém, Palomba foi criticado por colegas psiquiatras que viram nas colocações do médico um desserviço aos pacientes que sofrem de transtornos mentais.

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