Ricardo Brennand: o legado sobreposto ao homem

Patrono das artes, o empresário e colecionador traçou um caminho pautado no amor e pela dedicação à família e à cultura

Ricardo Brennand construiu império e deixou grandiosa herança culturalRicardo Brennand construiu império e deixou grandiosa herança cultural - Foto: Flávio Japa/Arquivo Folha

Ricardo Coimbra de Almeida Brennand. Infinitamente grande no nome e nas realizações. Perdeu a vida para o infinitamente pequeno. Na madrugada do sábado 25 de abril. Mais uma vítima da Covid-19.

Faltava pouco mais de um mês para o empresário, colecionador e mecenas completar 93 anos. Nasceu numa usina de cana-de-açúcar, a Santo Inácio. No Cabo de Santo Agostinho. Litoral Sul de Pernambuco. Em 27 de maio de 1927. Era casado, desde 1949, com Graça Maria Dourado Monteiro Brennand.

Engenheiro, industrial, empresário, colecionador, mecenas, protetor da arte e da educação. Como resumir numa só singularidade um homem tão plural? Lendo a história dos negócios que desenvolveu. Vários deles continuados nas novas gerações de sua família. Visitando o Instituto que construiu, e que é o seu maior legado.

O Instituto Ricardo Brennand, vizinho da Oficina Cerâmica Francisco Brennand (o artista, falecido há quatro meses, era seu primo). O IRB é um gigante elegante. Mais que plantado, construído na Várzea.

Criado à imagem e semelhança do seu fundador, que, como no poema ‘O Livro e a América’, parecia “talhado para as grandezas, para crescer, criar, subir”.

O Instituto foi inaugurado no dia 12 de setembro de 2002. Com mil pompas e mais do que circunstâncias. Uma mostra de fato internacional: 24 telas do pintor holandês Albert Eckhout (c.1610–1665).

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Entre os mais de cinco mil presentes à inauguração esteve ninguém menos que o príncipe herdeiro da Dinamarca. O IRB, que nasceu majestoso, não parou de crescer, ao longo dos seus quase dezoito anos.

Como resultado de suas idas e vindas entre Oriente e Ocidente, Ricardo Brennand passou a compartilhar seu viés de colecionador, despertado ainda na infância. "Ao longo de minha vida, por mais de meio século reuni, de forma apaixonada, os mais diferentes exemplares de armas brancas, produzidos por exímios artesãos", diria ele na apresentação da página oficial na internet do IRB.

No mesmo espaço em que se refere ao verso do poeta português Fernando Pessoa. A citação correta é “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Deus quis, Ricardo Brennand sonhou e fez nascer a obra: o seu Instituto.

Pensado para ser o abrigo sólido e inexpugnável da arte, desde a sua forma que habita: a imitação de um castelo medieval. O afetivo efetivo. E vice-versa.

Com um acervo que abriga arte e história desde a Idade Média até o século atual, Ricardo Brennand fez do seu Instituto um espaço "onde encontram-se guardados antigos sonhos do menino de ontem que conseguiu reunir notável acervo de peças artísticas", em um complexo arquitetônico que mantém, por exemplo, uma coleção com mais de duas dezenas de pinturas de Frans Post e o seu Brasil holandês, entre outros acervos (museológicos e bibliográficos), oficinas, cursos e atividades voltadas à preservação de patrimônios culturais.

Com a sua história grandiosa, Brennand engrandeceu também o Recife, cidade que lhe retribuiu o carinho e a dedicação de anos com título de cidadão, mais precisamente no dia 7 de maio de 2019. Realizou, àquela altura, o sonho de ser conterrâneo dos seus amigos queridos da Capital pernambucana.


Da infância de colecionador à construção do Castelo Brennand

O gosto por colecionar coisas se despertou ao ganhar, na infância, um canivete do seu tio Ricardo. Aquele pequeno regalo tornar-se-ia a peça número 1 da futura coleção de armas brancas.

De instrumento útil a peça de museu. Cresceu e se multiplicou. Com facas, espadas e outras peças. A família completa supera os três mil objetos.

À vocação de engenheiro, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) somou-se a de empresário. Embora já estivesse ativo nos negócios da família antes, foi somente em 1954 – aos 27 anos de idade – que passou a liderá-los.

Juntamente com o seu primo Cornélio comandou negócios os mais variados, ao longo das décadas. Indústrias, como as de vidro, cerâmica, porcelana, aço, azulejo... foram sendo erguidas ou compradas, modernizadas e expandidas.

Esteve à frente de usinas de açúcar e álcool, participou de empreendimentos imobiliários, e foi sócio também de um banco. Além disso, se apaixonou pelas cimentarias.

Mas tal paixão não resultou em nenhum tipo de apego incondicional. Foi graças à venda das suas fábricas de cimento que reuniu o capital transbordante. Com uma parte do negócio é que pôde erguer o IRB.

Quando entra lá, o visitante se vê diante de um mundo que parece de fantasia. Calabouços, vitrais antigos, sarcófagos, estruturas góticas e muitos outros itens típicos de um castelo autêntico.

Por essas e outras, visitar o IRB é fazer uma viagem no espaço e no tempo. Viagem confortável e prazerosa. Pela qualidade de suas instalações, coleções e exposições, o Instituto é considerado o melhor museu da América do Sul. O nome do equipamento é uma referência dupla e dúbia: ao próprio Ricardo Brennand e ao seu tio homônimo.


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