Opinião

Riscos iminentes de "gregorização"

O que imaginei deste processo eleitoral plebiscitário foi mesmo uma "guerra" de munição nuclear. Nas ocasiões em que fiz essa discreta admoestação, quis dizer sobre a carga de ataques nas mãos dos dois principais oponentes. No auge dessa campanha aguerrida, não descartei a hipótese de prováveis cadáveres, que poderiam ser tratados como verdadeiros mártires, independente do lado.

Aconteceu que, bem antes do início oficial das campanhas, os sinais emitidos pelos "guerreiros" foram suficientes para se entender o começo da barbárie. A escalada da violência foi deflagrada com inéditos ataques de cunho escatológico. Parece irreal, mas foi fato consumado em dois episódios. Apesar da excentricidade dessa munição, os atos não deixaram de revelar o prenúncio de que o acirramento do maniqueísmo explicaria o clima de guerra nuclear. Por isso mesmo, os riscos de violência com armas mais contundentes sempre me pareceu inevitável.

De fato, quando o populismo se assume na sua inteireza como geradora de fanatismos, entram em cena tiroteios, considerados todos sentidos desse termo. O episódio do assassinato de cunho politico em Foz do Iguaçu é mesmo revelador do estado de intolerância política. Ou seja, a polarização, no seu aspecto semântico, só atesta o baixo nível civilizatório e a falta de compromisso com os ideais e as instituições que dão sentido a democracia.

Foi assim, nos anos 50, com a polarização Getúlio/Lacerda, quando Gregório Fortunato, da então guarda presidencial, mandou calar o líder oposicionista, numa emboscada na rua Toneleros, em Copacabana. Nesse atentado, um marco histórico da frágil república brasileira foi registrado. Afinal, esse exemplo não só trouxe graves desdobramentos politicos, culminados com o suicídio de Vargas. Pois representou também o primeiro ensaio do fanatismo que encobre ações populistas e até autoritárias.

Hoje, observo que parcela substancial da sociedade, tem aceitado passivamente uma espécie de dependência da dopamina virtual das redes. Uma relação tóxica de redes sociais que tem servido para "fabricar" idiotas em forma de influenciadores. Impressiono-me todos os dias com manifestações intolerantes e violentas, sobretudo, originárias da extrema direita. Mesmo que o protagonismo do adversário já tenha sinalizado para o centro, há também nesse espectro, extremos remanescentes que confirmam a hipocrisia de cada polo, nos seus ímpetos por julgarem o bem x mal. O que faz do processo eleitoral um ato plebiscitário.

A conclusão disso explica a inércia das demais candidaturas, o que debilita o surgimento de outras proposições para o futuro do país. Isso visto pela institucionalidade democrática, o desenvolvimento sustentável e a melhoria na distribuição de renda.

Enfim, há uma   desproposital "retroalimentação em via dupla", real e cruel. Há um estimulo tácito para que um dependa do outro e o embate se dê sem outros protagonismos.

Em suma, dois riscos são gerados; 1) que é péssimo para a democracia brasileira, que haja um multipartidarismo de fachada, que abandona  a coerência das escolhas programáticas; 2) que a situação aponta para a "gregorização" do embate eleitoral, na possibilidade de lobos solitários surgirem para matar por suas causas.

Depois da estranha munição escatológica o fanatismo põe sob risco o sangue de quem se protege nesse maniqueísmo infrutífero. A "gregorização" pode ter tirado de tempo as excêntricas excrescências.

 

 

*Economista e colunista da Folha de Pernambuco


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