Rogéria borrou os limites das nomenclaturas restritivas

Gente que derruba paradigmas na espécie não precisa de nome e sobrenome para significar

RogériaRogéria - Foto: Divulgação

Rogéria, que morreu por problemas decorrentes de uma infecção renal, foi tão fundamental para a história da sexualidade que ela ficou conhecida por um único nome. Gente que derruba paradigmas na espécie não precisa de nome e sobrenome para significar: Freud, Mozart, Elvis, Madonna e Gisele, só para ficar em seis exemplos.

Por que ela foi relevante para a sexualidade, e não apenas para a homossexualidade ou transexualidade? Porque Rogéria, transgênero e homossexual, borrou os limites das nomenclaturas restritivas, os lugares marcados entre o quartinho dos fundos e a sala de estar. Ela se autointitulada a "travesti da família brasileira", e carregava isso como cetro e coroa: nenhuma outra travesti havia chegado tão longe no Brasil.

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Talvez até hoje não haja essa personagem que conseguiu nublar preconceitos ligados às identidades, expressões de gênero e orientações sexuais consolidados por séculos, boa parte influenciados pelos dogmas religiosos. Um outro paradoxo ligado à Rogéria: ela era cristã.

Rogéria comeu pelas beiradas e, em certo aspecto, era até conservadora. Uma senhora com pênis e seios que fazia piada dessa situação e do próprio nome de batismo, em si uma anedota: Astolfo Barroso Pinto. Rogéria começou seu plano de cativar a audiência quando foi trabalhar como Rogério, maquiador, na extinta TV Rio, em 1964. Foi lá onde desarmou corações duros e conquistou as divas de então: Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso e Fernanda Montenegro.

Rogéria focou na carreira e manteve sua vida sexual trancada em um relicário simbólico. Assim, ganhou fãs e detratores. Heterossexuais a achavam, em certo aspecto, inofensiva. Porque não se expunha em cenas eróticas com homens, não fazia escândalos, e no fim da vida era uma "vovó". Para boa parte deles, o indivíduo pode ser até ser travesti ou gay, basta não fazer cena em público.

A ala mais aguerrida da militância homossexual, por mais paradoxal que possa parecer, não a admirava exatamente por isso. Porque "fazia o jogo", não provocava rupturas. "Consegui fazer meu nome, ser respeitada, ser chamada de senhora”, dizia. O heroísmo nem sempre significa empunhar armas ou provocar o desconforto.

De novo, a velha discussão: como subtrair a força de um adversário? Batendo de frente, chamando para a briga, ou desarmando o ódio? Que opção restaria para uma travesti famosa em plena ditadura militar? A prisão. Ao que se sabe, lugar onde ela nunca pisou. Teria de ter pisado? Indiscutivelmente inteligente e amorosa, Rogéria baixou as armas inimigas com amor, por mais piegas que isso possa parecer. Talvez por isso sua morte causou tanta emoção nas redes sociais: o que ela entregava virou artigo raro em uma contemporaneidade cada vez mais bélica.

*João Luiz Vieira, 47, é jornalista com passagens pelo Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Veja, Época, Terra, Marie Claire, Quem Acontece, Top Magazine, Jornal do Commercio e Ig. Atua como educador sexual/sexólogo, é sócio do site paupraqualquerobra.com.br e do canal no YouTube: sexo_sem_medo.

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