BRASIL

Rogério Andrade usava rede de proteção de policiais, diz MP

Onze policiais civis e militares são investigados por suspeita de envolvimento com o grupo chefiado pelo bicheiro e por seu filho

Rogério de AndradeRogério de Andrade - Foto: Divulgação

Onze policiais civis e militares são citados nas investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) por suspeita de envolvimento com o grupo chefiado pelo bicheiro Rogério Andrade, e por seu filho Gustavo de Andrade Silva, o Príncipe Regente ou Zero Dois. De acordo com o MPRJ, a dupla controla uma quadrilha que explora jogos de azar no Rio de Janeiro e em outros estados.

No grupo, estão dois delegados e dois inspetores da Polícia Civil, um major, dois capitães e quatro praças da Polícia Militar. Segundo denúncia dos promotores do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), parte dos investigados é suspeita de integrar uma rede de proteção nutrida pelo recebimento e oferecimento de propinas.

Já o restante dos suspeitos trabalharia como braço armado na segurança da quadrilha e também prestando serviços na expansão dos negócios ilícitos de Rogério Andrade.

É o caso, por exemplo, do sargento da PM Márcio Araújo de Souza e do PM Daniel Rodrigues Pinheiro, ambos denunciados pelos promotores. Segundo a denúncia, Márcio seria chefe da segurança do grupo criminoso e gestor do aparato bélico e humano do grupo. Ele também é suspeito de ser o responsável por dar proteção aos pontos de jogos administrados pela quadrilha e por negociar propinas.

Uma das negociações irregulares conduzidas pelo sargento foi flagrada pelo MPRJ numa troca de mensagens. O conteúdo foi acessado com quebra de sigilo telemático autorizada pela Justiça. Em um áudio, Araújo diz a um major que Rogério Andrade pediu para comunicar um corte temporário de 50% nas verbas repassadas para os policiais do grupo do oficial.

Ele acrescenta que a diminuição da propina também atingiria policiais civis que recebiam o mesmo repasse para beneficiar a atuação da quadrilha. “Não é só aqui não, entendeu? Pessoal que joga lá no Botafogo (referência usada pelo sargento para apelidar os policiais civis) também, no campo do Botafogo também. Geral. Geral. O senhor pode até fazer uma pesquisa aí. Eu creio que é só esse mês aí, entendeu?”, diz o sargento num trecho do áudio.

Disputas de território

Além dessas atividades, o chefe da segurança da quadrilha também cuidava de questões de disputas de território. Em fevereiro de 2021, ele foi preso por suspeita de ter contratado os pistoleiros que mataram o bicheiro Fernando Iggnácio, genro de Castor de Andrade e inimigo de Rogério Andrade. O crime aconteceu em novembro de 2020, no estacionamento de um heliporto no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio.

Já o PM Daniel Rodrigues Pinheiro é apontado na investigação como chefe da segurança pessoal de Rogério e Gustavo de Andrade.

Outro militar que aparece na investigação é o PM reformado Ronnie Lessa. Ele é um dos dois presos pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Lessa é apontado na investigação do bando chefiado por Rogério como administrador de uma casa de apostas controlada pela quadrilha, que funcionava na Barra da Tijuca. Em junho de 2018, o local foi fechado e 80 máquinas caça-níqueis, apreendidas.

Segundo o MPRJ, com o aval de Rogério, Lessa pediu ao delegado Marcos Cipriano — preso na terça-feira durante a Operação Calígula — para marcar um encontro com a delegada Adriana Belém, da 16ª DP (Barra da Tijuca), unidade policial onde as maquinetas ficaram apreendidas.

De acordo com a denúncia, após a realização do encontro, que contou com a presença do inspetor Jorge Luiz Camilo Alves, braço-direito da delegada, as máquinas foram devolvidas. Elas acabaram sendo retiradas da delegacia num caminhão enviado por Lessa.

Após a liberação, Camilo teria enviado um áudio para Ronnie pedindo que o sargento providenciasse “resultados de um exame”. De acordo com o MPRJ, exame seria um código para uma cobrança feita pela devolução do material para a quadrilha do contraventor.

Na terça-feira, agentes do MPRJ cumpriram um mandado de busca e apreensão no apartamento onde a delegada mora, na Barra da Tijuca. Na ocasião, foram encontrados mais de R$ 1,7 milhão na residência.

Corte de propina na pandemia e 20 anos na escolta de chefão: Áudios revelam como atuam policiais a serviço do jogo do bicho

A delegada teve a prisão preventiva decretada, no mesmo dia, por suspeita de crime de lavagem de dinheiro. Na casa do delegado Marcos Cipriano, os agentes apreenderam, entre outras coisas, seis notebooks e mais de R$ 48 mil.

Repasse de propina

Outro policial civil suspeito de envolvimento com a quadrilha é o inspetor Vinicius de Lima Gomez. Segundo a denúncia do MPRJ, além de receber propina do bando de Rogério, o policial também repassaria parte do dinheiro sujo para outros integrantes da Polícia Civil. Na terça-feira, a Justiça determinou que o inspetor fosse afastado de suas funções e que passasse a usar uma tornozeleira eletrônica. A decisão estipulou prazo de cinco dias para que o policial passasse a usar o equipamento eletrônico.

Além do major, flagrado na troca de mensagens com o chefe da segurança do bicheiro, dois capitães e um praça também foram alvo de mandados de busca e apreensão, por suspeita de ligação com o bando.

Segundo a PM, um procedimento foi instaurado pela Corregedoria para acompanhar as circunstâncias do caso. A PM frisou ainda que “o comando da corporação não tolera desvios de conduta e que pune com rigor os envolvidos identificados, constatadas as possíveis transgressões”.

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