Samba resiste na terra do frevo e do maracatu

Escolas do Recife entram na reta final para o desfile em busca de diversão e também do reconhecimento de seu trabalho

Na Gigante do Samba, tudo está sendo preparado para mais um desfile suntuoso.  Apesar de ostentar o título de decacampeã, a agremiação reclama da falta de apoioNa Gigante do Samba, tudo está sendo preparado para mais um desfile suntuoso. Apesar de ostentar o título de decacampeã, a agremiação reclama da falta de apoio - Foto: Brenda Alcântara

As escolas de samba resistem bravamente para mostrar que, mesmo na terra do frevo e do maracatu, têm força para atravessar a avenida e levantar os pernambucanos na arquibancada. No Recife, as agremiações, ainda que longe do glamour das congêneres cariocas e paulistas, colecionam histórias ricas de quem cresceu com a força das comunidades que representam, em grande parte, na periferia. Essas histórias podem não ser contadas sempre nos enredos dos desfiles, mas fazem parte da vida de cada participante que entra na avenida. A união do povo pela música cria a magia que explode nos dias de Carnaval.

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“As escolas de samba foram trazidas do Rio de Janeiro para cá por homens da Marinha de Guerra”, conta o historiador e pesquisador Leonardo Dantas Silva. “Foram eles que colocaram a chamada ‘batucada na rua’ nos anos 40 e, com isso, mesmo já havendo escola de samba aqui, elas ganharam mais força”, diz. Mas, por ser uma manifestação mais característica da região Sudeste, o samba acabou não se firmando aqui como naquela região, afirma o historiador.

“Aqui a cultura é diferente, é o mesmo ritmo, mas não é o mesmo ambiente. Falta cultura e falta dinheiro”, diz o pesquisador, apontando ainda que o patrocínio maior sempre vem de fora do governo. E sem a contribuição da população, não há como bancar os grandes desfiles. “Não dá para concorrer com o nosso maracatu e as agremiações de frevo, seria muito díspar”, concluiu Leonardo Dantas.
Enquanto lutam pelo reconhecimento, as escolas de samba pernambucanas continuam sua batalha pela renovação, novidade e tradição. Cada qual a seu modo e representando, ao mesmo tempo, o passado, o presente e o futuro.

Do Alto e para cima
De escola aspirante ao grupo de acesso em 2016, no Grupo 1 em 2017 e, enfim, no Grupo Especial no Carnaval de 2018, numa sequência memorável de campeonatos e ascendência, a história do Grêmio Recreativo Escola de Samba (G.R.E.S.) Pérola do Samba, fundado em 2015, é também um exemplo de como funciona a competição em Pernambuco, onde as agremiações se dividem em grupos que crescem em hierarquia, em um modelo parecido com o da festa no Rio de Janeiro e São Paulo.

A escola do Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife, ensaia semanalmente. A bateria pulsa no coração da comunidade. “Uma escola tem que ter projetos sociais, tem que ter atividades para se agregar ao lugar onde está”, explica Rafael Nunes, fundador e presidente da Pérola. “Temos uma escola de percussão para os adolescentes daqui. Depois que eles se profissionalizam, vêm para a bateria da escola”, conta. A Pérola se formou no bairro para reforçar a escolinha, que ensinava os batuques, mas não com a importância de defender um desfile oficial.

A intenção era boa: fazer com que o bairro, cheio de afoxés, maracatus e quadrilhas, pudesse defender o samba também. Mas acabou sendo uma “brincadeira cara”, como diz Rafael. São, desta vez, 1.100 componentes, cinco alegorias e muitos ensaios. Segundo a Pérola, cerca de R$ 80 mil foram investidos no desfile, boa parte vinda de fundos particulares: amigos, empresários e até do bolso do presidente. Os participantes bancam suas próprias fantasias.

Jane Tentação foi escolhida como rainha da Pérola. A mais “antiga” delas, segundo a própria, que tem 45 anos e participa da bateria formada por 100 ritmistas. Ela foi a primeira a sambar pela escola. Participa desde que tudo era apenas um nome e uma ideia. “Estamosaqui depois de muitas noites sem dormir, muito trabalho e muita corrida atrás de patrocínio.” A escola também se vê no dever de fazer o Alto José do Pinho acreditar no que faz. Este ano, com o comando do carnavalesco Sérgio Souza, a escola trará uma ala especial com cadeirantes e pessoas com síndrome de down, e um enredo que falará sobre intolerância religiosa e ancestralidade africana.

A dificuldade maior em colocar tudo isso na avenida? Investimento. “A gente vem fazendo o nosso trabalho e esperando que as escolas que estão paradas voltem, porque quanto mais escolas, mais forte fica o nosso Carnaval”, torce o pre­sidente da Pérola do Samba, que já convive com a lacuna aberta pela falta de meios para colocar todas as escolas na rua. Tudo isso por falta de investimento, con­fessou. Falta apoio oficial, faltam pessoas apostando nas escolas e querendo participar do samba na terra da sombrinha de frevo, diz.

O reinado Gigante
Quando se fala hoje de escolas de samba recifenses, um nome faz sombra às demais. Uma verdadeira Gigante, que ostenta o título de decacampeã e pisa com os pés de cerca de 2 mil pessoas na avenida. Fundada em 1942, a G.R.E.S. Gigante do Samba gastará este ano cerca de R$ 250 mil para desfilar no Grupo Especial. Sediada na Bomba do Hemetério, Zona Norte do Recife, a escola, com seus 120 ritmistas, 55 baianas, 19 alas, 5 alegorias e 2 tripés, seguirá os batuques do enredo que fala de orixás femininas e homenageia as guerreiras do candomblé.

Apesar de ter conseguido reunir o necessário para mais um luxuoso desfile, a Gigante do Samba ainda reclama da falta de espaço para o samba pernambucano. “Em São Paulo e no Rio, o que você sonha, você tem. Aqui, temos que mandar buscar, o mercado não é tão fácil. É como tirar leite de pedra”, compara o carnavalesco da Gigante, Paulo Silva, que já participou do Carnaval paulista em grandes escolas.

“Mas dizer que o samba não é coisa de Pernambuco é invenção. Quando a gente faz um show no Marco Zero, todo mundo canta e dança. O samba tem força, as pessoas gostam”, defende a vice-presidente da escola, Marize Félix. Para ela, as escolas sobrevivem graças a um esforço constante daqueles que estão envolvidos nas agremiações. “Gigante sobrevive porque fazemos questão de ensinar as pessoas que existe samba de qualidade no Estado, e tem tanta força quanto qualquer outra cultura”, conta. “Eu sei que o frevo é importantíssimo, mas o samba veio primeiro.”
A escola reúne as pessoas por amor à causa. “Foguetinho”, há duas décadas envolvida pela Gigante, tem 90 anos de vida. “Primeiro Deus, depois a minha escola”, bate no peito a dona Odília Benedita. Ela ajuda na montagem das fantasias e das alegorias desde que chegou à agremiação e desfila todos os anos. “Dizem que a baiana mais fogosa da ala sou eu, que me apresento e me sacudo”, ri, mas com certa preocupação pelo atraso dos preparativos para os desfiles deste ano.

O dinheiro necessário para um suntuoso desfile já foi arrecadado. Mas a Gigante ainda sente a falta de apoio oficial. “A gente recebe da Prefeitura R$ 16.600, divididos em duas vezes”, reclama o coordenador de Carnaval da escola. De acordo com a PCR, as agremiações que se encontram no Grupo Especial recebem R$ 16.600 (R$ 8.300 antes e R$ 8.300 depois do Carnaval). Sobre as queixas, ela lembra que a verba é uma ajuda de custo, não um financiamento.

Para enfrentar as despesas, a escola promove festas, bingos e ainda participa, como campeã, de shows promovidos pela PCR. A Gigante ainda investe em projetos sociais, como aulas de dança, música e cidadania para as crianças da comunidade. Tudo para não perder de vista a tradição que arrasta milhares de foliões à passarela todos os anos - e também ao topo do pódio, já há uma década.

O batuque de um homem só
“Dizem que aqui em Pernambuco não é lugar de escola de samba, é lugar de frevo, maracatu, caboclinho, bumba-meu-boi. Dizem que a gente não faz parte do Carnaval de Pernambuco”, comenta Berilo José Soares, que já viu 75 carnavais. Ele comanda também a Escola de Samba Crianças e Adolescentes da Imbiribeira, o bloco do Boneco Sapateiro (criado em sua homenagem) e uma das mais tradicionais escolas de samba de Pernambuco, a G.R.E.S Estudantes de São José.

Fundada em 1959, a Estudantes tem um nome respeitável: já foi uma das maiores escolas do Recife, ouviu seus sambas-enredo cantados por celebridades, desfilou com orgulho suas cores vermelho e branco. Hoje, ela não tem mais uma sede e funciona na casa de “seu” Berilo. Não tem patrocínio algum e sobrevive com o que o atual presidente-carnavalesco-diretor consegue arranjar, estocando tudo na própria residência, onde só não há peças de Carnaval no banheiro e na cozinha.
Dinheiro, também, definitivamente, não há. “Como se vai colocar uma escola de samba com 500 pessoas com R$ 8.300?”, questiona seu Berilo. A gente tem que ter transporte no dia do Carnaval, fora as alegorias para levar. Tudo é difícil e a gente só sabe que sai quando já estiver na avenida”, conta, com pesar, o presidente. Ele se alegra quando relembra os grandes desfiles que já viu acontecer. “A escola já teve sete campeonatos encarrilhados, um atrás do outro. Era a escola de samba mais luxuosa que tinha em Pernambuco”, lembra. “A gente já mandou vir cantor de fora para sair com ela e hoje em dia estamos aqui, num lugar desses”, conta, referindo-se ao local onde vive, na Imbiribeira, Zona Sul, bem longe de onde a escola começou, no bairro de São José, no Centro do Recife. Ela parou ali por pura teimosia de seu Berilo que, em 2016, resolveu pegar o estandarte e levar para casa, a fim de não deixar sumir a história da escola onde saiu por 56 anos.
“Pode ser até que a gente acabe com a escola Estudantes de São José, porque não tem ninguém para assumir, mas eu não queria que ela acabasse por baixo”, diz. O carnavalesco conta com poucos amigos para garantir a confecção, uma a uma, das peças de roupa dos 500 participantes que espera colocar na avenida este ano. São 500 fantasias porque, no Grupo Especial, o mínimo exigido é de 450 pessoas. “Eu queria que viesse um título de campeã, ou pelo menos o segundo lugar na Especial, porque assim sairia por cima.”
Ele entende que parte das dificuldades que enfrenta hoje veio da dispersão dos antigos integrantes. Mortes na diretoria, mudanças de sede, vivência em lugares onde a comunidade não os reconhecia. A falta de uma sede e a inconstância esfarelou aos poucos o brilho da agremiação. “Antigamente a gente tinha ajuda do comércio, das firmas. Hoje, a gente tem ajuda de canto nenhum, é muito difícil pedir e receber”. Mas o Carnaval é o que ainda o motiva. “A Estudantes e o Carnaval não me deixam parar. Daqui eu só paro quando morrer”, conclui.


 

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