Saúde bucal em crise nas USFs

Diversas unidades de saúde estão com atendimento odontológico precário por falta de produtos básicos, como luvas e algodão

Presidente do Sindicato dos Odontologistas de PE, Ailton CoelhoPresidente do Sindicato dos Odontologistas de PE, Ailton Coelho - Foto: Divulgação

Falta de insumos e déficit de dentistas. Esse é o retrato da saúde bucal na atenção básica do Recife, segundo o Sindicato dos Odontologistas do Estado. A instituição de classe mapeou a presença de profissionais no SUS da Capital e apontou que cerca de 70% da população não pode contar com a assistência desses profissionais, gerando uma demanda reprimida grande.

Na razão entre pacientes e dentistas, não raros são os casos em que apenas um profissional é responsável por mais de seis mil usuários. Ainda há situações em que mesmo com profissionais nos postos, o atendimento não tem acontecido nas últimas semanas porque faltam materiais básicos para os procedimentos, como luvas e algodão.

Entre os postos identificados com falta de materiais para procedimentos em odontologia estão a Unidade de Saúde da Família (USF) Parque dos Milagres, que está com agendamento suspenso, só atendendo urgências, a USF Maria Rita, do Córrego do Euclides, que está sem atendimento há dois meses por falta de luvas, a USF Guabiraba, onde só pacientes com dor estão sendo recebidos, e a USF Alto do Capitão, que só deve ser procurada em casos de emergência.

“Isso não é coisa de agora. Desde 2015 sempre recebemos reinvindicações dos profissionais sobre a falta de insumos. E por isso não tem sido dado à população o atendimento que ela merece”, disse o presidente do sindicato, Ailton Coelho.

Para ele, essas deficiências demonstram que a saúde bucal pode estar sendo tratada com menos importância que outras áreas. “Não existe saúde se não for completa”, destacou, exemplificando que uma infecção em um dente, por exemplo, pode provocar doenças cardíacas graves a até a morte.

Ailton Coelho lamentou ainda que não haja equiparação entre o numero de equipes médicas com equipes de saúde bucal dentro dos territórios. O grande número de pacientes nos bairros sobrecarrega os profissionais e dificulta o acesso de quem busca um dentista. Segundo Coelho, a recomendação da Organização Mundial de Saúde é de que haja pelo menos um dentista para cada grupo de 1,5 mil pessoas.

Já o Ministério da Saúde preconiza uma razão de um para dois mil. No bairro da Macaxeira, Zona Norte do Recife, encontramos um exemplo clássico das dificuldades da saúde bucal no SUS. São três equipes médicas e duas de odontologia para atender uma população de cerca de 20 mil pessoas no bairro.

Além do pequeno número de dentistas, até as duas últimas semanas não estavam sendo feitos procedimentos porque não havia luvas. Uma caixa foi conseguida por doação e outras duas chegaram da Prefeitura anteontem. Mesmo assim, novos atendimentos não serão marcados em julho, porque não há mais vagas.

“Para conseguir uma ficha a gente tem que chegar à meia-noite e dormir aqui. Mesmo assim, pode não conseguir. Esse foi meu caso. Estava tentando o tratamento de canal, mas acabei perdendo o dente”, contou a dona de casa Erika Silva, 23. “Conseguir dentista aqui é sorte. Agora nem marcando está mais”, reclamou a atendente Stefanni Daiana, 22. Em média, cada profissional só consegue atender 20 pessoas por dia, quando tudo está em perfeita ordem no posto.

Soluções

A gerência geral de Assistência Farmacêutica do Recife informa que adquiriu de forma emergencial luvas e outros materiais para a saúde bucal e que já está restabelecendo o fornecimento desses equipamentos de proteção individual (EPI) às farmácias distritais, que abastecem as USF.

A gerência espera que nos próximos 15 dias a situação esteja regularizada. Sobre a cobertura de saúde bucal na cidade, a gestão confirma uma cobertura de 31%. A Secretaria de Saúde ainda informou que está comprometida com a odontologia e implantou 28 Equipes de Saúde Bucal no período de 2013 até o mês atual de 2017. E prevê mais ampliações na Programação Anual de Saúde.

Hoje são quase 170 equipes. Ainda foram nomeados, nos últimos quatro anos, 150 profissionais da área. Um novo concurso está em estudo. A pasta ressaltou que no mês de julho, em decorrência das férias, também aumenta a demanda pelo serviço.

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