Saúde

Silencioso e o segundo mais prevalente entre homens no Brasil: conheça o câncer de próstata

O médico urologista Leônidas Nogueira, do Hospital de Câncer de Pernambuco, explica sobre a doença

Para vencer câncer de próstata, homens precisam vencer também o preconceitoPara vencer câncer de próstata, homens precisam vencer também o preconceito - Foto: Marcio James/Semcom

O câncer de próstata é o segundo mais prevalente entre os homens no Brasil, ficando atrás somente do câncer de pele não-melanoma, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). A última estimativa divulgada pela entidade, realizada em 2020, aponta que 65.840 homens serão acometidos pela doença urológica anualmente, até 2022, em todo o País. Esse tipo de câncer é também o segundo na lista dos que mais matam no Brasil, com 15.983 óbitos em 2019, de acordo com o Ministério da Saúde.

Segundo especialistas, trata-se de uma doença silenciosa, que acomete a população masculina a partir dos 45 anos e que ainda atravessa barreiras do preconceito e da desinformação no que diz respeito à identificação precoce e ao tratamento adequado.

Mas, afinal, o que é o câncer de próstata? Como ele é identificado? Qual é o tratamento? Como se prevenir?

Para responder a essas e outras perguntas, a reportagem da Folha de Pernambuco entrevistou o médico urologista Leônidas Nogueira, do Hospital de Câncer de Pernambuco, que compartilhou as informações necessárias para alertar a população e combater estigmas da doença.

O que é o câncer de próstata?

Leônidas Nogueira - O câncer de próstata se caracteriza por uma proliferação atípica e desordenada de células no tecido glandular. Isso acontece com o passar da nossa idade. Esse processo vai sendo favorecido pelo envelhecimento das nossas células e pela predisposição genética. São anormalidades que nós temos em nossos genes que podem ser transmitidas por gerações, dos nossos pais para nós, ou através de mutações novas. Ou seja, são alterações no DNA das células que vão acontecendo ao longo da vida. Isso faz com que a célula se deforme e comece a proliferar de uma forma errada, levando à formação do câncer.

Além da predisposição genética, quais outros fatores podem contribuir com o câncer de próstata?

L.N.- Quanto mais velho, maior a incidência tanto da hiperplasia benigna quanto do câncer de próstata propriamente dito. Esses são os principais fatores de risco, que, por sinal, são inevitáveis. Não temos como nos livrarmos da nossa carga genética e nem temos como nos livrarmos de ficar velhos. Entretanto também há outros fatores que estão associados, como, por exemplo, a alta ingestão de proteína e gordura animal. Não que seja proibido ou que seja desaconselhável um churrasco no fim se semana, mas devemos diminuir ao máximo o consumo de gordura e de proteína animal, carne vermelha propriamente dita. A gente sabe (especialistas) que as populações que consomem grande quantidade de proteína animal têm a incidência do câncer de próstata um pouco maior que a população em geral.

A doença apresenta sinais ou sintomas que podem ajudar na sua identificação?

L.N.- Os sintomas do câncer de próstata são indistinguíveis dos sintomas da hiperplasia prostática benigna, inclusive, as duas doenças comumente coexistem. Ou seja, o paciente tem o aumento benigno da próstata associado ao câncer. Mas não existe um sintoma específico para o câncer de próstata.

Os sintomas da hiperplasia prostática são os sintomas urinários obstrutivos. Ou seja, o fato de o paciente urinar apertado, urinar sem jato, fazer força para urinar, além dos sintomas urinários irritativos, como ardência, acordar muitas vezes à noite para urinar ou urinar de instante em instante.

Também há os sintomas urinários de armazenamento, que é a dificuldade de conter a urina. Mas nenhum desses sintomas é específico para o câncer de próstata. Esses sintomas coexistem com a hiperplasia prostática benigna e com outras doenças associadas, como, por exemplo, a diabetes, um estenose de uretra, que é o estreitamento da uretra, infecções e outros sintomas metabólicos. 

O câncer de próstata, em geral, é uma doença silenciosa. Quando ele chega na fase de apresentar sintomas associados à hiperplasia benigna, já é uma fase tardia, e o diagnóstico nessa fase vai dificultar muito o tratamento porque as opções terapêuticas vão ficar mais restritas. Uma vez que não existe um sintoma específico, há a necessidade de o homem fazer os exames seriados.


Quais são os exames que podem identificar o câncer de próstata?

L.N.- Para fechar o diagnóstico, é necessário que o paciente faça uma biópsia da próstata. Essa biópsia deve ser feita guiada por ultrassom e pode ser realizada tanto pelo reto, quanto pelo períneo, que é a região entre o reto e a bolsa escrotal. Mas esse exame só é feito se o médico tiver uma suspeita de que a doença está lá.

A princípio, deve ser feito o exame do toque retal e o PSA, que é o exame de sangue que, quando alterado, pode levar à suspeita da existência da doença. A partir daí, pode ser solicitada uma ressonância nuclear magnética para tentar identificar o local mais provável da existência do câncer e isso levaria a indicar uma biópsia da próstata. Essa última, sim, é essencial para fecharmos o diagnóstico e iniciarmos o tratamento. O paciente diagnosticado numa fase inicial tem uma chance de cura que varia de 80% a 90%.

Médico urologista Leônidas Nogueira, do Hospital de Câncer de PernambucoMédico urologista Leônidas Nogueira. Foto: Divulgação


O preconceito e a falta de informação ainda são aliados da proliferação do câncer de próstata?

L.N.- A gente tem percebido que os estigmas ao exame de toque têm diminuído, mas ainda existe uma parcela da população masculina, principalmente pessoas de gerações anteriores e as que têm menos acesso à informação, com preconceito. Entretanto isso tem diminuído por várias razões. Tanto pelas campanhas realizadas pela Sociedade Brasileira de Urologia e sociedades médicas como pela imprensa.

A população está envelhecendo e muitos homens vêem seus amigos e familiares adoecerem com o câncer de próstata. Isso faz com que eles tenham medo. Mesmo com a resistência e preconceito, eles têm procurado realizar cada vez mais os exames preventivos.

Após a identificação do câncer de próstata, qual é o tratamento?

L.N.- Existem várias formas de tratar. Tem a cirurgia da retirada da próstata, que só é feita para o paciente que tem o câncer da próstata. Essa cirurgia pode ser realizada por via convencional aberta (onde o cirurgião faz uma única incisão para remover a próstata e os tecidos), ou via laparoscopia, que é a dos furinhos na barriga (incisões pequenas que removem a próstata).

Após a cirurgia, o toque não é mais necessário. É repetido apenas o exame de PSA, que deve ser feito trimestralmente até o primeiro ano pós-cirúrgico, e semestralmente até o terceiro ano. A partir daí, o exame deve ser realizado anualmente. Mas cada situação tem a sua peculiaridade. Havendo um tumor de alto grau, encurtamos esses períodos.

Para os pacientes que não desejam a cirurgia por razões das mais diversas ou em condições não ideais, como em casos de obesidade e doenças cardíacas, nós realizamos a radioterapia, que precisa de aproximadamente 40 sessões.  

Há ainda a vigilância ativa, que não é um tratamento para a remoção da próstata, nem a radioterapia, mas é quando o paciente tem um tumor de baixo grau e há um acompanhamento e avaliação de exames de PSA e toque semestral, além de biópsia a ser repetida anualmente. 

A partir de que idade o homem deve fazer o PSA?

L.N.- A Sociedade Brasileira de Urologia aponta que os homens devem realizar o exame de PSA a partir dos 45 anos. Particularmente, eu acho que deve ser feito pelo menos um exame PSA a partir dos 40 anos para aqueles pacientes que têm um risco maior, como os que possuem parentes de primeiro grau com a doença. Mas, via de regra, o exame é realizado dos 45 aos 70 anos, ou até mais.

Em relação ao exame do toque, antigamente nós, médicos, éramos mais rigorosos, mas hoje em dia a gente não realiza mais o exame de rotina anualmente. Os pacientes que apresentarem níveis de PSA considerados seguros poderão espaçar mais o tempo de realização do exame de toque, de acordo com o que for avaliado pelo médico.

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