Só sabe o que é a velhice quem passa por ela

Decisão do Conselho Superior de Transporte Metropolitano de reduzir a quantidade de assentos prioritários para idosos nos ônibus é no mínimo polêmica

Patrícia RaposoPatrícia Raposo - Foto: André Nery/Folha de Pernambuco

Só sabe o que é a velhice quem passa por ela. A decisão do Conselho Superior de Transporte Metropolitano de reduzir a quantidade de assentos prioritários para idosos nos ônibus é no mínimo polêmica.

Curiosamente, a medida parece ter obtido apoio de alguns passageiros. Em nossas redes socais, li comentários surpreendentes contra o direito dos idosos. Coisas do tipo: “E quem paga tem que ir em pé, é? ”... Talvez esse aí dispute com a própria mãe o banco do ônibus.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (JBGE), o Brasil já soma 207 milhões de habitantes e, desse total, 26 milhões são idosos. Foi um crescimento de 8,5 milhões de indivíduos em menos de uma década. O órgão estima que em 2027 serão 37 milhões de pessoas com mais de 60 anos. E, em 2030, a população de cabeça prateada corresponderá a 19% da população. Esse crescimento está relacionado com a queda na taxa de fecundidade. O Brasil foi um dos países que derrubou mais rapidamente suas taxas. Na década de 80, a média de filhos era de 4. Hoje gira em 1.7.

Neste aspecto, temos um padrão de país desenvolvido. Mas fica só nisso. Porque uma nação de primeiro mundo não trata sua população idosa como tratamos a nossa. A redução dos assentos é só um aspecto da ausência de políticas públicas voltadas aos mais velhos. Porque se tivéssemos uma sociedade educada, nem de assento prioritário precisaríamos. Mas, carentes de educação, criamos os assentos e no final desrespeitamos seu uso. O envelhecimento populacional é um desafio para o Brasil, que vai se tornar velho antes de ficar rico ou socialmente equilibrado.

Em 2015, o relatório Global AgeWatch Index, coordenado pela HelpAge International, organização que se dedica a melhorar a vida de pessoas na terceira idade, avaliou os melhores lugares para os mais velhos viverem. Entre 96 nações, posicionou o Brasil no 56º lugar.

A pesquisa mostrou que, se por um lado o governo brasileiro mantém um programa de previdência que atende a 86% dos seus idosos e tira grande parte desta população da linha da pobreza, por outro, carece de falta de acesso a serviços básicos como transporte e segurança, comprometendo a qualidade de vida da terceira idade. O levantamento considerou quatro categorias que afetam aqueles com mais de 60 anos: segurança de renda, saúde, características de um ambiente propício para a idade e condições de emprego e de educação. Em primeiro lugar no ranking, está a Suíça, seguida pela Noruega, Suécia e Alemanha.

Um dos autores do levantamento, o professor de políticas sociais internacionais da Universidade de Southampton, Asgar Zaidi, disse que “o Brasil não é tão bom em fornecer um ambiente propício para o envelhecimento”. Segundo ele, o medo da violência e o acesso ao transporte público são grandes questões para os idosos brasileiros. Nossos governantes deveriam ler o relatório.

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