Vida em Sociedade

Solidariedade: a neurociência e a sociologia ajudam a explicar o amor ao próximo

Especialistas explicam o que motiva alguém a ajudar as pessoas ao redor

Instituto Vizinhos Solidários realiza ações sociais na Região Metropolitana do RecifeInstituto Vizinhos Solidários realiza ações sociais na Região Metropolitana do Recife - Foto: Melissa Fernandes/Folha Pernambuco

Há uma máxima famosa que diz que “nenhum homem é uma ilha”. A frase, ora atribuída ao filósofo inglês Thomas Morus, ora ao poeta John Donne, contemporâneo de Shakespeare e Cervantes, reflete bem uma questão: os seres humanos são seres sociais, acostumados, portanto, a viver em convívio.

Nessa perspectiva e sob a lógica do “com viver”, podemos transformar a afirmação relacionada à necessidade de convivência em um questionamento: como viver em sociedade sem estar atento aos problemas do outro?

Talvez, como explica a neurocientista Viviane dos Santos, coordenadora da Liga de Neurociências da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), seja essa noção de grupo e de pertencimento que faça despertar o lado solidário de cada um de nós.

“Nós somos seres sociais, ou seja, a gente vive em comunidade, a gente vive em grupo. Não somos animais que vivem sozinhos, nós necessitamos de grupos para poder sobreviver. E tem uma coisa que a gente chama que é cérebro social, que são justamente várias áreas que estão espalhadas pelo cérebro e que funcionam para adequar o nosso comportamento social. E dentro dessa área de adaptação social a gente tem áreas específicas da empatia, que é fundamental para nossa espécie sobreviver. Porque se eu não sentir empatia, eu não vou cuidar do outro, do meu grupo. E aí também ninguém vai cuidar de mim”, analisou.

Em meio às fortes chuvas que atingiram a Região Metropolitana do Recife nos últimos dias, muitas pessoas e instituições voltaram seus esforços para ajudar a população afetada pelos temporais. É o caso do Instituto Vizinhos Solidários, fruto de um projeto que nasceu em 2020, durante o início da pandemia da Covid-19, justamente porque a empreendedora social Eduarda Fernandes e a estudante de nutrição Mayara Amaral não ficaram alheias às pessoas ao redor. 

Elas se reuniram com vizinhos do bairro de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, e passaram a produzir marmitas para serem distribuídas diariamente entre as comunidades próximas. Hoje, o grupo conta com novos serviços, incluindo capacitações e um mercadinho solidário, onde as pessoas cadastradas podem, semanalmente, escolher os itens que lhes são mais essenciais. Moradores das palafitas localizadas na Bacia do Pina, que ainda sofrem com as consequências do incêndio que atingiu a região no início do mês, estão entre as pessoas assistidas pela ação.

Maria Eduarda FernandesMaria Eduarda Fernande, presidente do Instituto Vizinhos Solidários - Foto: Melissa Fernandes/Folha Pernambuco

“A gente fica muito feliz porque a gente está dando o essencial. Porque, veja, você com fome não consegue produzir, não consegue pensar em nada. E com o mercadinho a gente consegue dar a eles a dignidade de escolher o que precisa”, comentou Eduarda, fundadora e presidente do Instituto.

“Eu me encontrei. Às vezes, a gente leva uma vida sem se encontrar e não me vejo sem isso em nossas vidas. Nossa vida só faz sentido quando damos sentido à vida do outro. Não podemos mudar o mundo inteiro, mas podemos mudar o mundo ao nosso redor”, completou.

Para Mayra, cofundadora do Vizinhos Solidários, os resultados da ação trazem orgulho e esperança. “Eu penso nisso sempre, no que a gente consegue alcançar. O que me motivou a ser solidária foi ver a necessidade do outro. Me sinto feliz e realizada, especialmente por poder ajudar em algo emergencial, que é a fome, e por ensinar [por meio dos cursos] a ter outras opções, para gerar renda e não precisar mais depender de tudo. Fico feliz por proporcionar oportunidade”, comentou.

Mayara Amaral é cofundadora do Vizinhos Solidários - Foto: Melisssa Fernandes/Folha de Pernambuco

A dona de casa Débora Melo, de 36 anos, encontra no espaço uma forma de garantir a alimentação para os cinco filhos.

“Sou muito grata, que Deus abençoe sempre essas pessoas que se propõem a nos dar essa oportunidade de receber uma ajuda. E ajuda muito, porque eu não posso trabalhar porque tenho que tomar conta deles. Moro sozinha com eles em um vãozinho pequenininho, que não tem aquela estrutura, e eu fico feliz de saber que tem alguém aqui que possa contribuir”, contou.

Débora Melo_2Débora Melo, dona de casa - Foto: Melissa Fernandes/Folha Pernambuco

Leandro da Silva, 40, chegou ao instituto como voluntário com o objetivo de ocupar o tempo para não ir em busca de bebida alcoólica e hoje atua como funcionário da organização, visitando as pessoas das comunidades e distribuindo as marmitas que diariamente são doadas em diversas regiões do Recife e de cidades vizinhas.

“Eu me sinto bem para caramba, sinto a maior satisfação que chega a dar aquele arrepio. Me deram a oportunidade, me encaixei e me empenhei, e foi melhora da água para o vinho.Todos os dias eu me acordo e lembro que estou ajudando o próximo, isso é muito gratificante”, comentou. 

Leandro da Silva se tornou funcionário do instituto - Foto: Melissa Fernandes/Folha Pernambuco

Como destaca Viviane Santos, também coordenadora da especialização em Neurociências, Música e Inclusão da UFPE, diferentes partes do cérebro são acionadas quando pensamos em ajudar alguém.

“São áreas que a gente tem relacionadas à empatia, por exemplo, no nosso lobo frontal, que fica na região da testa. A empatia também está ligada a neurotransmissores, como a serotonina, que dá bem estar, ou a ocitocina, que dá essa vontade de vínculo. Mas isso também é um aprendizado, a gente não nasce querendo ajudar o outro, a gente aprende. A cultura onde eu estou inserido vai me ensinar quais são os meus valores”, falou. 

Viviane Santos, neurocientista da UFPE - Foto: Divulgação

“Agora, se a gente for pensar no ponto de vista puramente do cérebro, a gente tem esse cérebro social e vive coletivamente, então existe um prazer quando a gente faz o bem. Quando a gente faz algo que a gente percebe que fez algo de bom para outra pessoa, a gente sente um bem-estar por estar ajudando. Esse bem-estar está ligado àqueles neurotransmissores. Quando eu me sinto satisfeita por ter ajudado uma pessoa, eu gero dopamina em mim, sinto prazer, bem-estar”, acrescentou a pesquisadora.

Fatores sociológicos também contribuem para explicar como nasce esse desejo de ajudar. “A solidariedade se exerce em qualquer plano, pode ser do ponto de vista emocional, etc. Agora, se a gente for colocar no sentido de fazer o bem ao próximo, de alguém que está precisando, aí já é algo mais específico, inclusive mais moderno. Depende muito de cada cultura, de cada país”, comentou o sociólogo Josias de Paula Júnior, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Josias de Paula Junior, sociólogo da UFRPE - Foto: Divulgação

“Aqui no Brasil o que a gente nota há muito tempo é que não são as elites, não são os mais abastados, aqueles que são mais ativos nesse tipo de solidariedade, na ajuda ao próximo. Há a filantropia, filantropia de grandes afortunados, mas a prática mais persistente, mais recorrente dessa solidariedade, é entre os menos abastados, os mais pobres, esses são os que atuam continuamente. É como se formasse um laço mesmo de empatia mais forte, em relação a uma elite que, dependendo da árvore genealógica, sempre viveu muito distante de qualquer situação de perigo social”, completou.

Em Paulista, na Região Metropolitana do Recife, membros da Igreja da Bênção realizam, há aproximadamente cinco anos, ações sociais para comunidades do bairro de Maranguape II.

O pastor Wellington Santos é um dos líderes da ação solidária - Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco 

“O nosso objetivo é que as pessoas necessitadas sejam supridas, porque há pessoas que, tendo em vista a sua renda, não conseguem se sustentar porque são muito carentes. Nós tivemos pessoas que estiveram aqui conosco e que estavam pedindo, clamando, que estava precisando de alimento. E nós, na medida do possível, procuramos ajudá-los”, comentou o pastor Wellington dos Santos.

Membros da Igreja da Bênção promovem ação em prol das comunidades do bairro de Maranguape 2, em Paulista - Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco

Aos sábados, como explica José Adriano Fraga, um dos organizadores do projeto Campanha do Amor, costumam ser desenvolvidas atividades para as crianças. Além disso, também é servido um sopão para os jovens e familiares que forem ao local e, sempre que recebem doações suficientes, são montadas cestas básicas. “Eu fico muito feliz de poder estar ajudando o próximo, as crianças aqui do bairro, porque são as pessoas realmente necessitadas. Nós vemos a necessidade do dia a dia e agora estamos indo buscar em casa as pessoas que são idosas, as pessoas que têm deficiência”, contou.

José Adriano é um dos coordenadores da Campanha do Amor - Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

Karina Santos, que também atua no projeto, destaca a importância de ações solidárias. “A gente tendo um pouquinho, a gente ajuda aqueles que estão em estado mesmo de carência total. Então, é um projeto que a gente não tem como parar, é para sempre continuar seguindo em frente”, disse.

Ângela BarrosÂngela Barros se emociona ao falar sobre as crianças assistidas pelo projeto - Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

A dona de casa  Ângela Barros, que também faz parte da ação, vê na doação ao outro uma forma de também se encontrar.

“Um dos nossos focos é a comunidade Nova Prata, onde há pessoas muito carentes. A gente vai fazer uma visita e encontramos muitas crianças nas ruas, a gente puxa um assunto e vê que estão ali necessitando de um alimento, de uma roupa, que muitas vezes estão precisando até de um banho mas não têm um sabonete. Graças a Deus, aqui a gente consegue acolher muitas crianças, com um dia inteiro de trabalho, mas que é extremamente gratificante”, comentou, emocionada.

Veja como ajudar esses e outros projetos:

Conheça instituições e projetos beneficentes 

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