Opinião

Sou um celularadicto

O clima em Brasília esta época do ano é irrespirável. E não falo de política...

Diariamente, a umidade beira os 30%, índice que os especialistas em saúde pública consideram prejudicial ao ser humano, e neste mês de julho parece que resolveu quebrar mais um recorde.

As consequências mais visíveis (ou sentidas) pelos moradores da capital da República são os problemas nas vias aéreas em todos os seus “ites”: faringite, sinusite, laringite, otite etc.

É claro que aqui em casa também fomos afetados.

Ligo urgente para o médico e peço um encaixe na agenda lotada. 

A secretária atenciosa sempre dá um jeitinho.

- O senhor pode vir às 11h00? Falo com o Dr. André.

- Certamente, obrigado pela compreensão.

E lá vem mais um acesso de tosse. 

- Cof, cof, cof!

Respiro fundo.

- Desculpe, obrigado mais uma vez.

- Imagina...

Meia hora antes estávamos lá. Éramos eu e minha filha. A esposa já havia ido na semana anterior.

Consultório cheio, gente de máscara tossindo à vontade, ansiosa pelo veredito dos seus médicos e das receitas para os remédios milagrosos que parassem com os sintomas. 

Mas aí começa a nossa história.

Como não tinha cadeira disponível, fiquei em pé no canto da sala, observando o ambiente. 

TV ligada naqueles programas matinais que ninguém assiste. O barulho parecia acalmar as pessoas, embora a reportagem relatasse um acidente fatal na entrada de Ceilândia. 

Mas ninguém olhava para o aparelho de tela larga e de última geração.

Um senhor se dirige ao balcão.

- Qual a senha da internet, moça?

- Jogo da velha, palavra virose com letra V maiúscula e numeral 2022.

- Obrigado filha. 

- Você pode me ajudar a digitar, não sou muito bom nisso.

- É que estou preocupado, meu WhatsApp não está funcionando, pode ser o sinal da operadora, e preciso falar com minha filha.
Pensei, legal, um senhorzinho usando a internet. 

Tempos modernos.

Aí olhei de novo para a sala.

Todas. Repito, todas as pessoas estavam de cabeça abaixada olhando seus celulares, como que hipnotizadas pela tela de cristal líquido.

Contei.

21 pacientes sentados em confortáveis cadeiras, com o foco no aparelho celular. Ninguém conversava. Ninguém se olhava. Ninguém interagia.

- Senhor Eduardo, consultório 5, o Dr. Luiz está à sua espera.

O paciente guarda relutante seu celular no bolso. Eu acho que estava no meio de uma conversa no Telegram. Deve ser daqueles que não confiam no WhatsApp...

Fomos atendidos com o profissionalismo de sempre pelo Dr. André. 

Anamnese geral, conversa para conhecer o histórico desta crise, bate papo informal, recheado de experiências sobre corrida (o médico faz triatlon) e receita padrão.

Saio do consultório e paro na secretária para que o plano autorize o exame de rinoscopia que o médico fez em minha filha. 
A sala continua lotada. O panorama nada mudou. Ninguém fala, ninguém ri, ninguém olha nos olhos. 

Olhos vidrados tão somente no celular.

Vivemos a era da tornozeleira eletrônica digital. 

Não somos criminosos, mas nos submetemos ao monitoramento invasivo, ininterrupto, que a tecnologia nos impõe por meio destes aparelhos dos quais não mais conseguimos nos separar.

Outro dia soube que se você deixar o smartphone perto enquanto conversa ele fica de “ouvidos abertos” te escutando e guardando as palavras chaves que você vocalizou, para depois, mediante um algoritmo supersofisticado, começar a te oferecer produtos, viagens, informações relacionadas às suas conversas.

Não sei se é verdade, mas fiquei assustado.

Será que nos transformamos em celularadictos, neologismo para os dependentes de celular?

Infelizmente creio que sim.

Aqui em casa há uma regra a ser seguida pelos filhos, genro, nora e netos: celular na mesa NÃO.

Mas se somos nós os primeiros a burlá-la quando temos dúvida de alguma coisa e precisamos dar uma Googlada?

Ou quando queremos ver no Instagram as fotos mais recentes postadas dos netos fazendo travessuras?

Há remédio para essa patologia? Se existir, CARTAS para a redação.

Paz e bem!

 

*General de Divisão da Reserva

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