Taiwan tenta usar sucesso contra Covid-19 para romper cerco chinês na OMS

Até esta segunda-feira (25), apenas 441 casos haviam sido registrados no território, com 7 mortes

CoronavírusCoronavírus - Foto: Freepik/Divulgação

Em 21 de janeiro, o primeiro caso de coronavírus foi confirmado em Taiwan, de uma mulher de cerca de 50 anos que trabalhava em Wuhan, na China, e voltou para casa levando a doença.

No dia seguinte, as autoridades anunciaram a distribuição de 1 milhão de máscaras por semana na ilha de 24 milhões de habitantes.

Seguiram-se medidas de controle de entrada de turistas, quarentena para quem tivesse suspeita de contaminação, testagem em massa e rastreamento de pessoas que tiveram contato com doentes.

Até esta segunda-feira (25), apenas 441 casos haviam sido registrados no território, com 7 mortes. O último confirmado foi em 21 de maio, de um homem que chegou do México.

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Para todos os efeitos, a Covid-19 é coisa do passado em Taiwan, um dos locais do mundo considerados modelo de controle da doença.

Agora, a ilha quer aproveitar o prestígio adquirido para furar o bloqueio chinês e tornar-se membro da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que pode ser o primeiro passo para integrar-se de modo pleno à comunidade internacional.

Embora tenha governo democraticamente eleito e várias características de um Estado independente, Taiwan é considerada uma província rebelde pela China desde 1949, quando abrigou o regime derrubado pela revolução comunista.

Nessa condição, tem o acesso a fóruns internacionais bloqueado e é reconhecida por apenas 15 países como Estado independente, a maioria de pequeno porte -o Brasil está entre os que não reconhecem.

A relação com a direção da OMS, vista como aliada da China, sempre foi tensa, algo que piorou durante a atual pandemia.

Em entrevista à reportagem por email, o ministro da Saúde de Taiwan, Chen Shi-chung, afirma que a ilha está "sujeita a restrições discriminatórias" por parte da organização.

"Espera-se que o secretariado da OMS elimine pressões políticas indevidas, adote posição profissional neutra, cumpra as expectativas da comunidade internacional e ajude ativamente Taiwan a participar da cooperação global em prevenção de epidemias", afirma Chen.

Embora o ministro não nomine o responsável pelas pressões políticas indevidas, a referência óbvia é à China.

Chen afirma que desde o começo da pandemia, Taiwan já recebeu apoio de diversos líderes políticos para que seja aceita na OMS, de países como Japão, Canadá, EUA e Nova Zelândia, além de deputados do Parlamento Europeu.

Como estratégia, adota argumento técnico: pandemias, por definição, são eventos globais, e a exclusão de Taiwan da OMS dificulta respostas coordenadas e o compartilhamento de sua bem-sucedida experiência na crise atual.

"O vírus não tem fronteiras. As estratégias de Taiwan em diagnóstico, teste de casos e tratamento podem ser compartilhadas e trocadas com países, o que será útil para o controle de situações epidêmicas", afirma.

Chen diz que há alguns contatos entre a área técnica de saúde da ilha com a organização, mas que 70% dos pedidos de participação em reuniões são rejeitados.

Segundo ele, "a participação incompleta de Taiwan na OMS pode aumentar o risco e a ameaça [de doenças para o território]".

Em janeiro, por veto da China, a OMS excluiu Taiwan de uma reunião entre países para discutir a crescente ameaça que àquela altura o vírus já representava.

Em abril, veio o troco, com a acusação feita pelo governo taiwanês de que avisou a organização no último dia de 2019 sobre uma nova e ameaçadora pneumonia que havia sido detectada em Wuhan. A OMS teria ignorado o alerta.

A tensão se traduz inclusive na nomenclatura da doença, chamada por Chen de "Pneumonia Wuhan". Os chineses têm repudiado qualquer alusão à doença que remeta a seu país.

Segundo o ministro, a experiência de Taiwan no combate à Sars, epidemia que surgiu na China em 2003, tem sido útil no surto atual.

"O primeiro ponto é ter um bom mecanismo de vigilância de epidemias", afirma Chen, que enumera os passos seguintes, caso haja algum caso confirmado.

"Depois de encontrar caso confirmado, a autoridade de saúde faz de forma rápida uma investigação, elabora lista de contatos, rastreia e se preocupa diariamente com o estado de saúde [do paciente]. Também ajuda a providenciar tratamento médico imediato para evitar a propagação da epidemia."

Outro trunfo é a descentralização, segundo o ministro. O governo designou 162 instituições por todo o território para ajudar na testagem e monitoramento de casos.

Além disso, foram abertos 22 locais de isolamento e quarentena, com um total de 2.117 quartos, para onde eram enviados passageiros que chegassem do exterior, durante 14 dias.

Com essas medidas, não chegou a ser cogitada a decretação de "lockdown". Isso ocorreu, diz Chen, em razão da cooperação da população local.

"A preparação avançada é mais importante. A maioria das medidas é de natureza persuasiva. Não há necessidade de implementar um bloqueio em massa", afirma.

Em nota, a embaixada da China no Brasil afirmou que, desde o início do surto, tem informado Taiwan sobre a situação "com abertura e transparência e sempre em tempo útil".

Segundo a embaixada, até 15 de maio, 152 comunicações haviam sido feitas à ilha. "Além disso, infectologistas taiwaneses foram à cidade de Wuhan, já em meados de janeiro, para conhecer os trabalhos de prevenção e controle", afirmou.

Os chineses, no entanto, dizem que a OMS é integrada apenas por nações soberanas, o que não se aplica a Taiwan.

Sobre a nomenclatura "Pneumonia Wuhan", a embaixada critica a tentativa de "aproveitar a situação para lucrar com a epidemia e fazer uma estigmatização política".

Já a OMS afirmou, também em nota à reportagem, que seus especialistas interagem com técnicos de Taiwan de forma permanente em temas vitais de saúde pública e ciência.

"Durante a pandemia atual, essas interações foram intensificadas, por meio de canais existentes e novos."

A OMS afirma que a participação de Taiwan na organização depende dos países membros. Houve 14 tentativas da ilha de se filiar à entidade nos últimos 22 anos, mas sempre barradas em votações.

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