Tejipió, o rio dos excluídos

Rio, o terceiro mais importante do Recife, é poluído e esquecido, abandono que também se estende a quem mora perto de suas margens

Rio TejipióRio Tejipió - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Em vez de janelas, pedaços de madeira e entulhos. No lugar de um piso de cerâmica, terra amolecida pela água que corre a pouco mais de meio metro dali. Essa é a sala de jantar de Edivânia Maria da Conceição, 32 anos, e a vista que ela tem na frente é a do rio Tejipió. Ele cruza e define os destinos da dona de casa em Jardim Uchoa, no bairro de Areias, Zona Oeste do Recife. O contato tão próximo, quase sempre, resulta em perdas para ambos. O rio, com a rota inglória de sujeira, agressão ambiental e ocupação desordenada que sofre naquele trecho e na maior parte dos 20 quilômetros que percorre entre São Lourenço da Mata e o Pina, Zona Sul do Recife. Edivânia, com efeitos das cheias que enfrenta sempre que chove um pouco mais.

Ela vive com o marido, José Carlos da Silva, 50, e os três filhos pequenos. Padece de uma doença linfática que mantém suas pernas inchadas, quadro que se assemelha ao de uma filariose. "Acho que essa imundície do rio ajudou. Morando aqui, não consigo me cuidar", assegura. Quando a água sobe, ela tenta não ficar com os pés submersos. Mas para onde correr se a principal rua da região ribeirinha, a João Paulo II, também é lama pura? "Quando o rio seca, a gente tem que limpar tudo aqui dentro, mas, do lado de fora, não tem como passar. Quem sai para trabalhar ou estudar tem que pisar na lama. O medo é de doença", diz José Carlos, que está desempregado. O auxílio-doença de Edivânia foi negado. A família vive só do Bolsa Família.

Perto dali, o Tejipió vai se revelando um rio excluído e de excluídos. Uma das margens só não é ocupada porque abriga a Mata do Engenho Uchoa. Na outra, há barracos e casas de alvenaria. A maioria tem vários degraus na entrada para barrar a água. "E, ainda assim, entra nas casas. A água dá nos peitos aqui", detalha Valdir Pequeno, líder comunitário de Jardim Uchoa. Ele mostra o Canal das Laranjeiras, que leva ainda mais sujeira para o Tejipió. "É preciso que o poder público faça uma limpeza de verdade, desobstrua essa sujeira que fica nos cantos e nas pontes. Senão, nunca vai mudar", diz.

Na divisa entre Jardim Uchoa e o bairro do Caçote, mais uma família que sofre às margens do rio é a da dona de casa Maria Janaína Silva, 36. O lazer das crianças que vivem na moradia é um terreno onde já apareceram até jacarés. Mosquitos e animais nocivos também são comuns na região. Não bastassem as adversidades naturais, o tráfico de drogas presente em vielas próximas é um desafio a mais. "Apesar de tudo, eu não queria sair daqui. Já perdi meus móveis três vezes. Não tenho mais nada. Não tenho para onde ir. O que eu queria mesmo é que as coisas melhorassem, que limpassem o rio, o canal, que aqui se desenvolvesse. Esse aqui é o quintal dos meus filhos, é o único lazer que eles podem ter", desabafa.

O caminho das águas
O percurso de 20 km do Tejipió, 18 deles em território recifense, é relativamente curto, mas suficiente para fazer do rio o terceiro em importância na Capital. Só que nem de longe ele faz jus ao título ou recebe a atenção dada ao Capibaribe, que, embora também sofra problemas ambientais, é cartão-postal, atrai o interesse do mercado imobiliário para seu entorno e é objeto de iniciativas que discutem a interação das pessoas com o curso d'água.

O Tejipió, pelo contrário, é renegado, escondido, motivo de vergonha. Passa espremido entre casas que lhe dão as costas e de onde são lançados dejetos. Imóveis que sequer têm janelas voltadas para o lado em que é possível contemplá-lo, amá-lo e se inspirar a preservá-lo. Mesmo nas dezenas de pontes sob as quais o rio passa, só os mais atentos sabem que se trata dele. Mais parece um canal em alguns trechos, de tão assoreado e poluído.

Como numa existência infausta, o curso d'água só é notado quando faz mal, quando revida as agressões ambientais que sofre. Na divisa entre os bairros de Coqueiral e do Totó, na Zona Oeste, ele acumula garrafas pet, sacos de lixo e entulhos. Por cima passa um pontilhão da largura de um carro. O espaço, que não tem guarda-corpo, é dividido por veículos e pedestres. Está precário, não tem manutenção há anos, dizem moradores de perto.

Da frente dele, Maria do Socorro Macedo, 64, já viu muitas idas e vindas das águas nas últimas três décadas, tempo em que vive no local. No andar de baixo, onde tem um ponto comercial, teve que tomar providências: expositores e um freezer estão apoiados em lajotas. "Já tive muito prejuízo aqui", resume. "O lixo entope tudo e a água sobe. Dou uns trocados para o pessoal tirar, porque não aparece órgão nenhum para cuidar disso", completa.

No Totó, há outros três pontilhões na mesma situação. A revitalização deles foi até objeto de promessa de campanhas eleitorais antigas, algumas ainda preservadas em cartazes publicitários de candidatos que nunca foram retirados dos muros das casas. Foram só palavras lançadas ao vento.

Boas intenções
A redenção do Tejipió é repleta de boas intenções, mas ainda carece de recursos financeiros e tratativas envolvendo órgãos públicos e parceiros. Um dos planos é relativo à renaturalização do rio Jiquiá, seu principal afluente. A ideia é que, no futuro, deixe de ser praticamente um canal e volte a ser rio. Após isso é que se poderia acreditar numa população atraída a contemplar e acolher esses cursos d'água.

"Queremos que o rio Jiquiá volte a ser natural. Como ele é o que mais contribui para o Tejipió, estando despoluído, isso teria reflexo. Estamos fazendo um projeto que prevê a renaturalização, mas não dá para a Prefeitura do Recife agir sozinha. Estamos desenhando um projeto. É algo iniciado e que não colocará, mas já põe o Tejipió na agenda ambiental da Cidade. É um rio estratégico e que, realmente, precisa de mais atenção", avalia o gerente-geral de Sustentabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Recife, Alexandre Ramos.

Em 2015, o Tejipió passou por um processo de reabertura da calha, que chegava a apenas um metro de largura em alguns trechos, para entre sete e nove. Foram retirados bancos de areia que funcionavam como uma barragem, levando a água a subir mais rápido. As obras foram feitas com recursos municipais que somaram cerca de R$ 3 milhões. A espera, porém, é pela dragagem do rio, que está orçada em R$ 46 milhões e depende de verba federal. O projeto foi concluído em 2014, levado a Brasília e, até agora, aguarda retorno do Governo Federal.

"Diante de toda a crise econômica, e agora política, esses recursos nunca chegaram. Mas a prefeitura vem solicitando, reforçando a necessidade deles todos os anos. É uma obra importante porque a última dragagem só foi feita na década de 70. A quantidade de entulhos é muito grande", explica a diretora de Manutenção Urbana da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), Fernandha Batista, destacando que o rio também passa por áreas densamente povoadas de Jaboatão dos Guararapes e que a busca por soluções deve ser discutida também em caráter estadual.

Lúcio José Alves, 59, e Carlos José da Silva, 50, aguardam por dias melhores para o rio enquanto passeiam por uma rota contemplada por pouca gente. O início do trecho navegável do Tejipió, no bairro do Caçote, também é ignorado por quem passa pelo trânsito intenso da avenida Recife. De perto da ponte, os pescadores seguem de barco até a Bacia do Pina para retirar o que garante parte do sustento de suas casas. Por um 1,5 quilo de pescados, recebem R$ 50. "Antes, tinha camarão, tainha. Agora, só lá no Pina para pegar alguma coisa. Vi esse rio ir apodrecendo com o tempo. É triste para quem já tomou até banho aí dentro, numa água clara", lamenta Lúcio.

Sobre o restante do trajeto até o mar, sobre o qual quase não há pontes e que é ainda mais desconhecido de quem não navega, Carlos é taxativo. "Está bem estragado aí para dentro, com muito lixo, mas ainda tem vida. A gente vê. Se dragarem, se cuidarem, acho que esse rio ainda tem esperança", diz.

 

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