Tempos de êxtases e paixões

É hora de desnudar os corpos forjados nos meses anteriores para cobri-los com glitter. Época de compartilhar espaços apertados e de misturar o suor. Tempos de amores rápidos e, às vezes, eternos.

Todos os anos, quando os fogos do réveillon silenciam, o frevo começa a tocar. E invade as ladeiras de Olinda, primeiro lugar onde a folia se instala, contaminando foliões pelas calçadas do Recife e provocando outros ritmos de Norte a Sul do Brasil. As cidades fervem, o trânsito vira um caos, as lojas vendem até para os lisos e tudo é festa. É o reinado do Gordo que se instala, provocando êxtase e as paixões.

É hora de desnudar os corpos forjados nos meses anteriores para cobri-los com glitter. Época de compartilhar espaços apertados e de misturar o suor. Tempos de amores rápidos e, às vezes, eternos.

O Carnaval é como um portal de curta duração pelo qual nos transpomos para nos separar da realidade conturbada em que vivemos. O reinado de Momo é um bálsamo em nossas duras vidas e, por isso, é tão aguardado. A ansiedade que antecede o sábado de Zé Pereira contamina os povos e causa efeitos colaterais - há quem ame a festa e quem dela fuja para bem longe.

Eu não me classifico como foliã, mas gosto da folia. Já fugi do Carnaval, e sempre que isto ocorre, eu fico com um sentimento de que estou perdendo algo, como se aqueles quatro dias (ou seriam mais?) fossem tão únicos que merecessem toda minha disposição.

Isso porque o melhor destes dias é a liberdade que se tem ou se pensa ter. Você usa o que quer, se pinta como pode, e se permite a muitas coisas que em dias normais não se permitiria. A bebedeira faz parte da festa, os amores roubados também. E se um projeta-se como a parte decadente ao transpor os limites, o outro é seu lado sublime.

Há casais que se conheceram ao som dos clarins de Momo, descendo ou subindo ladeiras e estão juntos há anos. Quando revelam que se conheceram desta forma, geram certo espanto, certa admiração, como se houvesse algo escrito dizendo que os amores de Carnaval não foram feitos para durar. E convenhamos: se você foge do Carnaval e conhece sua alma gêmea na praia ou no campo, não terá nunca o mesmo glamour que conhecê-la em meio à farra das fantasias.

Então, que o rufem os tambores, e que neste Carnaval todos possam realmente dar um tempo das confusões do cotidiano, das mazelas deste País sofrido. Torcendo para que os dias sejam de alegria, com ou sem ressaca, termino este texto pensando na minha fantasia e na festa que me aguarda. Este ano não vou fugir, vou enfrentar o desafio do Galo da Madrugada, das ladeiras de Olinda, dos blocos do Recife Antigo, dos Papaguns de Bezerros, e dos maracatus que invadem os quatro cantos, mundo afora. Porque, quando me for feita a pergunta que sempre vem quando as cinzas se espalham, quero responder: “Sim, eu brinquei Carnaval!”.

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