Tempos de intolerância: polarização encontra força motora nas redes sociais

O campo é fértil para uma eleição radicalizada, que poderá acirrar o eleitorado e afetar os rumos da democracia; veja como evitar cair em armadilhas

Tempos de intolerânciaTempos de intolerância - Foto: Arte: Folha de Pernambuco

As reações à morte da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL), em pleno ano eleitoral, avivaram questionamentos sobre o impacto dos discursos de ódio, presentes na internet, na saúde da democracia. O processo político pressupõe confiança nas instituições, mas a recente quebra de consenso - gestada nas Jornadas de Junho de 2013, acentuada nas eleições de 2014, no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e nos vários capítulos que compõem o turbulento governo de Michel Temer (MDB) - produziu um ambiente fértil para a intolerância às diferenças, o que, na visão de analistas, pode ser pernicioso para o debate.

A vinda da filósofa americana Judith Butler ao Brasil, em novembro de 2017, foi um dos muitos episódios em que o País vivenciou o chamado “discurso de ódio”. O seminário, em São Paulo, tinha como tema “Os Fins da Democracia”, mas manifestantes conservadores levantaram cartazes - com dizeres de “Não à ideologia de gênero” - e incineraram uma boneca na entrada do Sesc Pompeia, aos gritos de “queimem a bruxa”, na tentativa de expulsar a renomada pensadora feminista. As conclusões equivocadas sobre o teor do evento e o tratamento ofensivo dispensado a Butler, que chegou a ser hostilizada no aeroporto, traduzem o sentimento presente nas redes sociais e que, nos últimos anos, contamina o processo político brasileiro.

No caso da vereadora Marielle Franco, a comoção pela sua morte foi seguida de uma onda de compartilhamento de notícias falsas e, entre os boatos, falou-se até que a psolista foi eleita com a ajuda da facção criminosa Comando Vermelho, o que não é verdade. Os boatos ganharam mais alcance quando a desembargadora Marilia Castro Alves (TJRJ) e o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) compartilharam essas fake news na internet.

Baseadas nessas informações que circulam em grupos de WhatsApp, essas autoridades públicas julgaram que Marielle não era merecedora da comoção, por não ter conduta exemplar. Eles vieram a público reconhecer que tinham cometido um engano, mas o estrago já estava feito. "O discurso de ódio tem uma penetração grande nas redes sociais. Ele é de fácil consumo, pois é mais fácil demonizar o outro do que discutir, argumentar", analisa o professor do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic-UFES), Fábio Goveia.

A professora do Departamento de Comunicação da UFPE, Carolina Dantas, acredita que a internet tem sido um campo fértil para o discurso de ódio porque, entre outras coisas, proporciona anonimato aos detratores. "Há estudos que mostram que o brasileiro tende a ser mais agressivo quando não há essa possibilidade de ser identificado. Quando você está no automóvel, por exemplo, você tende a ser mais agressivo do que numa fila de banco, justamente porque você não é visto. As pessoas não querem ser agredidas, ameaçadas, por isso você se blinda, na web há uma tela protegendo sua identidade", disse.

Num ambiente mais horizontal, como a internet, todos são agentes de informação, por isso todos têm responsabilidade, mas as pessoas de maior notoriedade atraem mais atenção. "Eu deduzo que a desembargadora tem algum nível de estudo, percorreu uma carreira pública árdua, logo eu pressuponho que ela tem discernimento. Pra qualquer um, bastava jogar a informação no Google para verificar a veracidade, ela não precisava fazer isso. Mesmo assim, ela disseminou uma notícia que ela quer que seja verdade, ela queria destilar um determinado discurso".

Para o professor de ciência política Leon Victor de Queiroz (UFCG), a discussão política na Internet ganha um tom preocupante porque as pessoas têm visto o universo online como um “espaço de desabafo” e por esse motivo, na maioria das vezes os xingamentos pouco tem a ver com o teor da publicação principal. Victor considera que uma das características principais do Facebook para atrair pessoas é o seu caráter emotivo. “Ele também é viralizante, tem a questão de você ser tomado por um sentimento de outras pessoas, ele agrega. Você passa a fazer parte daquele movimento. Então a internet, as redes sociais na verdade, foram fundamentais para se agregar pessoas em torno de um movimento, de uma luta”, explicou.

A divisão entre direita e esquerda, segundo Fábio Goveia, é a materialização de um fenômeno denominado "net war" (guerra da internet). Curiosamente, essa proliferação de notícias falsas está fundamentada nos elos afetivos, nos grupos mais próximos, que têm um fluxo de compartilhamento estimulado pelos algoritmos de redes sociais como o Facebook. "O público leigo não é treinado para desconfiar da fonte. Se o seu pai comenta algo, você tende a acreditar que ele está certo. Informação falsa compartilhada por uma fonte fiel, que você acredita, leva você a compartilhar aquilo sem questionar".

A própria programação dos aplicativos e páginas das redes sociais contribuem para a formação de circuitos fechados, que ganharam a denominação de "bolhas sociais". Os conteúdos compartilhados na web acabam se fechando em ciclos próprios, por afinidades ideológicas comuns, fazendo com que o usuário não consiga enxergar opiniões contrárias a sua, contribuindo para uma espécie de cegueira social e a difusão do discurso de ódio. "Esse magnetismo tem a ver com a nossa capacidade de circular informações rapidamente. Há um desejo de ter visibilidade, poder ganhar mais curtidas. Todos querem ser famosos, todos querem ser celebridades digitais. O usuário acaba falando mais com o fígado do que com o cérebro", avaliou Goveia.

Vale lembrar que, no espectro de propagação de notícias falsas, nem sempre está se compartilhando uma mentira. A agência de checagem de notícias "Aos Fatos", por exemplo, elenca os conteúdos entre verdadeiro, impreciso, exagerado, falso, contraditório ou insustentável - onde cada um desses elementos tem um impacto diferente no jogo democrático.

Nesse segmento, atuam largamente páginas que defendem determinada causa e até páginas de maior prestígio com discurso supostamente isento, como é o caso da página Movimento Brasil Livre (MBL), de direita, e da página Mídia Ninja, de esquerda, cujo alcance de cada uma chega a mais de 1,5 milhão de pessoas. O pesquisador Fábio Malini (também do Labic-UFES) qualifica esse ativismo jornalístico como "ladismo noticioso", movido pela busca de likes de haters (detratores) e lovers (apoiadores).

Manifestações
A polarização vivenciada pelo País hoje é consequência direta das manifestações que ficaram conhecidas como ‘jornadas de junho’ e tiveram como força motora o uso pioneiro das redes sociais para facilitar a comunicação entre os manifestantes. Munidos de cartazes, faixas e gritos de protesto, em 2013, milhares de pessoas foram às ruas em reação a medidas governamentais impopulares. Tendo começado em São Paulo com o movimento pelo passe livre (que pedia a extinção das tarifas dos transportes públicos), as passeatas ganharam as ruas de todo o País em pouco tempo. Como consequência, nenhum outro ato foi planejado sem uso das redes sociais.

As movimentações expuseram a crise de representatividade com a política e demonstravam, principalmente, a insatisfação da população com demandas referentes a economia. No entanto, logo foram erguidas bandeiras de diversos movimentos e a situação nas ruas tornou-se bastante polarizada - conservando e agravando seus efeitos até as eleições presidenciais em 2014. De acordo com Túlio Velho Barreto, sociólogo da UFPE, a dualidade dos discursos nas ruas era um produto de uma política social implantada com os governos mais progressistas do período da redemocratização. “A medida que atores sociais, políticos, que eram excluídos e são os mais vulneráveis, começaram a se empoderar materialmente e politicamente, se criou uma reação a isso. Essa polarização foi se aguçando cada vez mais”.

Para evitar cair em armadilhas:

Cruzamento de fontes: Utilizar palavras-chave sobre o assunto para pesquisar outras fontes de informação. Basta jogar a informação no Google, que se for verdade, aparecerão resultados em portais de credibilidade. Também é importante ler a matéria além do título, sob o risco de compartilhar conteúdo adulterado.

Atenção à linguagem: Uso abundante de adjetivos, tom alarmista e pedido de compartilhamento denotam juízo de valor e interesse por “viralização”. Erros de ortografia frequentes também indicam que o conteúdo tem origem duvidosa.

Checar autoria: Sem a assinatura do autor ou a procedência do portal dos textos, melhor não confiar. No caso de áudios e vídeos, qualquer pessoa pode gravar conteúdo falso e repassar para grupos.

Pensar duas vezes: Os conteúdos são classificados pelo portal “Aos Fatos” como verdadeiro, impreciso, exagerado, falso, contraditório ou insustentável. Na maior parte das vezes, como não atende a critérios jornalísticos isentos, é melhor refletir sobre a consequência da publicação.

Veja também

A 8 dias da eleição, Senado dos EUA confirma juíza ultraconservadora para a Suprema Corte
internacional

A 8 dias da eleição, Senado dos EUA confirma juíza ultraconservadora para a Suprema Corte

Brasil atinge 5,4 milhões de casos da Covid-19
boletim

Brasil atinge 5,4 milhões de casos da Covid-19