Tentativa de feminicídio: polícia detalha prisão de homem suspeito de esfaquear ex-mulher em Moreno
Ele não aceitava o fim do relacionamento
Está preso o homem suspeito de esfaquear a ex-mulher no município de Moreno, na Região Metropolitana do Recife. Ele foi detido na última quinta-feira (8), após cumprimento de diligências por parte da Polícia Civil de Pernambuco, que forneceu à imprensa, nesta sexta-feira (9), detalhes de como chegou ao suspeito.
Segundo a corporação, o relacionamento de quatro anos que a bombeira civil Roberta Lopes, de 31 anos, mantinha com o mototaxista Lucrécio Santos da Silva, de 30, era conturbado. Porém, após diversos episódios de agressão por parte dele, inclusive de ter ateado fogo na casa da vítima, a mulher pôs um fim na relação há três meses. Mas no último domingo (4), a situação ficou insustentável.
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O terror na festa
Quando soube que a ex estava com amigos na festa do afilhado dela em um bar em Moreno, após persegui-la, ele fez uma confusão, jogou um copo de cerveja no rosto dela e saiu.
Após ter dito que ia embora, temendo a volta dele, a vítima pagou a conta no estabelecimento e pediu um transporte por aplicativo. Enquanto ela esperava, ele voltou em uma moto com uma faca peixeira e a golpeou no peito esquerdo. Imediatamente ela foi socorrida e levada ao Hospital Otávio de Freitas, em Tejipió, Zona Oeste do Recife, onde levou seis pontos. Ele fugiu.
Ainda naquele dia, após receber alta médica, ela o denunciou na Delegacia Especializada da Mulher, em Santo Amaro, centro da capital, e pediu uma medida protetiva de urgência, que foi deferida pelo judiciário, que também o intimou.
Delegada Cecília Delgado, titular Delegacia de Moreno, e delegado Gilberto Loyo, seccional da 6ª Delegacia | Foto: PCPE/Divulgação“A gente recebeu o procedimento na segunda-feira. Inclusive, com a parceria da delegada [da Delegacia de Santo Amaro], que explicou de início essa gravidade do crime. Realizamos, imediatamente, as diligências necessárias para poder solicitar o mandado de prisão contra ele”, conta a delegada da Delegacia de Moreno, Cecília Delgado.
Preso e em silêncio
Quando estava indo à delegacia, ainda segundo a delegada Celícia, após ser intimado pela segunda vez para prestar depoimento, Lucrécio foi preso pela polícia. A autoridade policial confirma que a vítima já teria solicitado, em outras duas ocasiões, medidas protetivas contra ele.
O suspeito foi tranquilo até a delegacia e, ao invés de prestar depoimento sobre o acontecido, optou pelo silêncio.
“Ele já tentou agressões contra ela por diversas vezes e ameaçava de morte constantemente. No dia do crime, temos consciência de que ele tentou matá-la, pelo jeito que o fato foi praticado. Ele pegou uma faca peixeira e, de surpresa, a golpeou, direcionando esses golpes à [veia] jugular. Por ela ter se esquivado, evitou o atingimento dessa região, mas foi golpeada no peito esquerdo que é uma área vital”, complementa.
O medo que a mantinha refém
Em entrevista à Folha de Pernambuco, Roberta contou que quebrou as outras medidas protetivas que pediu contra o ex-marido por questão de medo. Ela temia por perder a vida.
“Para resguardar minha vida, eu tinha que me reaproximar dele. Era muita ameaça. Eu tinha muito medo que ele me matasse, então eu preferia estar com ele. Eu achava que assim ele ficava mais calmo do que se estivéssemos separados”, conta.
O suspeito vai responder por tentativa de feminicídio qualificada, por ação que impediu a vítima de se defender. Como prevê o Código Penal Brasileiro, essa é uma das possibilidades de qualificação do crime.
O medo da interferência externa
Hoje a vítima não está mais na cidade de Moreno. Ela preferiu se esconder em um lugar que não será identificado na matéria. Ela teme pela vida, mesmo o homem estando preso.
“Eu estou mais tranquila em saber que ele está preso, mas continuo com medo e escondida, porque eu tenho medo de que haja represálias por parte dos amigos dele. Ele tem muitos amigos de má índole. Eu fico receosa. Saí da minha cidade até que eu me sinta mais tranquila”, revelou.
Dados estatísticos
Segundo informações levantadas pelo Observatório de Segurança Nacional, em 2024, a cada 24 horas, em média, 13 mulheres foram vítimas de algum tipo de violência no Brasil. Ainda apontando dados gerais, 3,7 milhões sofreram violência doméstica ou familiar.
Para o diretor-geral da Esmape, desembargador Jorge Américo, a situação referente aos crimes contra as mulheres, especialmente em Pernambuco, é preocupante. Ele vê o "Alerta Mulher" como uma forma de evitar subnotificações de possíveis casos.
“Só em Pernambuco, o número de feminicídios subiu de 15% para 20% este ano. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a cada 10 minutos, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil. A Esmape trabalha com ferramentas tecnológicas para combater, reprimir ou prevenir da violência. Precisamos usar a tecnologia a serviço do sistema de justiça”, informa.
Vítimas recebem auxílio do INSS e afastamento do trabalho
Foi publicada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 16 de dezembro, a decisão de que mulheres vítimas de violência doméstica podem receber benefícios previdenciários ou assistenciais do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) se precisaram de afastamento do trabalho.
De acordo com a definição, a Justiça deve assegurar à mulher em situação de violência doméstica a manutenção do vínculo empregatício por seis meses, enquanto ela se recupera dos danos causados pelos agressores.
A forma de pagamento vai depender da situação previdenciária de cada trabalhadora
- Em casos de mulheres que contribuem para a Previdência, o pagamento deverá ser feito pelo empregador nos primeiros 15 dias. Depois, caberá ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) arcar com o benefício;
- Para trabalhadoras autônomas informais, o pagamento será de um benefício assistencial temporário, seguindo o que prevê a Lei Orgânica da Assistência Social.
“Ela pode estar sendo perseguida ou assediada pelo agressor, inclusive no ambiente de trabalho. Ela pode requerer, entre as medidas protetivas, o recebimento desse benefício, enquanto durar o perigo que ela vier a ser exposta”, finaliza Jorge Américo.
Dados
Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher, levantado com dados obtidos a partir de 2022 pelo Ministério das Mulheres, os homens são os principais agressores das mulheres. Em 76,6% dos registros de violências domésticas, sexual e/ou outras violências contra mulheres, o agressor é do sexo masculino.
Os estudos ainda revelaram que 32,6% dos registros denunciados no "Ligue 180" foram de violências psicológicas contra as mulheres. Em 29,7% dos casos, a violência física foi a segunda mais registrada.
Entre 2015 e 2024, segundo o documento, o Brasil registrou mais de meio milhão de estupros. Foram 591.495 casos.
Em Pernambuco
Segundo a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE), o estado fechou 2024 com o maior índice de vítimas de violência doméstica e familiar do sexo feminino por região. Foram 54.222 ocorrências, sendo 9.811 no Recife, 16.590 na Região Metropolitana e 27.821 no Interior.
Veja o comparativo aos últimos dez anos
2014: 32.875 casos
2015: 30.347 casos
2016: 31.525 casos
2017: 33.448 casos
2018: 40.248 casos
2019: 40.248 casos
2020: 41.071 casos
2021: 41.530 casos
2022: 43.838 casos
2023: 52.375 casos
2024: 54.222 casos
De janeiro a junho de 2025, a Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística da SDS registrou 48 casos de feminicídio. No mesmo período de 2024, foram registrados 42 casos em todo o estado.
Sinais de um relacionamento abusivo
- Ciúme excessivo;
- Atos de controle sobre o corpo da mulher, vestimentas, bens e dinheiro;
- Atos de vigilância;
- Isolamento social e/ou familiar;
- Atitudes que a impeçam de trabalhar, estudar ou de buscar assistência médica;
- Humilhação;
- Diminuição da autoestima;
- Explosões de raiva incontroláveis;
- Ameaças contra a vítima, familiares, pessoas próximas ou até mesmo animais.
Onde buscar ajuda?
A Lei Maria da Penha estabelece que todo o caso de violência doméstica e intrafamiliar é crime, deve ser apurado por meio de inquérito policial e ser remetido ao Ministério Público. A violência contra a mulher pode ser manifestada das formas: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Em todos os casos, lembre-se que você não está sozinha e pode fazer a denúncia de diversas formas.
Veja como e onde receber acolhimento em caso de violência doméstica em Pernambuco
Ligue de forma gratuita para o 190: Polícia Militar de Pernambuco (PMPE). O serviço é disponível 24h por dia, todos os dias.
Ligue de forma gratuita para o 180: Central de Atendimento à Mulher. O serviço do Governo Federal fica disponível 24h por dia, todos os dias, e recebe ligações de todos os lugares do Brasil. Ele registra e encaminha denúncias de violência contra a mulher aos órgãos competentes.
Ligue de forma gratuita para o 0800.281.81.87: Ouvidoria da Mulher de PE. O serviço funciona até às 20h, depois desse horário é recomendado ligar para o 190.
A Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) dispõe de 15 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM). Algumas delas funcionam 24h por dia. Confira as unidades:
Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM)
- Recife (1ª Delegacia de Polícia da Mulher) PLANTÃO 24H
Endereço: Rua do Pombal, s/n, Praça do Campo, Santo Amaro.
Telefone: (81) 3184.3356 / 3184.3352
- Jaboatão dos Guararapes (2ª Delegacia de Polícia da Mulher) PLANTÃO 24H
Endereço: Rua Estrada da Batalha, s/n, Prazeres - 6º Batalhão.
Telefone: (81) 3184.3444 / 3184.7198.
- Petrolina (3ª Delegacia de Polícia da Mulher) PLANTÃO 24H
Endereço: Avenida das Nações, nº 220, Centro.
Telefone: (87) 3866.6625
- Caruaru (4ª Delegacia Especializada da Mulher) PLANTÃO 24H
Endereço: Rua Dalton Santos, nº 115, São Francisco.
Telefone: (81) 3719.9107 / 3719.9106
- Paulista (5ª Delegacia de Polícia da Mulher) PLANTÃO 24H
Endereço: Praça Frederico Lundgren, s/n, Centro
Telefone: (81) 3184.7075 / 3184.7077
- Cabo de Santo Agostinho (14ª Delegacia de Polícia da Mulher) PLANTÃO 24H
Endereço: Av. Conde da Boa Vista (antiga BR 101), S/N, Pontezinha.
Telefone: (81) 3184.3414 / 3184.3413
- Olinda (15ª Delegacia Especializada da Mulher) PLANTÃO 24H
Endereço: Avenida Governador Carlos de Lima Cavalcanti, 2405 - Casa Caiada.
Telefone: (81) 98663.6677
- Surubim (7ª Delegacia de Polícia da Mulher)
Endereço: Rua Santos Dumont, nº 85, Oscar Loureiro.
Telefone: (81) 3624.1983 / 3624.1984
- Goiana (8ª Delegacia de Polícia da Mulher)
Endereço: Rua 65, Loteamento Carvalho Feitosa, s/n, Centro.
Telefone: (81) 3626.8510
- Garanhuns (9ª Delegacia de Polícia da Mulher)
Endereço: Avenida Frei Caneca, nº 460, Centro.
Telefone: (87) 3761.8510/ (87) 3761.8507
- Vitória de Santo Antão (10ª Delegacia de Polícia da Mulher)
Endereço: Av. Henrique de Holanda, nº 1333, Redenção.
Telefone: (81) 3526.8789 / 3526.8928
- Salgueiro (11ª Delegacia Especializada da Mulher)
Endereço: Rua Antônio Figueiredo Sampaio, 93, no bairro Nossa Senhora das Graças.
- Afogados da Ingazeira (13ª Delegacia de Polícia da Mulher)
Endereço: R. Valdevino J. Praxedes, s/n, bairro Manoela Valadares
Telefone: (87) 3838.8713 / (87) 3838.8782
- Palmares (16ª Delegacia Especializada da Mulher)
Endereço: R. Cap. Pedro Ivo, 590 - Centro, Palmares
- Arcoverde (17ª Delegacia Especializada da Mulher)
Endereço: Rua Augusto Cavalcanti, 276 Centro da Cidade
Telefone: (87) 98877-2210
Serviços no Recife
A Prefeitura do Recife disponibiliza alguns serviços voltados para as mulheres vítimas de violência doméstica.
Centro de Referência Clarice Lispector
O local funciona 24h, todos os dias da semana, e conta com espaço para o abrigamento emergencial de usuárias em atendimento, acompanhadas ou não de filhos.
Endereço: Rua Doutor Silva Ferreira, 122, em Santo Amaro.
Serviço Especializado e Regionalizado - SER Clarice Lispector
O local acolhe mulheres em situação de violência, por meio de uma equipe multidisciplinar formada por duas assistentes sociais, duas advogadas, duas psicólogas e duas educadoras.
Endereço: Avenida Recife, nº 700, Areias.
Atendimento: 7h às 19h, de segunda a domingo
Salas da Mulher
As Salas da Mulher de cada Compaz são responsáveis pelo primeiro acolhimento das cidadãs.
Unidades do Compaz: Eduardo Campos (Alto Santa Terezinha), Ariano Suassuna (Cordeiro), Miguel Arraes (Praça Caxangá), Dom Hélder Câmara (Coque) e o recém-inaugurado Paulo Freire (Ibura).
Plantão WhatsApp (24 horas) para casos de violência doméstica: (81) 99488.6138.

