'Teve negligência, ou não teria acontecido”', diz Débora sobre o acidente no kart

Em entrevista à Folha de Pernambuco, estudante que perdeu o couro cabeludo em acidente de kart, no Recife, fala sobre os desafios

Estudante Débora Dantas de Oliveira, de 19 anosEstudante Débora Dantas de Oliveira, de 19 anos - Foto: Cortesia

Em entrevista à Folha de Pernambuco, por telefone, a auxiliar de ensino Débora Dantas de Oliveira, de 19 anos, que perdeu o couro cabeludo em um acidente de kart no Recife, falou sobre os momentos de tensão após o fato e as consequências em sua vida. A jovem acredita que houve negligência por parte da empresa de kart e disse que não recebeu os equipamentos e orientações adequadas.

De alta hospitalar desde o último sábado (13), Débora, aos poucos, está retomando a sua rotina e continua com o sonho de ser médica. Apesar das dificuldades, ela diz que não se deixa abalar. Antes de iniciar a etapa de recuperação estética, prevista para janeiro de 2020, a estudante continuará hospedada em Ribeirão Preto, São Paulo, para frequentar o hospital duas vezes por semana para a troca de curativos.

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Como foi na hora do acidente?
Eles (os funcionários) instruíram que eu não podia ficar com o cabelo solto porque era longo. Me deram uma touca e o capacete. Perguntei se tinha mais alguma coisa que precisava fazer, mas disseram que estava tudo certo. Fiquei tranquila, não achei que nada grave fosse acontecer. Entrei no carro e logo no começo bati nos pneus e me colocaram na pista de novo. Dei outra volta e bati novamente. Na terceira volta já arrancou o meu cabelo. Lembro bem de ter retirado o cinto de segurança. Me levantei, toquei na minha cabeça e constatei o que tinha acontecido. Minha mão estava toda ensanguentada e percebi que meu cabelo tinha sido arrancado. Daí dei um grito porque me assustei. Depois respirei fundo, me acalmei. Na hora do acidente não senti dor.

Ninguém veio me ajudar e Eduardo (Tumajan, o noivo) se desesperou e veio me ajudar. Comecei a pedir para ele se acalmar para não desmaiar. Eu fiquei lá esperando, enquanto isso ele (Eduardo) foi lá e tirou meu cabelo de dentro do motor do carro junto com meu couro cabeludo e colocou dentro da sacola do mercado. Eduardo estava muito nervoso e um senhor se solidarizou para levar a gente até o Hospital da Restauração. Todo o caminho fiquei consciente o tempo todo, acalmando Eduardo. No meio do caminho comecei a sentir dor. Quando cheguei na Restauração desci do carro e fui andando até certa parte. Eu não estava enxergando direito, pois meu olho inchou. O momento mais desesperador foi quando eles me deitaram porque minha cabeça estava aberta. Eduardo nesse momento desmaiou e levaram ele para outra sala. Fui levada para sala de cirurgia e acordei no outro dia.

Você acha que houve algum tipo de negligência por parte da empresa de kart?
Teve, sim, porque o material não era adequado. Se fosse adequado não teria acontecido esse acidente comigo. Até porque o kart em si não é inseguro, mas ele precisa ter os materiais adequados. Após o acidente, eu assisti a vídeos, principalmente de karts em São Paulo, que as mulheres são obrigadas a usarem macacão, balaclava, touca específica para cabelo, amarrar bem o cabelo. Há todo um procedimento que deveria ter sido seguido. Foi negligência clara. Até tinha um macacão lá, mas disseram que não era obrigado e seria só perda de tempo. Espero que meu caso ajude as pessoas a terem mais prudência quanto a isso. Não fiquem com medo de fazer as coisas, pois não devemos nos apegar ao medo, mas que tenha a segurança adequada.

Em qual momento você se deu conta da gravidade da situação?
Quando eu vi a foto no dia seguinte ao acidente eu disse: 'Meu Deus, como eu fiz isso que fiz?'. Porque eu praticamente prestei meus primeiros socorros. Eu que controlei a situação de uma maneira que parecia ter sido uma arranhão. Quando eu vi a foto me dei conta que tinha sido muito mais grave do que imaginava. Mas fiquei muito feliz porque não tive nenhum dano que impedisse meu sonho de ser neurocirurgiã. Minha visão está perfeita. Isso para mim foi um alívio muito grande. Apesar de tudo, essa não foi a pior dor que sofri. A pior dor foi ter perdido a minha mãe. Esse foi só mais um desafio que certamente não vai me derrubar. Meus sonhos estão aí. Tenho muita gente para ajudar.

Em algum momento você sentiu medo do que poderia acontecer?
Eu sempre confiei muito na minha equipe médica. Talvez em algum momento eu tenha me sentido amedrontada, principalmente quando pensei na minha visão que ficou danificada no começo, pois minhas pálpebras não fechavam. Eu não enxergava direito e isso me assustou um pouco porque para um neurocirurgião a visão é extremamente importante. Depois que fui atendida por um oftalmologista e ele disse que não tive nenhum desvio na retina, não tive nenhum problema grave, isso me acalmou.

De onde você tira forças e otimismo para lidar com esta situação?
Eu sempre fui assim. Sempre acreditei que conseguiria as coisas. Uma parte da minha história é muito complicada. Eu perdi minha mãe com 16 anos, mas antes disso a gente já passava muita dificuldade, mas acreditei que tudo daria certo. Acho que isso foi ficando no meu DNA. A minha trajetória de vida foi o que me tornou o que sou hoje. Eu agradeço muito pelas dificuldades que passei, pois me tornaram mais forte, uma pessoa mais justa. E com essa (o acidente de kart) eu vou fazer da mesma forma.

Como as mensagens que você recebeu nas redes sociais te ajudaram?
Às vezes, a gente pensa que o ser humano não é bom, mas quando passamos por uma dificuldade são várias as pessoas que param para dizer que está orando por você, desejando coisas boas. Qualquer coisa que seja um ato de bondade sincero é muito lindo. Eu me arrepio só de falar. Eu senti na pele isso. Os bons pensamentos me tocaram de uma forma que não dá para esquecer. Eram pessoas sinceras o tempo todo com mensagens boas e isso me ajudou muito. Fico muito feliz em saber que muitas pessoas se comoveram pelo meu caso. Hoje me param nas ruas, me abraçam, dizem que torceram por mim. Eu acredito que o ser humano é bom e por acreditar nas pessoas eu quero salvar as vidas delas.

Como está sendo a retomada da rotina?
Ver o sol de novo é muito bom (risos). Andar na rua. Eu sempre trabalhei muito, andava muito e estava sentindo muita falta disso. Estamos passeando aqui. Tirando uma semaninha de férias para conhecer Ribeirão. Conheci o bosque, fui em shopping. Estou louca para voltar a estudar, pois acho que o aprendizado ninguém pode tomar da gente. Posso perder muitas coisas, mas o que aprendi tenho certeza que ninguém pode me tomar. O estudo para mim é tudo.

Você está sentindo muita falta do Recife?
Acredita que toda vez que vejo uma foto de Recife eu choro? Sinto falta de tudo, de ver as pontes lindas do Recife, dos meus gatos. Todo dia ligo para eles. Pelo visto, vou ter que trazer para cá. Saudade de mãe é terrível.

Quando voltar ao Recife qual a primeira coisa que vai fazer?
Vou ver meus gatos. Sair do aeroporto correndo para lá. Depois quero visitar as pessoas do hospital que me acolheram de uma forma tão amorosa. Quero ir no meu trabalho para ver meu alunos, que estou sentindo muita falta deles também. No meu curso. Logo, logo estou aí de novo. Quero voltar para minha cidade, minha terra.

Quais teus planos para o futuro?
Vou continuar estudando. Infelizmente, talvez eu não consiga fazer o Enem esse ano por conta das cirurgias, mas vou continuar nesse ritmo e tentar fazer provas para estudar no exterior. Eu aprendi inglês no meu trabalho e isso vai me dar a oportunidade de fazer provas para estudar fora do Brasil. O sonho de ser médica está mantido e nada que aconteceu vai mudar isso. Muito pelo contrário. Fico até mais animada.

Qual a maior lição que você tira disso tudo?
São tantas lições, tantos aprendizados. Espero que a maior lição que eu tenha tirado seja a empatia que vou poder ter com meus pacientes. A gente só sabe o lado das outras pessoas quando a gente passa. Tenho certeza que vou sempre tratar meus pacientes com o maior carinho e amor porque foi isso que aprendi vendo tudo que passei. O amor é muito importante para a gente, para a recuperação, para a gente se sustentar. Quando uma pessoa lhe trata com simpatia, sorriso, muda tudo. Vou ser uma boa médica, pois vou amar meus pacientes e cuidar deles. Aprendi que o amor é muito importante para qualquer recuperação.

Qual mensagem você gostaria de deixar para quem vem acompanhando teu caso?
Quero agradecer a todos pelas energias positivas. Eu sinto essas vibrações. É muito lindo e fico muito feliz em saber que tem pessoas tão boas. Sempre mando energia positiva a elas de volta e elas me fortificaram. Foi muito importante para mim. Só pensando em alguma coisa que seja boa para mim quero dizer a elas que agradeço e estão fazendo toda diferença para mim.

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