Trans: nomes não mudam essência, mas são essenciais

A mudança do nome é um passo importante na identidade do cidadão e ainda enfrenta preconceito de muitos

Daniel é um homem trans que está passando pelo processo de readequação de gênero. O desconforto com o corpo e as imposições sociais que sofria por seu gênero biológico estavam presentes desde bastante jovemDaniel é um homem trans que está passando pelo processo de readequação de gênero. O desconforto com o corpo e as imposições sociais que sofria por seu gênero biológico estavam presentes desde bastante jovem - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

O Brasil ocupa o primeiro lugar em casos de homicídios à população LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais) - apenas em 2016 foram assassinados 144 transexuais no País . Para chamar atenção sobre dados com esse, esta quarta-feira (17) é celebrado o Dia de Combate à Transfobia no mundo e LGBTfobia no Brasil. A realidade vivida por essas pessoas é caracterizada por uma constante pressão social e o Nordeste é região mais perigosa, onde muitos crimes não são contabilizados de forma oficial.

A intolerância sofrida pelos transexuais pode ser sentida nas redes socais. Um exemplo foi a postagem realizada pelo portal FolhaPE na manhã da última segunda-feira (15),sobre uma peça de teatro que será estrelada pelo filho da cantora Grecthen, Thammy Miranda. Nos comentários, foi percebido que o uso dos pronomes masculinos para se referir ao ator causou confusão para alguns leitores. Thammy é um empresário que se define publicamente como um homem transexual. Ele passou por diversos tratamentos hormonais para conquistar a aparência que hoje é considerada socialmente como masculina, mas, mesmo tendo se submetido a um difícil processo físico e psicológico, para algumas pessoas continua sendo difícil aceitar o artigo ‘o’ antes do nome dele.

Uma das principais dificuldades encaradas por quem passa pelo processo de readequação sexual é a mudança de nome. De acordo com a advogada Laura Kerstenetzky, que trabalha na ONG Gestos(organização de apoio e serviços a população LGBT e soropositiva no Recife), o processo judicial para conseguir uma designação oficial de acordo com a identificação do indivíduo é longo e complicado, levando de seis meses a três anos para ser concluído, a depender do município, dos advogados e do juiz. Mas esse processo já foi facilitado em Pernambuco, que não exige a cirurgia para iniciar a mudança de nome.

Embora pareça simples, o nome ainda é uma questão que deixa a muitos confusos, mas que deve ter como principal norte o respeito pelo outro. Nesse caso, o mais prudente é perguntar como ele se sente mais confortável, evitando o constrangimento. “O respeito é fundamental, independente da ‘aceitação’ daquele indivíduo”, afirma Laura. “A falta desse respeito causa transtornos psicológicos e é, às vezes, utilizada para justificar violência contra essas pessoas”.

“Uma prisão dentro do próprio corpo”. Era assim que Abby Moreira, designer de 41 anos, se sentia desde seus quatro anos de idade, quando ainda morava no interior com a família e costumava vestir as roupas da irmã, por não aceitar o corpo que tinha. Quando era pequena, foi ensinada que não se vestir de menino era errado por causa da religião seguida pela mãe - essa opressão causou traumas que a acompanharam durante a adolescência e parte da vida adulta.

Abby chegou a pensar em se tornar padre pouco antes de conhecer A esposa Iracema Fonseca, que a acompanhou durante o processo de mudança hormonal e com quem vive uma relação considerada por elas como “o improvável que aconteceu”. Durante essa união, que já dura 22 anos, as duas passaram por tempos difíceis em que Abby chegou “a desistir de viver porque era insuportável olhar para o espelho”. A situação começou a mudar a partir da terapia hormonal.

Apesar de existir um tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Abby preferiu começar o tratamento se medicando sem orientação médica por vergonha de ir ao Hospital das Clínicas, no Recife. Hoje essa rotina mudou: ela é acompanhada por uma médica e uma psicóloga de quem fala com muito carinho - são pessoas que fazem ela se tornar cada vez mais o reflexo que ela quer ver no espelho. Mas, por não se dar muito bem com os remédios disponibilizados pelo HC, ela chega a gastar R$ 250 por mês para manter a terapia hormonal.

São muitas as dificuldades encontradas no caminho e apesar de nunca ter sofrido nenhuma violência explícita, os olhares de estranheza e risos que a perseguem ao sair de um lugar ainda magoam. De acordo com a designer, “ninguém escolhe ser transgênero porque é moda, você simplesmente é”. A condição pode colocá-la em situações complicadas como ir ao banheiro em um lugar público. Embora a política do Estado ateste que as pessoas devem usar o banheiro de acordo com o gênero que se identificam, ela teme ir ao banheiro feminino pela reação das senhoras mais velhas.

Recentemente, Abby Moreira foi aprovada para guarda civil de Jaboatão dos Guararapes e será a primeira mulher transexual a assumir o cargo no município. Chegando nesse território novo e inexplorado, ela torce para que a reação seja o mais natural possível, como a do filho de 15 anos, que entendeu de forma simples e exemplar a verdade sobre a identificação de gênero de Abby.

A voz do homem trans
Daniel Iannarella é um homem trans que está passando pelo processo de readequação de gênero. O desconforto com o corpo e as imposições sociais que sofria por seu gênero biológico estavam presentes desde bastante jovem, mas foi só há cerca de dois anos que ele percebeu que sua vida seria melhor se um passo importante fosse tomado em direção à própria aceitação. Depois de passar por uma cirurgia para a qual teve que cortar o cabelo, a mudança de gênero foi se tornando o caminho mais natural. Passando a infância sabendo que seria mais feliz com um corpo masculino e jogando futebol ao invés de fazer balé, Daniel escolheu se dar um tempo para se acostumar com a mudança que viria.

A terapia hormonal é um processo invasivo E realmente traz mudanças físicas que o auxiliaram a se sentir melhor, mas que trazem altos e baixos emocionais, requerendo apoio profissional. A primeira dose foi uma experiência especialmente marcante para Daniel, que aplicou a própria injeção, após ter recebido indicações médicas, de tão ansioso que estava e gravou o processo, que exibe com felicidade e orgulho.

Embora queira passar pela cirurgia de readequação, ele ainda não conseguiu, já que a histerectomia, remoção parcial ou completa do útero, além da cirurgia de implante de prótese, não existe no HC, estando disponível apenas em nível experimental em poucos hospitais universitários. Quanto à mastectomia, ele afirma já estar na fila e pensou bastante sobre o processo. “A imagem do meu corpo na minha cabeça já esta formada e os seios não precisam mais estar ali”.

A mudança na voz foi uma das mais marcantes para Daniel. “Eu fui pedir sushi pelo telefone e o atendente perguntou ‘O quê, senhor?’, e aquilo me deixou muito feliz”. A partir dessa mudança, ele percebeu que queria se impor mais, uma necessidade enxergada em muitos homens trans. Pra ele, esse traço ainda é uma herança do silenciamento machista que as mulheres sofrem na sociedade brasileira.

O suporte oferecido pela família nos pequenos detalhes é considerado muito importante por ele, como, por exemplo, uma camisa ‘masculina’ que recebeu da mãe ou o carinho e respeito com que ela o trata. “São pequenas situações que acabam importando muito” afirma Daniel. Uma das poucas experiências negativas relatadas por ele foi quando já estava na faculdade, cursando pedagogia e um homem se recusou a tratá-lo pelo nome Daniel e se referia a ele com pronomes femininos.

O processo que Daniel começará para a retificação de nome é uma grande vitória para ele. “Mostrar meus documentos é um motivo de constrangimento. Parece que eu estou pedindo um favor quando digo para me chamarem de Daniel”. O processo é longo, mas vale a pena pela dignidade que o acompanha.

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