Transição de gênero com mais segurança

Hospital da Mulher do Recife acompanha e orienta pessoas trans a realizarem o processo de hormonização

Noah sempre soube que era homem, mas nasceu mulher. Agora, ele pode realizar o tratamentoNoah sempre soube que era homem, mas nasceu mulher. Agora, ele pode realizar o tratamento - Foto: José Britto

A liberdade para transformar o próprio corpo de acordo com a sua identidade de gênero tem se tornado realidade para os pacientes transsexuais do Hospital da Mulher, no Curado, Zona Oeste do Recife. Isso porque a unidade oferece o tratamento de hormonização para o público LBT (lésbicas, bissexuais e transsexuais). A medida é um caminho para a transição de gênero e reafirmação da identidade do indivíduo através do tratamento hormonal.

Noah, 21, sabe que é um homem desde criança, apesar de ter nascido com gênero biológico feminino. Atualmente, ele está passando pela triagem necessária antes de realizar o procedimento. “Sempre entendi que era menino e estranhava meus pais não saberem também. Por causa da falta de entendimento deles, eu era obrigado a usar vestidos, mesmo brigando muito para não usar. E me sentia muito mal”, lembra.

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Inicialmente, Noah está realizando exames para descobrir quais hormônios serão aplicados no seu tratamento. Também está sendo acompanhado por um psicólogo. Em breve, deve iniciar a hormonização. Para ele, é como se fosse finalmente tirar o vestido. “Na puberdade, eu acreditava que fossem nascer pelos, que o corpo ficasse mais masculino. Mas isso não aconteceu, foi muito frustrante. Meus pais faziam pressão em torno do mundo feminino, foi horrível.” Morando há um ano na casa da namorada, Noah se sente apto a realizar a mudança no corpo, já que não vive mais com os pais.

Para realizar o atendimento, é preciso procurar a unidade de saúde mais próxima, para ser encaminhado pela Central de Regulação do Recife para o Hospital da Mulher, onde o paciente é esclarecido sobre o processo a ser realizado. A partir disso, se o homem ou a mulher trans não apresentar impedimentos físicos ou psicológicos para o tratamento, é encaminhado para o endocrinologista. Todo o procedimento já está disponível e é inteiramente gratuito.

“O Hospital, que já acolhia a população através de exames e atendimento hospitalar, dá mais um passo para abraçar a causa, agora com essa suplementação através do tratamento de hormonização, algo que era muito procurado pelos pacientes trans da unidade”, explica o responsável pelo atendimento ao público LBT, doutor Cleytoon Davi. Ele argumenta que o novo tipo de atendimento combate o alto índice de automedicação hormonal entre os trans.

Segundo o Ambulatório Recifense LGBTI Patrícia Gomes, 77% da população trans e travesti já realizou o procedimento sem acompanhamento médico. “Realizamos todas as medidas necessárias para que o indivíduo inicie de forma segura e consciente de seu tratamento, através de atenção e assistência”, ressalta Cleytoon.

O assistente social do Instituto Boa Vista, Henrique Costa, atua na defesa dos direitos da comunidade LGBT. Ele ressalta que a automedicação dentre os indivíduos trans tem um recorte socioeconômico específico, porque, muitas vezes, não há recursos financeiros suficientes. “Eles recorrem a um hormônio mais agressivo à saúde. Então, o fato do Estado disponibilizar mais uma unidade para esse tratamento é uma forma de a gente criar um campo de cuidados mais seguro”.

“Essa é mais uma conquista para a população LGBTQ+”, avalia o professor Jean Gregório, de 23 anos. Ele realiza tratamento hormonal na rede pública desde dezembro do ano passado. “O Hospital da Mulher é uma unidade de grande porte e, com certeza, será um dos agentes facilitadores para que a informação e acesso à saúde chegue a grande parte dessa população."

Além do Hospital da Mulher do Recife, o Hospital das Clínicas, na Cidade Universitária é referência na saúde das pessoas trans, e o único no Estado que realiza o procedimento cirúrgico de readequação sexual. O Cisam, na Encruzilhada e o Ambulatório do Recife, na policlínica Lessa de Andrade, na Madalena, também realizam o tratamento de hormonização.

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