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Transplante do Faustão repercute com fake news sobre fila do SUS e até vacinas da Covid

Pesquisadores identificaram conteúdos que questionavam rapidez do procedimento

Faustão agradeceu à família do doadorFaustão agradeceu à família do doador - Foto: Reprodução Instagram

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Um levantamento da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getúlio Vargas (FGV - ECMI), obtido pelo Globo, mostra que o transplante de coração do apresentador Fausto Silva, o Faustão, motivou a maior alta no debate sobre saúde nas redes sociais dos últimos três meses.

Porém, revela que muitas narrativas que circularam nas plataformas envolviam desinformação sobre o funcionamento da fila de transplantes do Sistema Único de Saúde (SUS) e até mesmo sobre as vacinas da Covid-19.

Os pesquisadores analisaram 5.186 publicações no Instagram; 22.541, no Facebook e Instagram, e 110 mensagens no Telegram sobre o assunto, veiculadas entre 1 e 30 de agosto. No X (antigo Twitter), foram coletadas 2.465.474 postagens no mesmo período, mas sobre todos os temas de saúde no geral.

— O transplante gerou um questionamento por parte de opositores do governo com uma suspeita em relação à administração do SUS, um suposto favorecimento ao apresentador. Mas também, por outro lado, pela população comum por uma noção geral de que o SUS é demorado, burocrático, e um desconhecimento de determinados serviços. Esses dois pontos, um motivado por disputa política, e outro por uma dúvida legítima, levantaram essa desconfiança — explica Victor Piaia, professor da FGV - ECMI.

Faustão recebeu um novo coração no último domingo, em procedimento realizado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele havia sido diagnosticado com um quadro de insuficiência cardíaca grave e recebido indicação para o transplante no último dia 20, cerca de uma semana antes da cirurgia.

Segundo informações do painel do Sistema de Transplantes do Brasil, logo após a inclusão de Faustão havia 385 pessoas aguardando um novo coração. O apresentador, porém, não furou a fila. Fatores como a gravidade do seu caso tornaram ele prioridade, o que o levou ao início da lista de espera.

Porém, mesmo após o Ministério da Saúde emitir uma nota esclarecendo sobre o funcionamento dos transplantes no Brasil, internautas continuaram a disseminar desinformação sobre o tema nas redes, mostra a FGV.

No X (antigo Twitter), foram feitas ainda comparações com o cantor MC Marcinho, que morreu no dia anterior ao transplante com falência múltipla de órgãos. Isso embora o funkeiro tenha sido retirado da lista de transplantes dias antes devido a uma infecção generalizada.

Ainda assim, Piaia ressalta que a onda de desinformação também provocou uma reação em defesa do SUS nas redes:

— A discussão abriu um espaço em que diversas figuras públicas se posicionaram sobre a importância do SUS, explicando a fila do transplante. Tanto que, no levantamento, o termo “Viva o SUS” se destacou. Então as dúvidas acabaram gerando também um movimento contrário em que se valorizou a experiência do SUS no Brasil.

Fake news sobre vacina da Covid-19
O levantamento mostra que a desinformação chegou até mesmo às vacinas da Covid-19. No Telegram, além das mentiras sobre a fila do SUS, houve mensagens alegando que o apresentador teria desenvolvido a insuficiência cardíaca devido à imunização contra o coronavírus.

No entanto, Faustão já tinha problemas cardíacos antes mesmo de a vacinação contra a Covid-19 ter início no Brasil. Em dezembro de 2020, meses antes de a primeira dose ter sido aplicada, o apresentador colocou um marca-passo – pequeno aparelho implantado perto do coração para monitorar e controlar os batimentos cardíacos.

Além disso, no Instagram e no Facebook, publicações sugeriam que a vacina seria a causa do óbito do suposto doador do coração de Faustão, um jogador de futebol que morreu aos 35 anos, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico, um dia antes do procedimento.

As alegações ocorrem embora mais de 13,5 bilhões de doses contra a Covid-19 tenham sido aplicadas no mundo, e todas as análises das autoridades de saúde tenham confirmado que efeitos adversos graves são raríssimos.

Em julho, por exemplo, a Coalizão Internacional de Autoridades Reguladoras de Medicamentos (ICMRA, na sigla em inglês), da qual a Anvisa faz parte, emitiu um documento novamente reforçando a segurança dos imunizantes.

Disse que as bilhões de doses comprovam que "as vacinas contra Covid-19 têm um perfil de segurança muito bom em todos os grupos etários”. “Os benefícios das vacinas aprovadas compensam consideravelmente os possíveis riscos. A grande maioria dos efeitos colaterais é de natureza leve e temporária”, continua.

Além disso, destaca que as avaliações de efeitos adversos “demonstram que, na maioria dos casos, os eventos médicos não foram causados pela vacina”. E alerta que “a desinformação sobre as vacinas, que leva as pessoas a recusarem a vacinação, provavelmente ocasionou muito mais mortes do que os efeitos adversos das vacinas”.

— Esse fenômeno parece que não morreu. A desinformação sobre vacinas foi muito forte no período da Covid, mas continua acontecendo em espaços reservados. Nós identificamos muito claramente grupos antivacina que propagaram informações relacionando o problema de Faustão à vacinação. Então vemos que são grupos que se aproveitam de eventos isolados para continuar fomentando esse tipo de desinformação — explica Piaia.

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